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Podemos falar de nojeira? Eu sei, é desagradável. É revoltante, deplorável, um acinte. Mas fazer o quê? Chega um dia em que é preciso falar das coisas que enojam a vida. Bacana não é, mas sabe... eu tenho irmão mais velho. Quem tem irmão mais velho não tem muita medida sobre a repugnância das coisas. Ora essa, ele se sentava pra almoçar, abarrotava a boca com purê de batata, batia no meu braço e, assim que eu olhava, começava a fazer um fictício movimento de manivela com a mão enquanto espremia a massaroca por entre os dentes. Poucas coisas, depois disso, podem me dar asco. A não ser umas tantas aí. A “maquininha de purê” ficou famosa na família (infelizmente). Logo, precisando me defender, aprendi uns truques – básicos, óbvio, porque eu sou menina. Como aquele de mastigar bem o macarrão com molho, chamar o vizinho de cadeira e abrir a boca pra ele ver tudo nojentamente triturado lá dentro. Não, não me orgulho disso. Mas era preciso criar uma resistência contra porquices. E, ademais, eu sempre fui muito nojentinha. Tinha que ter um escape. Desde cedo, pegava nojo fácil. Não de areia da praia ou dos bolinhos de lama, pois sujeira vegetal e mineral sempre achei o máximo. Mas, por exemplo, não tolerava comer bife e ver aqueles nervos no meio da carne. Aliás, ainda não tolero. Note bem: eu adoro mandar um belo filé pela goela, mas não quero lembrar que se trata de carne, coisa que já foi viva, etc. Nervos, assim como artérias, eu não quero nem sonhar em ver. Estraga almoço. Deve ser a maldição que o boi colocou sobre mim. A escola foi o primeiro lugar que começou a me enojar – e nem estou falando aqui das meninas populares ou da coxinha da cantina. Falo é das aulas de biologia. “Ciências e Saúde”, era como se chamava ainda no primário. E lá, num laboratório improvisado, a professora Márcia nos falou sobre a tênia. Taenia solium e Taenia saginata. Precisei levantar a mão e pedir pra ir ao banheiro, mesmo sem vontade de fazer xixi. Nada, naquele momento, podia ser mais asqueroso. Um bicho que entra pela boca, por meio da carne mal cozida, e põe ovos na sua barriga? Soberbo. Então cresce lá dentro e vai se alimentando das suas paredes intestinais? Nhami. De pensar nessa coisa, tenho náusea. De ver um episódio do seriado “CSI”, onde o sujeito já morto verte uma coisa dessas pela boca em plena autópsia, desliguei a TV e dispensei o jantar. Quase empata com o revertério profundo que me dá o bicho geográfico. Teria tudo a ver comigo, que sou, assim, uma pessoa bem “geográfica”. Mas ele não gosta de mapas, Atlas e bússolas, como eu. Gosta de andar debaixo da pele humana, essa porcaria grotesca. E se origina dos números 1 e 2 de gatos e cachorros com probleminhas de saúde. Eu agüento? Já de criança, fiz a promessa e registrei para toda a família: se eu pegar bicho geográfico, podem mandar amputar minha perna. Sério, podem amputar. Tudo bem que o meu clã já não leva a sério. Uma vez, menininha, passei um dia todo andando a cavalo no sítio. Eu e minha prima – mas é claro que fui eu a garota premiada com um belo carrapato. Quando vi, gritei, berrei e desesperei querendo puxar aquela desgraça para longe do meu ser! Minha mãe, safa, segurou as mãos, largou um tanto de álcool no maldito e tirou. “O álcool faz sair as pernas! Se você puxá-lo, as perninhas ficam e ele cresce de novo”. Pode haver algo mais repugnante? Talvez o Alien, mas não sei, não. E eu achava, ainda na meninice, que carrapato podia ser a coisa mais nojenta a atacar humanos em um sítio. Não sabia do tal berne. A mosca desgraçada vem e coloca ovinhos desgraçados sobre um corpo vivo, de bicho ou de gente. A coisa entra na epiderme e começa a morar lá dentro... morar, gente. Como num condomínio de alto padrão. O furúnculo se espalha, a coisa dói, a ferida não cessa. Daí o povo da roça descobriu que, colocando um pedaço de toucinho no local, isso faz o berne querer sair, e então ele pode ser despejado. Um troço repulsivo! E além de repulsivo, fadado à obesidade devido a essa loucura por bacon! O corpo humano atrai tanta porquice porque é nojento por si. Nem vamos entrar em detalhes, porque, só de escrever essas linhas, o café da manhã está começando a se rebelar. E aí seria preciso falar de vômito, uma nojeirice ímpar. Prefiro também não tocar em assuntos que saiam do nariz, das orelhas, das vias normais de alívio – e muito menos de cuspe, porque acho uma das sete coisas mais aviltantes criadas pelo homem (principalmente o homem jogador de futebol, que faz questão de cuspir bem quando a câmera o capta). Melhor encerrar por aqui mesmo. Afinal, nem todo mundo tolera esse tipo de papo. Afinal, nem todo mundo teve irmão mais velho. . . . . . O texto de hoje deveria ter foto, Fla Wonka às 09:40 AM |
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