— O que cê tá fazendo?
— Tô escrevendo meu texto de amanhã.
— É sobre a Ana?
— Não, tonta.
— Tonta é você.
É sempre assim o começo do diálogo que mantenho com a minha irmã quando ela me pega no MSN. A Ana, no caso, é a própria – porque tal qual o Pelé, ela adora referir-se a si mesma usando o nome como se fosse uma entidade à parte. “Compra pra Ana?”, “A Ana quer ir” e “Ah, nem vai dividir com a Ana?” são algumas das frases que eu sempre escutei da boca da caçula. Trata-se apenas de uma faceta divertida e de onde essa veio há muitas outras. E como hoje a tal caçula completa 19 anos de idade, acho mais do que justo finalmente expor algumas delas e responder à freqüente pergunta no diálogo via internet de um jeito diferente. Sim, o texto de hoje é sobre a Ana!
Eu fui filha única por longos nove anos, até que caí na besteira de pedir um irmãozinho para meus pais. Não que minha vontade tenha sido decisiva no assunto, mas às vezes penso que poderia ter pedido uma bicicleta e saído no lucro. Enfim, um belo dia chegou em casa um pacote ruivo, com pipi e cheirando a queijo azedo. Um ano depois o universo, então, resolveu me dar um bônus (acho que sem saber participei de alguma promoção daquelas compre 1 e leve 2 com o divino) e lá veio outro pacote azedo, dessa vez sem pipi e com cabelinhos castanhos escuros.
E desde então a bebê tem crescido e me divertido com suas coisas. Aí vai meia dúzia delas...
Coisa número 1
Quando pequena, era tão fresca que até enjoava. Eu não faço a menor idéia de onde vinha tanta frescura se nossa família nunca foi cheia de grana ou de mordomia. Mas Ana nasceu assim, bem dondoca de núcleo rico da novela das oito. O episódio mais ilustrativo aconteceu quando ela fazia natação. Nossa tia era a encarregada de buscá-la na escolinha e certa vez resolveu levar para ela um pacote de bolacha Maria, já que a pirralha reclamava de fome depois da atividade. Quando minha doce irmã viu o lanche levado por titia, desdenhou: “não quero essa bolacha de pobre”.
Coisa número 2
Ela era extremamente agarrada com seus objetos, a que chamava de “belongs”. Vivia cercada deles e não deixava ninguém relar. Era hilário nas noites de Natal observar a Ana durante a entrega dos presentes: ela recebia o pacote, rasgava o embrulho, abria a caixa, tirava a boneca de dentro e colocava a dita cuja em uma sacola. Em seguida, pegava outro pacote, rasgava o embrulho, abria a caixa, tirava o urso de pelúcia e também colocava o dito cujo na mesma sacola. Seguia assim, juntando os “belongs” como uma formiguinha armazenando pedaços de folha.
Coisa número 3
Se agora ela é adepta do básico e não se emperiquita para quase nada, há alguns anos o lance era muito diferente. A gente adorava chamá-la de perua, mas talvez a melhor definição da Ana quando criança seja “mostruário de camelô”. Ela tinha umas 30 presilhas tic-tac, uns 15 anéis, umas 60 pulseiras e uns 20 colares – e fazia questão de usar tudo ao mesmo tempo. Até lenço no pescoço a danada botava. O resultado? Não havia um espaço sequer para o menor dos acessórios depois de “montada”. Vale lembrar que tanta produção era só para ir ao colégio e olhe lá.
Coisa número 4
Enquanto os trabalhos de escola do meu irmão e meus sempre foram feitos no maior capricho, os da Ana eram simplesmente terríveis. Ela fazia a tarefa de qualquer jeito, forçava demais o lápis, apagava com tanta convicção que a borracha por vezes fazia um rombo na folha (que era entregue assim mesmo). E a letra da pequena... Vixe. Até hoje é um tanto impossível conseguir entender o que ela escreve. Na caligrafia corrida da Ana, por exemplo, não se fecha o “a” completamente – o que o faz a primeira letra do alfabeto ficar mais parecida com um “c”. Tenho dó dos professores.
Coisa número 5
Ela tortura nossa pobre mãe. Tem a manha de ligar e dizer “mãe, vem me buscar?” justo quando a matriarca acabou de sair do banho e já estava botando um pijama gostoso. Quantas vezes eu não a vi no pé da coitada pedindo com voz de choro “mãe, faz batata frita?” ou “mãe, faz banana assada com chocolate?”. Isso quando Ana não junta requintes de crueldade e diz “mãe, tô com uma vontade de comer ...!” (complete com “rabanada”, “ovos nevados” ou qualquer outro quitute que dá muito trabalho para fazer, usa bastante louça e suja até o teto da cozinha com tanta meleca).
Coisa número 6
Minha irmã é imprevisível e nunca dá para adivinhar o que se passa naquela cabecinha. Quando tinha uns dez anos, quis aprender violino. Poucas primaveras depois, mudou para contrabaixo e montou uma banda de rock. Fez um curso de corte e costura e tinha certeza de que seguiria a carreira de moda. Acabou passando no vestibular para Letras. Entrou para valer no aprendizado de japonês e lê mangás no original. E, da última vez em que conversamos por telefone, me pediu uma encomenda. Nada de perfume da Victora’s Secret ou tênis da Adidas. Ela quer um dicionário de coreano.
Aliás, já imagino nossa próxima conversa no MSN:
— Lê meu texto de hoje, é em sua homenagem.
— Cê falou que a Ana é linda, meiga, divertida e inteligente?
— Não, tonta.
— Tonta é você.
Este texto é uma reedição. E como eu ainda não consegui falar com a Ana neste aniversário que passou, fica aqui um beijo para a minha irmã caçula. Saudades, pirralha!