segunda-feira, 26 de março de 2007

Irreality show

Eu me pego com programas de realidade como molho de macarrão com blusa branca nova. Todo mundo que me conhece, sabe: se aparecer um reality show para escolher o novo porteiro de um prédio de luxo, eu estarei assistindo. Se nele usarem provas cretinas como “quem distribui correspondência mais rápido” ou “qual dos participantes consegue dizer, sem gaguejar, o Senhor Sergei Bubka está aqui em baixo, posso mandar subir?”, eu estarei assistindo. Se nas noites de eliminação o perdedor for mandado embora para casa entrando no elevador de serviço com setinha pra baixo, aos prantos, com muita fumaça cenográfica e ao som de “(I’ve Had) the Time Of My Life”, eu estarei assistindo. E me emocionando. Mas Big Brother Brasil? É dose, hein?

Reality show, eu acho, tem ao menos que esbarrar em alguma... realidade. Se a idéia é premiar o melhor lutador de boxe, que os sujeitos se peguem com vontade até soar o gongo. Se for para definir o cozinheiro chef de um restaurante em Vegas, vamos embora misturar criativamente arroz com mel, ervas e lasquinhas de siri albino. Mas para participar do tal BBB não é preciso ter nenhuma habilidade. E nenhuma imaginação.

Ficam, aqueles rapazes e garotas, deitados no sol, deitados no sofá, deitados na grama, deitados no gazebo, deitados uns sobre os outros. Parece reality show para descobrir o melhor paciente que contraiu malária. É de uma pasmaceira de fazer Macunaíma se assemelhar a um workaholic nova-iorquino.

Quando muito, vão à cozinha mostrar seus parcos conhecimentos de preparar arroz e ralar cenoura. Ou vão ao tanque mostrar como esfregam otimamente um short de tactel. Ou partem para a manguaça nas festas promovidas pelo programa. Ah, então: na vida real é assim mesmo, ficamos todos fazendo corpo mole e sendo ridículos donos de casa o tempo todo. Ah-hã.

Eu, por exemplo, acordo à 13h00 e visto o biquíni. Daí tomo café usando óculos escuros, depois dou um mergulho na piscina, saio, me estiro por quatro horas na espreguiçadeira. Então falo por mais cinco horas sobre em quem vou votar para deixar a minha casa e acabo beijando na boca gente que conheço faz três dias. Caio na gandaia vestindo fantasia de pirata e vou dormir às 5h00 de cara cheia. Claro! Todos os dias são assim para mim e para todos nós! É super reality.

Confesso ter visto o primeiro Big Brother quase todo; depois a maior parte do segundo; e umas partes do terceiro. E após tudo isso, francamente, comecei a achar uma grande estupidez. Levou tempo, mas foi essa a conclusão. Ratinhos de laboratório são mais interessantes do que aqueles candidatos. Como será a seleção para o BBB? Desenhou uma flor com pétalas e escreveu o nome completo, já está dentro, eu acho.

Nunca vi aquela turma ter UMA conversa que prestasse. Apenas papinhos furados e longuíssimas explanações filosóficas sobre quem merece sair da casa – operações matemáticas, pelo menos, a gente sabe que eles conseguem fazer, porque são ótimos na contabilidade de “eu voto em tu, tu vota nele, fulano fica com seis votos, noves fora, sai o cara que eu não gosto”. Mas pode ser também que a produção corte a parte das conversas normais. Afinal, muito mais emocionante é ver a câmera noturna pegar os carinhos de dois “desavisados” do que focar na opinião deles sobre um assunto.

O que eu sei é que nada pode ser mais enfadonho do que acompanhar um Big Brother Brasil. Não bastasse a moleirice e a falta de idéias, ainda é preciso aturar o fim de carreira de Pedro Bial, o homem incoerente que começou sendo um baita jornalista de campo e terminou conclamando pessoas estranhas com um embaraçoso “olá, meus heróis da nave do Big Brother!”. Derrocada total. Mas deve pagar bem, então ele não deve ligar muito.

Eu não ligo também. Aliás, desligo. Apareceu assunto de BBB na TV, salto para qualquer outra atração, mesmo que seja um documentário sobre liquidificadores. Não posso aturar um programa que vai dar R$ 1 milhão para o sujeito cujo mérito foi se apaixonar por uma loira bonitinha. E chamá-la de “porta”. E se fazer de vítima.

Sem querer dar uma de esperta ou arrogante, mas R$ 1 milhão não colocaria no rumo a vida de umas cem famílias? Talvez. Mas isso seria reality simples demais para quem inventou esse show.

* * * * * *

Estas garotas, sim, se mexem de verdade!

Não, não estamos recebendo R$ 1 milhão para mostrar esse divertidíssimo video produzido para a nova campanha da Nike. Mas eles confiam que nossos leitores acharão bacana! Nós também! Então, aí vai:

Fla Wonka às 10:02 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold