quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

O Saber Fazer

É assim mesmo, em iniciais maiúsculas, que ando me referindo ultimamente ao “Saber Fazer”. A cada dia que passa estou mais e mais me convencendo de que as pessoas que sabem fazer coisas são encantadas. Entende, é aquela habilidade inata para costurar, bordar, cozinhar, pregar, pintar, desenhar, construir... Onde aprenderam? Como acham tempo? De onde têm as idéias? Do que essa gente é feita, de agulhas, martelos, tinta e magia?

Vejo pela televisão uma menina de vinte e poucos anos tecer renda com bilros. É uma tradição centenária em parte do Nordeste, sendo que as rendeiras passam a manha de avó, para mãe, para filha. E lá está a garota, silenciosa, sentada a frente de um almofadão jogando bastõezinhos de madeira para lá e para cá, enredando tudo em desenhos singelos e criativos. Se eu tentasse, possivelmente trançaria os dedos nos cabelos e então seria preciso cortar um teco de madeixa para me soltar. Por isso não acho que uma toalhinha devesse custar R$ 25. Deveria custaria US$ 7 bilhões.

Tudo o que eu não sei fazer, acho que merece ser valioso – moral e monetariamente. Já viu algum senhor muito habilidoso entalhar madeira? Merecia rios de dinheiro por aquilo. De um toco muito do besta, sai um ornamento todo torneado, esculpido, um... um troço lindo do inferno! Mas, em geral, são senhores humildes tal qual uma outra família marceneira. Olha, eu admiro Jesus Cristo por alguns motivos, mas talvez o maior de todos seja a profissão abraçada por ele e seu pai. Demais.

Eu gostaria de saber fazer pelo menos um banquinho de madeira com uma mesinha para minha filha ter onde desenhar. Já pensei que, se não fui abençoada com dons para cantar, tocar qualquer instrumento ou praticar um mísero esporte sequer, talvez meu negócio sejam os trabalhos manuais. Não será natural, mas um esforço louco para superar as duas mãos esquerdas – e nada que milhares de aulas não resolvam também, oras.

Costura, por exemplo. Fiz o curso, mas era bem básico. E no último feriado, quando a chuva chegou, uma tarde simplória de dedicação me rendeu uma linda bolsinha de feltro verde, com direito a fecho de linha e decoração de botões. Nada que pudesse desfilar nas prateleiras da Daslu, mas ficou graciosa. E útil. Graça e utilidade: o Saber Fazer só precisa encerrar essas duas coisas, e nem precisa ser ao mesmo tempo.

Por exemplo, a roupinha de tricô que minha mãe fez para a Carolzinha, a boneca da minha filha. O pobre bebê plástico andava por aí seminu, apenas com a calçola que o fabricante lhe deu. Pois com um resto de lã desencavado no fundo do armário, vovó fez um conjunto de calça e blusa que mantém Carolzinha aquecida – e pronta para um inverno típico do Alasca, pois o traje é danado de chique e cobre até pescoço e calcanhar. A mulher tricotou por meros dois dias enquanto via TV. Sério, isso não é um dom celestial?

Junta um teco de pano aqui, outro acolá, ata os dois, passa a máquina. Pronto, a coisa vira uma saia godê-guarda-chuva, linda, romântica, giratória. Daria um dedo da mão para conseguir ir além com toda a raça e não me importar de estragar tecido até Saber Fazer. Se bem que um dedo, nesse caso, faria uma bela falta. Se com dez já fica dureza, imagine com nove.

Na cozinha talvez eu pudesse doar o dedinho, pois existe batedeira para auxiliar. E então, após o membro amputado, receberia o download mágico com a capacidade de juntar punhados disso, daquilo e daquele outro e dar vazão a pratos de lamber os beiços e comer ajoelhado em agradecimento. Ou pelo menos Saber Fazer um arroz soltinho, um feijão com caldo, uma maldita lasanha que não pegue no fundo ou tenha sabor de jornal molhado.

Qualquer Sabe Fazer vale a pena. Moças que saem do magistério costumam saber usar bem o lápis de cor, recortar com precisão e escrever com letra cursiva bem bonita. Já é um doce Sabe Fazer... as crianças, pelo menos, admiram loucamente! “Tia, você pinta a tartaruga sem deixar a cor sair da bordinha!”. Vi uma menina dizer isso para a professora – que seguramente ficou toda cheia de si por Saber Fazer alguma coisa.

Pode ser um grafite colorido no muro da rua, uma torta de maçã cujo cheiro alastra pelo bairro, uma blusa de crochê com gola rolê. Uma meia recheada de espuma que vira boneco, uma pulseira só de botões, uma gaveta que seja. Saber Fazer é uma habilidade muito pessoal, mas que faz admirar a todo o mundo.

RendaBilro.jpg
US$ 7 bilhões é o preço justo,
mas podemos fazer por US$ 6,5 bi

Fla Wonka às 10:55 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold