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Fernanda, artilheira e margarida Estou lá, muito sossegada, na minha vida de estudante colegial. É 17 de abril de 1995. 9:43 da manhã, aula de Gramática. Entre adjuntos adnominais e declinações, recebo um pedacinho de papel meio irregular e dobrado. Quando abro, leio... “Se o mundo acabasse em águas profundas, 17/4/95, 9h43 da manhã, aula de Gramática. E hoje estou disposta a falar só merda mesmo. Era esse o tipo de coisa que a Ceretti dizia. A Ceretti, claro, não se chamava Ceretti. Este era o sobrenome dela. E, para ser chamada pelo sobrenome, não fica difícil supor que ela tinha um nome daqueles que assolaram minha geração: Fernanda. Estudamos na mesma escola a vida inteira. Ela, desde os quatro anos. Eu, desde os sete. Ambas até os 18. Neste meio tempo, pude conhecer bem a Ceretti. Ela tinha fama de esquentada – e não era à toa. Tinha um gênio do cão. Mas era muito doce e sensível, ao mesmo tempo. Loira, olhos claros, baixinha. Eleita a menina mais bonita do primário. Era artilheira nos campeonatos de handebol. Usava blusão amarrado na cintura. Morria de vergonha de já ter peito e usar sutiã desde a 4ª série. Lá pela 5ª série ficamos amigas mesmo. Aí eu ia fazer trabalho na casa dela. Uma vez a gente tinha uma tarefa de Geografia, que consistia em fazer uma maquete de um engenho de açúcar. Combinamos argila, palitos de sorvete e bonequinhos jogadores, daqueles de bolo de futebol, para compor o cenário. Mas os bonequinhos escravos receberam tinta preta porque, pasmem, não vendiam bonequinhos... “de cor”. Não sei se foi por causa deste ou de outro trabalho, mas teve um ano em que brigamos e passamos inteiro sem nos falar. Eu xingava ela de cá e ela me xingava de lá, cada qual amparada por seu grupo de apoio – vocês sabem, o comportamento de pré-adolescentes daria um documentário da National Geographic fácil, fácil. E, hoje, eu nem lembro o porquê da rusga! Quando ficamos amigas de novo foi para valer. Ela contava histórias simplesmente hilárias que aconteciam na casa dela, quando os pais brigavam ou quando o namorado da irmã, verdadeira figura, dava escândalos pedindo para reatar a relação rompida. Hoje, percebo que talvez ela mesma não achasse as histórias tão engraçadas. Ou vai ver achava, porque era um jeito de desopilar. A Ceretti foi uma das primeiras estudantes a ter computador – e a saber mexer com ele. Ela digitava os trabalhos, inventava banners, trocava mensagens via BBS (não riam, era tudo o que dava para fazer com um computador à época). O pai dela era professor de latim. Uma filha tão moderna e um pai ensinando latim. Mas eles se davam superbem. O Ceretti também deu aula de Português para a gente, e eu acho que a Ceretti se constrangia um pouco com isso. Ela era cheia de constrangimentos, mas sempre dava um jeito. Talvez por causa de seu impagável senso de humor. Tinha uma cara de princesa e uma atitude e vocabulário de barraqueira. Mas às vezes se traía e deixava escapar doçuras. Como quando me ensinava receitas de bolo de chocolate. Ou se dava ao trabalho de me escrever cartas e remetê-las para Bertioga, onde eu passava as férias de verão (ela foi minha confidente durante uma temporada, lendo atentamente sobre os meus amores, alegrias e enroscos adolescentes). Fomos juntas até o fim – ou seja, até a formatura do colegial. Enquanto as outras 15 ou 16 meninas da primeira turma de Magistério do colégio se esmeravam em escolher vestidos das mais diversas cores e cortes, a Ceretti decidiu ir de terno. E ficou bem. Depois que nos formamos, vi a Ceretti pouquíssimas vezes. É uma lástima, porque não é todo dia que a gente encontra alguém capaz de te ensinar receitas, escrever cartas, ser artilheira de handey, mandar bilhetes bizarros, operar um computador, dar aulas e envergar um terno na formatura – tudo, e mais, com a mesma naturalidade. “Encontrei Margarida perfumada -- Margarida Perfumada, Timbalada. Música dedicada à Ceretti no dia da nossa formatura.
Ainda não deu a fita? Então corre dar. No Mural Virtual você pode divulgar o endereço do seu site favorito. Acho que vou lá dar uma olhada se tem algum site de localização de amigos que a gente nunca mais viu. Clica aqui e vem também. Clara McFly às 11:12 AM |
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