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Sweet thirty two Eu sentei na mesinha de fora, porque dentro do estabelecimento jorrava um ar-condicionado programado no nível “Polar”. O café viria logo, disse a mocinha do balcão. Com essa mania divina e inocente de espichar a orelha para ouvir conversa dos outros, localizei a próxima vítima. Lá estava ela: menina, cabelão revoltado, expressão dura no olhar, uma interlocutora logo à frente. E então finalmente consegui apanhar a meada da importante conversa: - E aí ele veio atrás de mim na cozinha e me deu um cata! E eu entendi tudo o que viria daí por diante. - Eu disse pra ele que não ia rolar... Disse ‘Dé, não rola, eu não tô legal...’. Mas ficava insistindo, sabe? Onde eu ia na casa, até no quarto da Tia Sônia, ele tava no meu pé. Sendo quinta-feira pós-Carnaval, entendi que se tratava de uma viagem de turma. De turminha mesmo, daquelas que juntam uma dúzia de moleques e uma mãe abnegada pra fingir que toma conta da casa. - Toda vez que eu ficava louca, ele vinha. Tive um surto de três segundos. Caramba, uma menina dessas já dizendo que fica “louca”?? E numa viagem de Carnaval com a “Tia Sônia” logo ali, no quarto ao lado? Respirei fundo pensando na derrocada da Humanidade enquanto sociedade civilizada quando... - Eu pegava no copo de batida, lá tava ele colado em mim, só esperando eu ficar louca. Ahhhh! Louca de batida?? Pelamordedeus, garota, quer me matar de enfarte? “Louca de batida”... Pff! Eu conheço: é daquelas que toma um ml de cachaça diluída em seis litros de leite de coco e fala que está “louca”. Daí pode cometer as maiores atrocidades e culpar a birita. Eu sei. EU fazia isso! - Olha, o que eu sei é que eu não fiquei com ele e não me arrependo, não. Vai lá catar a Bruna, ela que gosta de homem que surfa o dia inteiro. E só vem na praia pra encher a cara e pra dar uns beijinhos. Admirei a noção de feminismo, mas... não era ela quem estava ficando louca momentos atrás? - E se você quer saber... Acredite, a interlocutora não queria saber. Até o momento ela estava imóvel, sem emitir palavra, com o queixo aboletado entre mãos e cotovelo plantado na mesa. Impassível. Ou dormiu, ou... bom, eu acho que ela gosta do Dé e não estava nem um pouco feliz com essa história. -... o Diego beija muito melhor. A-há! Então esnobou o surfista cafajeste pegador de meninas na cozinha, mas apertou outro. Diga lá, garota, quem é ele? - Muito mais fofo, mais calmo, mais doce... Eu achei sacal quando ele colocou o carro na entrada e ligou o som no último. Eu odeio Beyoncé. Mas ah... ficar sozinha no Carnaval também é perca, né? É o quê, “perca”? Ok. Mas então o Doce Diego gosta de Beyoncé. Bom, eu desconfio por que esse não aperta menina nenhuma na cozinha... Cala-te boca. - Quando a Dani caiu de bêbada lá no Sirena, foi o Diego que ajudou a levar pro posto. Perdi o rumo. Menina com a maior cara de hiponga, saião, cabelão, aqueles búzios no tornozelo, no colar, no anel. Brinco de argola típico de cigana. Bolsa de lona. Sandália de couro! O que essa criatura estava fazendo no Sirena, a casa mais playboy de Maresias, Litoral Norte paulista? - Ai, eu preciso ir... O Dé vai ligar. Haja... Desgraçada miserável, vai atender ligação do menino que esnobou o feriado inteiro? E ainda com essa atitude canalhona, de dar corda pro cara e dizer “haja (saco)”? Ela tinha uns 16 anos, não mais. Exatamente a metade da minha idade, fazendo exatamente as mesmas coisas que todas as meninas daqueles tempos. Por um instante me senti teletransportada, lembrando dos dias de praia, garotos, batidas de coco. Mas não me senti nostálgica, velhota, essas coisas... Meu café chegou. E ela um dia vai estar sentada aqui no meu lugar, bebendo o mesmo e rindo-se toda dos simplórios e fantásticos dias de adolescente. |
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