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My heart belongs to daddy Meu pai nasceu em Bertioga, cidade que depois virou nosso destino de veraneio e assim foi por anos e anos. Quando era bem pequena e íamos para a praia, eu ficava evitando a areia e me incomodando com o cheiro de peixe (nasci fresca, mas as pessoas até que mudam) até a hora em que ele me pegava para “nadar no fundão”. Eu tinha medo e atração por aquela aventura ao mesmo tempo. E nunca me esqueci dessa sensação. Ele me botava nas costas e me mandava segurar firme. Eu conheci o sentido da expressão “faça tal coisa como se sua vida dependesse disso” antes mesmo de conhecer o enunciado, porque era exatamente assim que eu fazia. E aí ele nadava comigo até depois da arrebentação. Ele nadava muito bem, o meu pai. E amava o mar, como eu. Ainda amamos, na verdade. Depois, aos olhos preocupados da minha mãe que esperava lá na areia, a gente voltava do fundão pegando onda. Era a parte mais difícil da jornada, mas mais necessária, porque eu não queria ficar na água o resto da vida e virar uma estrela do mar. Então, era preciso atravessar a confusão sempre meio afogatória de se misturar a uma onda, prender a respiração, fechar os olhos, segurar firme e... confiar. Meu pai é engraçado. Ele conhece um bocado de gente, mas não sei quanta gente conhece ele bem. Ao contrário da minha mãe, ele não conta muitas histórias de infância. Então eu fico imaginando como ele era quando pequeno. Uma vez eu tive uma pista. Nós fomos à casa da minha avó torta (digo torta porque os pais do meu pai morreram muito cedo, então ele veio morar com uma mulher muito bacana aqui em São Paulo) e ela me mostrou umas fotos do meu pai quando ele era pequeno. Ele estava brincando com uma peruca e, pasmem, era a minha cara! Eles tentaram me pegar dizendo que era eu, mas logo saquei. Além de eu jamais ter usado shorts com suspensório, no meu tempo as fotos já eram coloridas. Tive outra pista também quando perguntei porque ele tinha uma cicatriz na testa. Acontece que meu pai tinha uma, digamos, curiosidade científica quando era pequeno. Quando ouviu dizer que gatos tinham sete vidas, ele resolveu comprovar jogando um felino dentro de um poço. Mas a dona do bichinho não entendeu o espírito científico da experiência e tacou um bule na cabeça do meu pai. O que a dona do gato não contava é que meu pai também tem sete vidas. Bom, duas pelo menos. Num dia de 1999, a mulher dele ligou na minha casa (eu ainda morava com a minha mãe) e pediu para falar com a dona Sandra. Achei esquisito, mas passei o telefone. Depois de desligar, minha mãe olhou para a gente com uns olhos muito mais preocupados do que aqueles que ela usava quando via meu pai e eu no fundão, lá da areia. Meu pai teve um aneurisma cerebral. Corremos para o hospital e os médicos disseram que, por ser impossível precisar a origem do problema, ele ficaria em coma induzido, sendo medicado, por 21 dias. O próprio corpo havia estancado o sangramento, então a gente tinha que torcer para que não houvesse um novo derrame – o que seria, segundo a palavra exata que o médico usou, “desastroso”. Voltamos para casa e, naquela noite, o telefone tocou de madrugada. Ele tinha sofrido um novo derrame e teria de ser operado. Quando minha mãe abriu a porta do meu quarto, eu já estava sentada na cama. Quando ela foi chamar meu irmão, ele enfiou a cabeça no travesseiro e disse “eu não vou”. Saí de casa numa noite fria e estrelada, pensando que eu me lembraria dela como a noite em que meu pai morreu. Mas qual. A operação foi bem-sucedida. A recuperação dele foi ótima. Eu atravessava a cidade todo dia para vê-lo no hospital. Levava cds que eu achava que ele gostaria de ouvir. Conversava com ele. E esperava que ele tivesse alguma experiência de “caminhe para a luz” para me contar quando acordasse (embora não soubesse sequer se ele ia lembrar de mim). E ele acordou e se lembrou de mim. Agora, eu escrevo esse texto para que ele sempre se lembre dele mesmo também. ![]() Alive and kicking Escrito em 16 de janeiro de 2007, aniversário do meu pai e dia em tiramos a foto aí em cima. Clara McFly às 08:25 AM |
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