Eu apanhava folhas de caderno, canetas, pastas e um telefone de mentira e partia para a garagem. O murinho do gás servia perfeitamente como mesa e o portão recebia muitos papéis pendurados com durex – assim dava aquela idéia de pessoa muito ocupada. Meu escritório dos tempos de criança era organizado e atribulado, mas não lembro bem qual era seu ramo de atividade... Sei que tinha máquina de escrever falsa, feita de caixa de sapato, e que minha secretária virtual se chamava sempre Dona Rita. O metier, aliás, pouco importava: eu sempre me interessei por vários tipos de negócio. Com uma bela ajuda do cinema, claro.
Lembro de já ter querido ser dona de um bar, porque seria divertido ficar no meio de barulho, bebida e bastante gente. Daí comecei a efetivamente ir em bares e notei que não seria legal limpar aquele chão depois de todo mundo sair.
Quis ter um hotel também. Receber pessoas do mundo todo, ser solícita e agradável, arrumar as camas com lençóis de linho branco e travesseiros de pluma – colocando depois um docinho de brinde. Meu hotel teria toalhas cheirosas, cortinas de voil e uma mesa de café da manhã com bandejas de brownie e jarras de groselha com leite. Mas acordar cedo e dormir tarde todo dia, incluindo fim de semana? Tô fora.
Cogitei infantilmente abrir uma papelaria, um teatro, uma escola, um salão de beleza. Um restaurante na praia, uma vinícola nas montanhas, um pet shop na cidade. Imaginei abrir tantos estabelecimentos comerciais que, se tivesse levado tudo em frente, hoje Donald Trump seria um mendigo borra-botas remelento perto de mim.
Nada se tornou real, óbvio, porque minha habilidade administrativa é inversamente proporcional ao meu poder de sonhar. E nesse último aspecto o que ajuda muito é o cinema. É ótimo me ver como dona de lojas e negócios que eu jamais teria – mas que na telona estão ali, prontos, com instalações e estoque apropriados e um bando de clientes em potencial. Quem quiser entrar de sócio já está convidado para reinaugurar...
... a loja de Kathleen em “Mensagem pra Você”
Ora, por favor, é uma livraria com obras modernas e antigas especialmente selecionadas. Está no mercado há cinqüenta anos, passando de mãe para filha. Nas paredes, os ornamentos mais ternos e delicados. E nos fins de semana, abre-se espaço para a molecada sentar no chão e ouvir histórias contadas à moda antiga. Eu topo hoje!
... a livraria de William em “Um Lugar Chamado Notting Hill”
Tudo bem, nunca entra viva alma – exceto um senhor magrelo bastante estranho que só faz perguntas idiotas e jamais adquiriu um volume sequer. Tem problemas financeiros, mas tem potencial. O foco são os livros e guias de viagem (dã, claro, afinal se chama “Travel Book & Co.”), bastante em moda no momento. E o dono é tonto, mas é um charme.
... a confeitaria de Anna em “Mais Estranho que a Ficção”
Bom, de novo aqui temos um probleminha fiscal: a dona pagou apenas 78% dos impostos no último ano porque considera que os 22% restantes foram usados pelo governo em guerras, então ela decidiu não quitar essa parte. Mas Anna é excelente padeira, faz cookies de lamber os beiços. E o ambiente? Mesinhas encantadoras rodeadas por um balcão antigo e a cozinha aberta ao público. Tem futuro.
... o berçário de Charlie em “A Creche do Papai”
Quem não quer trabalhar cuidando de dez criancinhas fofas sem nem precisar sair de casa? Pois foi o que Charlie vislumbrou: uma creche montada em sua própria residência onde os pivetes podem comer muito doce, brincar com tinta e assistir a uma incrível versão teatral de “A Ira de Kahn”. Se fosse eu a dona, amaria cada segundo. Exceto na hora em que o moleque vestido de Flash desaparece. Aí é medo.
... o café da Mme. Suzane em “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”
É mais que um sonho, é morrer e ir pro céu dos negócios. Um café tradicional montado no doce bairro de Montmartre, em Paris, e contando com os funcionários e habitués mais excêntricos? Nem seria um trabalho, seria diversão diária. Adoraria até lavar um chão de 200 anos e servir um café que espalha aroma dali até Sacré-Couer. É um sonho, sério.
... a chocolateria de Vianne em “Chocolate”
A parte ruim seria engordar 30 quilos por ter comido todo o lucro do mês. Apenas a dona original mesmo, armada sobre a pele da maravilhosa Juliet Binoche, continua mantendo o corpinho esguio. Porque se eu fosse a nova proprietária, não sobraria um ovinho de Páscoa ou uma trufa recheada para contar história.
... o cinema de Alfredo em “Cinema Paradiso”
Então é possível ter um surto de bondade, girar o cinematógrafo para a rua e passar uma sessão de filme antigo para toda a cidade, usando a parede como tela? Posso me mudar hoje mesmo para uma pequena vila italiana e colocar o sistema para funcionar? Nem ligo se os ganhos finais forem tostões. Meus negócios nunca foram adiante mesmo. Nem com a ajuda da Dona Rita no murinho do gás.
Meu negócio também é cinema