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E viveram renegados para sempre... Se tem uma coisa que amarga a boca e seca o coração, essa coisa é a injustiça. E se tem um setor que fomenta as injustiças, esse setor se chama “conto de fada”. Geralmente, as histórias são divulgadas sem o menor senso jornalístico. Então a Branca de Neve se faz de vítima, diz que tentaram dar cabo de sua vida e fica assim? Até onde sei, ninguém entrevistou a Madrasta para saber a opinião dela sobre a menina. A garota fumava no quarto? Roubava grana no açucareiro? Esquecia de levar o cachorro dar um giro e de limpar a gaiola do hamster? Nunca saberemos, né, porque os livros não têm a mínima compaixão pelos antagonistas. Vejamos o caso do Lobo Mau. De começo, já não é uma coisa simpática botar pecha de “Mau”. Alguém pode se emendar levando sempre a fama de mau consigo?! E olha que ele é assim retratado em dois contos, o dos Porcos e o da Chapeuzinho. Primeiro foi chamado de assassino, depois de assassino e violador de menores e idosos. Ainda acho que, se fossem realmente pesquisar os fatos, veriam que o Lobo tinha apenas um distúrbio alimentar. Imaginem que triste, passar para a história como homicida sendo que você só tinha uma compulsão por carne. Ninguém foi lá sugerir terapia, certamente, quando ele precisou consertar o rabo torrado na lareira de Prático ou se curar da bulimia – porque depois de comer uma avó inteira, seguramente o Lobo ia precisar enfiar o dedo na goela e se livrar da velha, baita coisa indigesta. É como o caso da Bruxa de João e Maria. A pobre mulher vivia isolada no meio do mato. Sua única diversão era cozinhar doces e erigir casas com eles. Foi, toda caprichosa, decorando o local com biscoitos, geléia, balas e marshmallow (que, diga-se, custa os olhos da cara). Daí chegam os dois moleques com larica e mandam ver uma janela toda pra pança. Quem agüentaria isso? Acrescente-se o fato de que a Bruxa devia estar sem namorado há uns bons 40 anos. Vai ver um lenhador passava ali vez por outra, fazia um agrado, tomava chá com bolo... mas na hora do vamovê, dava tchau e voltava a cortar árvores. Sozinha, sem amor, sem televisão para ver o programa da Ana Maria, a senhora não pode ser totalmente culpada por ter alucinações de transformar crianças em lanche. Não mesmo. É sempre assim: bastou ter uma verruga na ponta do nariz, já merece a morte. O que dizem então da Madrasta da Cinderela? Pois acho assim: a mulher embarcou numa tremenda furada. Casou com o cidadão, o cidadão bateu as botas, largou uma filha na mão dela e as contas a pagar. Acho justo que a garota fosse colocada no batente. Quando eu era pequena, também arrumava cama, lavava o banheiro e fazia feira, tudo sem reclamar. E a Cinderela lá, se achando a maior gata borralheira só porque precisava acender o fogo, dar milho aos gansos e colocar uns pratos na lava-louça de vez em quando? Essa moçada de antigamente era muito preguiçosa. Aposto que o autor do conto não se preocupou em conferir se a Madrasta a levava e buscava na escola de carro, por exemplo. Vai ver foi isso: ela não era malvada, maldita, uma verdadeira vaca, como a história contou. Vai ver ela só pegava trânsito demais, poxa... Isso estressa, sabe? Esse negócio de “me leva no baile, me leva no baile!”, que saco! Acordar de madrugada para buscar enteado em festinha é dose. Também acharia justo que revissem o caso do Gigante. É, o Gigante que foi sumariamente afanado pelo João. Gozado que quando os meninos em geral roubam, querem logo mandar para a Febem. Mas sendo o João, o Macaulay Culkin dos contos de fada, aí pode? Sobe no pé de feijão, surrupia uma galinha e sai assim, bonito na foto? Faça-me o favor, o mundo do faz-de-conta está perdido mesmo. Daqui a pouco vai ter gente dizendo que a Rainha era má por prender Rapunzel no alto da torre. Se soubessem o que a Rapunzel aprontava pela área, aposto que pensariam melhor. É bem provável que a menina se sentisse a gostosona do pedaço e passasse a noite em bailes funk, requebrando feito cachorra. E aquele cabelo? Queria ter madeixas longuíssimas só para sacudir no palco enquanto rebolava ao som de “Se Ela Dança, Eu Danço”. Depois de tanta dor de cabeça, a Rainha só podia mesmo fechar essa oferecida numa torre. Os supostos malvadões só queriam um abraço, um carinho, um voto de confiança, minha gente. Custa ser mais tolerante com quem teve uma infância difícil e foi precocemente rotulado como vilão? Eu acharia válido rever melhor todas essas histórias, muita coisa poderia mudar de figura. E o Lobo Mau talvez virasse um Lobo Não-Tão-Bom, Mas Em Tratamento. |
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