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O 21, o 57 e o 78 A minha avó aprendeu a cozinhar quando tinha uns oito anos, porque a mãe dela morreu e ela tinha que fazer a comida para os irmãos e o pai. Sempre me contava que botavam um banquinho para que ela pudesse alcançar o fogão da casa de fazenda onde eles moravam. Como não tinha geladeira, a carne era, por assim dizer, bem fresca. Tipo abatida na hora. A minha mãe aprendeu a cozinhar depois que se casou com o meu pai, um dia antes de fazer 20 anos. Ela sempre me contava que queimou umas quinze panelas de arroz, empapou umas dez e encruou outras cinco até acertar. E meu pai comia e dizia que estava bom. Eu aprendi a cozinhar com uns 17 anos. Depois que meus pais se separaram, minha mãe voltou a trabalhar e eu era a responsável pelo jantar. Mas a dona Raimunda, nossa secretária do lar de então, me puxava de canto e dizia: “filha, eu já fiz o arroz e temperei a carne. Depois você só põe na panela e diz para sua mãe que foi você quem fez tudo”. Mesmo assim aprendi rápido, porque eu gostava. Minha avó estudou até a quarta série. A professora logo viu que ela gostava daquilo e nomeou-a ajudante. Ela passou mais uns dois ou três anos naquela escola da roça, que só ia até o último ano primário, sob o título de assistente. Minha mãe parou de estudar quando ficou grávida de mim. Ela estudou em escolas públicas, “quando as escolas públicas é que eram as boas”, me conta sempre. Também estudou em colégio de freira. Depois que eu nasci, ela voltou a estudar e terminou o colégio. Eu ficava com a minha avó e, na hora do almoço, ia esperá-la no portão; era uma espécie de ritual. Quando ela aparecia lá em cima, no alto da ladeira, minha vó dizia “pode ir”; eu saía correndo, minha mãe largava o material no chão e me pegava no colo. Ela terminou a faculdade quando eu tinha 13 anos. Eu nunca estudei em escola pública, só no pré. Eu já sabia ler e não gostava muito do lanche, a não ser no dia em que tinha pão com carne moída e groselha para beber. Então não achava a escola exatamente atraente e chorava todo dia, porque não queria ficar longe da minha mãe. O pai da minha avó ouvia ópera e perdeu tudo que tinha investido em café quando a bolsa quebrou. O pai da minha mãe trabalhava como ferramenteiro e construiu a própria casa. O meu pai trabalhava no “escritório” de uma firma de auto-peças – e isso era basicamente tudo o que eu sabia sobre o trabalho dele. Quando minha avó era pequena, a mãe dela contava histórias para as crianças nos dias em que estava boa – ela tinha câncer e morreu bem aos pouquinhos, em casa. Quando minha mãe era pequena, um dia minha avó abriu um monte de sulcos na horta do quintal da casa delas, mandou minha mãe botar um grão de milho dentro de cada um, cobriu e falou: “você nem imagina o que vai acontecer!”; minha mãe esperou ansiosamente e ficou absolutamente arrebatada quando viu as folhinhas verdes despontarem da terra; quando as plantas deram espigas, ela quase morreu de espanto e alegria. Quando eu era pequena, minha mãe me veio com uma história de que havia uma estrelinha dentro das maçãs que eram cortadas latitudinalmente; eu duvidei e ela disse “vou te mostrar”; entrou no nosso quarto, mandou a gente apagar a luz, acendeu uma vela, cortou a maçã e me mostrou (tinha mesmo um desenho bem parecido com uma estrela); depois, assoprou a vela; falou: “olha, tá se mexendo!” e me perseguiu pelo quarto escuro com uma daquelas estrelas adesivas que brilhavam no escuro presa à ponta do dedo, para meu completo delírio. A casa da minha avó em São Paulo tinha um galinheiro. Ela trabalhou numa tecelagem antes de se casar com o meu avô. Minha mãe salvou um pintinho doente do galinheiro e foi telefonista antes de se casar com o meu pai. Eu nunca comi galinha abatida na hora, só daquelas que vêm nas bandejinhas de isopor do supermercado – e, apesar de trabalhar desde os 17, tenho só dois registros na carteira de trabalho. Minha vó nasceu em 1921; minha mãe, em 1957, e eu, em 1978. Agora é 2007 e um monte de coisas mudaram. Mas ser avó, mãe e filha continua quase igual. Clara McFly às 10:50 AM |
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