terça-feira, 27 de março de 2007

Malhação

Meus problemas com a ginástica começaram de pequena, quando eu era sempre a última garota a ser escolhida para os times de handebol ou queimada na aula de Educação Física. Eu odiava aquele short estúpido de helanca, que deixava à mostra minhas canelinhas finas e expunha todo o meu (não) potencial para as atividades corporais.

Aliás, o problema em ser magrela na infância é que toda sua família vive tentando receitas miraculosas para te engordar. Eu me sentia no conto de João e Maria e pensava em ter sempre à mão um ossinho para enganar o pessoal. Vai que eles quisessem me assar. Não entendia porque era obrigada a tomar vitamina de ovo de pata, óleo de fígado de bacalhau e outros quetais para, depois de um tempo de “tratamento”, encarar a balança e ver o ponteiro sempre no mesmo lugar. Frustrante.

Se bem que posso dizer que fazia um certo exercício diário, pelo menos nos tempos de pré-escola. Minha mãe não tinha carro e a gente ia para a EMEI a pé. Às vezes dávamos uma esticada até o mercadinho ou o açougue. E há que se contar as brincadeiras de roda, pega-pega e esconde-esconde da fase. Mas depois que minha mãe conseguiu habilitação e eu me mudei para uma escola a quilômetros de casa, aí a coisa ficou preta. E bem parada.

Virei uma sedentária de carteirinha. Ia de carro à padaria, ao mercado, à escola. Por essas e outras (sendo “outras” a continuidade da magreza), minha mãe me matriculou na natação. Como diz a sabedoria popular, nadar abre o apetite. E abria mesmo, mas sempre se esquecem de considerar que nadar também queima calorias. O ponteiro da balança permaneceu no lugar, mas ganhei um pouco de fôlego, enquanto que meu pai perdeu um pouco de dinheiro. Com o clima londrino de São Bernardo, eu ia em duas aulas e faltava nas outras duas. Fechava o mês em meio a meio.

Eu adoro uma água, mas além do clima havia outro fator que me afastava da salutar prática das braçadas: eu o-di-a-va (assim mesmo, separadamente, para dar a ênfase necessária) o vestiário. Gente, o que era aquilo? Um monte de meninas e mães peladonas, uns pares de chuveiros meio frios, o cheiro insuportável de cloro. Eu achava uó me trocar na frente de pessoas que eu via uma vez por semana, quase sempre metidas numa touca e num roupão de bichinho. Não dá para respeitar.

As aulas de natação duraram uns três meses. Enquanto isso, na escola, chegávamos ao ginásio. E o currículo das aulas de Educação Física previam o ensino dos fundamentos do basquetebol. Pronto. Eu era um metro e meio de puro preparo para a prática do esporte que prioriza a altura. Excelente.

Foi aí que veio a virada: eu descobri que arremessava superbem. Superbem mesmo. O problema eram as meninas cujo desenvolvimento físico aparentava ter bem mais pressa que o meu. Elas me davam tocos como se não houvesse amanhã. Mesmo assim, eu não era mais a última a ser escolhida.

Minha fama durou até a fatídica aula em que marquei uma cesta logo de saída, com toda a classe embasbacada com a minha performance. Foi lindo. Eu corri a quadra toda sozinha, com a cabeça erguida, concentrada na tabela. Imaginei o arremesso antes de fazê-lo. Sabia que ia acertar.

Depois que a bola caiu, quase em câmera lenta, através da cesta, descobri que eu... er... hum... arremessara para o lado errado. Fiz dois pontos contra. Bem que estranhei não ter ninguém correndo atrás de mim enquanto eu atravessava, epicamente, toda a quadra. E vi que o embasbacamento da classe se devia à minha completa parvice em termos de senso de direção.

Tudo bem. Para falar a verdade, como criança frescura máxima que eu era, nem gostava de suar mesmo. Achava nojento terminar uma atividade toda molhada, desconfortável e grudenta. Desenhar ou ler não fazia toda essa sujeira e sempre me parecia muito melhor.

Anos depois (para ser sincera, quase agora), com a insistência da minha médica, comecei a me exercitar de novo. Ela dizia que minha alta ansiedade precisava de um escape. Eu ignorei o conselho o quanto pude (e pude por uns dois anos), amparada na absoluta falta de saco que tenho para com academias, seus freqüentadores de roupas fosforescentes e suas músicas cretinas. Até que um dia, quase surtada na frente do computador, simplesmente saí andando. E, feito o Gênesis, vi que isto era bom. Assim, naturalmente.

Uma coisa leva a outra e, quando dei por mim, já tinha passado a alongar e correr. Hoje, embora não tenha uma periodicidade muito definida para meus exercícios, se passo uma semana sem eles sinto diferença. Não na estética, já que eu continuo com as canelinhas finas e já me acostumei com elas, mas no humor e na disposição.

Só faço isso porque percebi, de verdade, como é legal se mexer um pouco. Não porque resolvi ter uma bunda durinha e um bíceps legal (claro que, se minha bunda e meus bíceps fizerem o favor de acompanhar o programa, agradeço).

Assim entrei num acordo com a prática de exercícios: ela não me diz o que fazer. E eu faço.


* * * * * *

Ela também faz

Como eu, a moça deste vídeo da Nike teve uma epifania. E, em cima da hora, trocou a faca pela salutar prática da dança.

Clara McFly às 10:08 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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