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Um Conto de Natal – Parte 1 Mirtes acordou cedo naquele dia. Nem bem tinha ouvido os uivos matutinos de Melgibson, o pequinês da vizinha esnobenta, ela já estava de pé. No espelho do banheiro, conferiu que os bobs do cabelo estavam intactos – graças ao lenço azul que segurava tudo com eficiência. Passou um café, passou margarina no pão, passou pelo programa da Ana Maria para anotar a receita de panetone. Seria um dia muito especial para a Mirtes. Era véspera de Natal. E se tinha uma mulher que amava a festa, essa era a Mirtes. De menina, ela ajudava a mãe a estufar o frango que o pai ganhava do patrão na fazenda e ficava acordada até tarde junto com os parentes, curtindo o calor sentada na varanda. Lembrou só de um ano com tristeza, aquele no qual descobriu que a ceia tinha sido preparada com a Genésia, a galinha que ela mais gostava de todo o galinheiro. Aquele fim de ano ficou entalado na goela de Mirtes. Além da Genésia ter ido de encontro à luz divina, não teve presente. Mesmo lá no fim de mundo, o pai e a mãe sempre faziam questão de dar um mimo para cada um dos oito filhos. Naquele natal, porém, a coisa tinha ficado feia: a família gastou uma fortuna pagando um doutor para consertar a cabeça do Milton, o caçula, que saltou da goiabeira para imitar o National Kid e se deu mal na aterrisagem. Mirtes voltou da lembrança tristonha quando a Ana Maria provou o panetone debaixo da mesa e mandou soltar os cachorros. Ela ria que só com a bobeira da apresentadora. Foi então que caiu em si: precisava começar logo os preparativos, pois mais à tarde já iam chegar os parentes para a festa. Quantos iam ser mesmo? Ela, o Válti, a Claudilene e o Clayton; vinham uns dez da família e mais a Irene, melhor amiga, com a turma dela. Aliás, engraçado a Irene ainda não ter telefonado pra combinar o que ela devia trazer. Estava ficando uma encostada, a Irene. Bom, precisaria de muita comida de qualquer jeito. Graças a Deus que o Válti ganhou aquele tender na rifa. Falando no Válti... Onde tinha se enfiado o homem? Quando levantou, ela já tinha reparado que ele não estava mais na cama. Se bem que os chinelos do Curíntia estavam debaixo do criado-mudo. Checou a casa toda e nada do marido. Os filhos não estavam na cama também. Mirtes achou aquilo tudo muito estranho, porque aqueles dois não acordavam cedo nem se estivesse chovendo nota de cem. Saiu no quintal e não achou a Paquita, a vira-lata mais madrugadora do planeta. Botou a cabeça pelo portão e não viu o Seo Mário lavando o Opala na calçada nem escutou a Dagmar berrando com os meninos dela. Mirtes sentiu o coração gelar como nunca tinha sentido antes (nem quando a Claudilene saiu com o namorado e chegou depois da meia-noite). Onde estava todo mundo, pelo amor de Nossa Senhora de Fátima?
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