quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Uma viagem bem católica

Quando terminava a visita à casa da Vó Emília, lá para as 11h30 do sábado, meu pai já sabia: estava para começar um coro lamuriento e chantagista que dizia apenas “deixa, vai? Ah, pai, deixa, vai? Por favoooor... Não peço nada nunca mais”. Mentira, logo eu pediria novas coisas – mas, naquele momento do fim de semana, tudo o que importava era a permissão para ficar na vovó, dormir e ir embora apenas no dia seguinte. Porque lá tudo era novidade. Inclusive ir à missa no domingo cedo.

Minha Vó Emília sempre foi muito católica. Não daquelas chatas, carolas cegas, pregando purgatório para moças de saia curta. Ela é devota, tem fé. Faz novena, fala “Deus te crie”, mantém na parede o calendário da diocese que traz uma passagem da Bíblia por dia e uma foto do Papa. Daquele Papa que tinha cara de bonzinho, não desse com cara de general.

Acho que justamente por minha vó ser essa crente-light, eu curtia a idéia de ir à missa com ela aos domingos. Não, não se tratava da pipoca ganha na saída ou a promessa de ficar futricando com minha prima Cássia, também convidada para o evento, enquanto rolava a obra. Tratava-se de fazer toda uma viagem por uma religião séria, mas que eu considerava muito divertida.

Começava pela porta já. Ao passar pelo imenso vão de madeira, Vó Emília se inclinava, quase ajoelhando, como jogador de futebol que vai tirar a foto oficial do pôster na fileira da frente. Ela explicava que era só uma reverência para cumprimentar o Senhor ao entrar na casa Dele. Eu pensava que Ele poderia achar mais legal se gritássemos “Bom dia, Senhoooor!”. Mas ela discordava. Fazia o Nome do Pai e seguíamos para um banco.

Lembrança viva tenho daqueles bancos. Todos de madeira de lei escura, muito bem polidos. Tão polidos que dava para ficar deslizando a bunda pra um lado e outro – até vovó mandar parar de saracotear. Então eu apanhava o “ABC Litúrgico”, um livreto de papel-jornal que trazia o cardápio da missa. Era ótimo ver a organização daquela entidade. Então eles preparavam tudo com antecedência para a gente acompanhar? Não era à toa que já duravam 2.000 anos e abraçavam tantos fiéis no mundo.

Duro é que o livreto logo parecia ter ficado longo demais. Demorava até passar pelo “Então Jesus, olhando em redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!”. E, depois, pelas rezas e canções. E era aí que eu me espantava loucamente.

Como aquelas senhorinhas sabiam todas as músicas decor? Como eu precisava cantar tudo meio torto, errando o ritmo, e elas sabiam as horas corretas de entoar com mais volume o “louveeeemos ao Senhooor”? Como sabiam perfeitamente o que responder ao padre quando ele falava “cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo”? Eu sequer entendia o significado de “tende piedade de nós”. Era um culto mesmo, em todos os sentidos.

Pois as mesmas senhorinhas faziam as mesmas carinhas na hora em que começava a famosa comunhão. Iam para a fila com um certo sofrimento na face, as mãos unidas em forma de concha, a cabeça baixa. Vó Emília não aceitava o meu “não, brigada” ao convite para comungar. Sabia que eu não podia apanhar a hóstia (afinal não tinha feito a fatídica Primeira Comunhão e o corpo de Cristo fritaria minha língua pagã se a tocasse), mas me queria na fila, para sentir o drama. Eu ia muito desgostosa. Não sabia que cara fazer, se aquela triste das senhorinhas ou a minha mesma.

Mas o momento embaraçoso passava logo e então voltávamos ao banco. Achava um horror completo minha avó e seus 60 anos terem que ajoelhar na madeira dura enquanto rezava com a hóstia na boca. Por outro lado, podia aproveitar os olhos fechados dela para me distrair. O jogo predileto era procurar o rosto de Jesus na decoração eclesiástica. Lá no altar! Ponto! Ali, na cena IV, sendo preso! Ponto! E lá no teto, do lado do tio de barba branca! Ponto!

Se o padre soubesse do meu joguinho, certamente entregaria-me um ticket para passar a eternidade junto ao capeta. Mas, na realidade, eu gostava muito de Jesus, achava um sujeito super boa-praça. Ouvia que ele não fazia distinções e dava as mãos para leprosos, prostitutas e cachaceiros. Pensava nele como um rapaz bacana, como aquele primo mais velho, meio hippie, que viaja sem dar satisfação, ouve música no talo e tem muitos amigos. Simpático, o Jesus.

Das demais imagens, não gostava muito não, preciso ser sincera. Maria sim, que ficava linda naquele vestido azul e o bebê no colo. São Francisco também, porque ele tinha os passarinhos comendo em sua mão. Mas os soldados, as coroas de espinho, os corações sangrentos... Francamente, era deveras apavorante ver os nichos da igreja, aquelas capelas escuras onde velas ardiam dentro de vidros vermelhos. Parecia macumba. Só que eu não dizia nada pra não ser excomungada pela Vó Emília.

Depois de muito devanear observando os detalhes da nave central, ouvia o padre retomar a palavra. Soltava uma risadinha devido ao sotaque carcamano dele e corava no rosto quando chegava o momento de apertar as mãos dos estranhos dizendo um tal “paz de Cristo”. Corava de novo ao colocar as moedas da vovó na cesta do coroinha, porque ele era uma graça, e corava ainda mais uma vez ao errar as palavras do Pai Nosso. Pô, era impossível repetir com dicção perfeita “venha a nós o vosso reino”!

Mas era gostoso, ao final, escutar o padre dizer “vão em paz”. Ao ganhar o saquinho de pipoca quente e o beijo junto com o “obrigada de acompanhar a vó, viu?”, eu sentia que o domingo seria ótimo. Seria empanturrado de macarronada e frango assado, brincadeiras na rua com a Cássia, a volta do meu pai para me buscar. Dava mesmo uma paz.

Eu não vou mais à missa com a Vó Emília. Mas quando tem casamento ou funeral na família, faço questão de sentar do lado dela. E quando viajo, corro conhecer as igrejas locais. Sento em um banco do fundo, deslizo pela madeira polida com um risinho contido, procuro Jesus nas pinturas e digo “Ponto!” bem baixinho. Depois acendo uma vela. Não faço sinais de cruz, não oro da maneira tradicional nem me ajoelho. Mas vou embora feliz. Feliz como se fosse ganhar uma pipoca quente na saída.

Fla Wonka às 10:02 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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