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Ordinary people Gente normal, de vez em quando, não sai de casa porque está sem dinheiro. Aí, aluga um DVD ou um vídeo – sim, porque gente normal ainda tem videocassete – e chama os amigos para assistir em casa. Ou dispensa os amigos e se enrola num cobertor Parahyba. E ainda chora no final do filme. E, nesse caso, limpa as lágrimas e assoa o nariz com papel higiênico mesmo. Nada de lenços descartáveis em caixinha. Gente normal costuma ceder à tentação de um vestido em promoção na C&A, mesmo que ele seja dois números maior que o seu manequim. Se você é gente normal, leva na costureira do bairro depois para ajustar. Se é mais normal ainda, esquece de levar na costureira e, na hora de vestir, improvisa um ajuste meio tosco (porém funcional) com clipes de papel. Dos prateados mesmo. Gente normal tira fotos ruins. Corta a cabeça daquele tio mais alto na foto da ceia de Natal. Desfoca a cara da prima na viagem de férias. Retrata a vista do Coliseu pegando um monte de turistas japoneses no canto da foto. Isso quando não dá uma de engraçadinho e tira uma foto no Coliseu posando com os polegares para baixo em cima de uma pedra à guisa de tribuna do imperador. Gente normal chama doze amigos para jantar em casa mesmo tendo lugar só para quatro na mesa – paga em prestações, de preferência. Na hora de servir, como se não bastasse, percebe que o conjunto de copos tem apenas cinco iguais, porque o sexto quebrou. Então, complementa a mesa com copos de requeijão e canecas de café. Na hora da sobremesa, é bom lavar os garfos usados para a comida. Isso porque, se você for bem normal mesmo, duas peças do seu conjunto de sobremesa também sumiram. O que faz você pensar, já que garfos não quebram. Onde será que os danados foram parar? Gente normal rala o carro no estacionamento, ou mete a porta no carro do vizinho quando vai descer com as sacolas de supermercado na garagem do prédio. Depois, toca no apartamento do coitado para pedir desculpas e se prontificar a pagar a conta, no maior carão, se for necessário encerar. Porque a gente é normal, mas é limpinho. E, quando é mais que normal, o ralado do carro (seu ou do vizinho) fica lá um bocado de meses, senão até a venda do auto. Gente normal transforma camiseta velha em pano de pó e toalhas manchadas em tapete de banheiro – é só dobrar a parte onde caiu cândida para baixo e pronto! A natureza agradece. Sabe quanto tempo um pano leva para se desintegrar na natureza? Claro que não. Gente normal não sabe, mas intui essas coisas. Gente normal tem sempre alguma coisinha por fazer na casa. Um sifão que vaza debaixo da pia (e é amparado por um potinho de margarina ou uma tupperware meio velha), uma lâmpada que não funciona, uns quadros por pendurar que já estão ganhando lugar fixo apoiados na estante. Gente normal também sempre esquece de comprar alguma coisa no mercado. E improvisa usando papel toalha como higiênico ou lavando roupa sem amaciante mesmo. Gente normal pede chorinho, fica sem gás, risca o fundo da panela de teflon, racha pizza com as visitas, paga micos, ignora recados, fica devendo alguns centavos na padaria, esquece de pegar a toalha ao entrar no banho, passa cheque de cinco reais no estacionamento porque não se lembrou de passar no caixa, é barrado na porta do banco, tem umas meias meio encardidas, perde telefones porque anotou em papéis avulsos, esquece o caminho de volta. Gente normal se enrola e dá um jeito. Antes eu queria ser como a bailarina da letra do Chico Buarque, mas é muito solitário não ser gente normal. Gente normal às vezes vê pessoas queridas partindo de repente, e se vê sem um texto na manga para o momento sem clima e sem tempo. Então, lança mão de um escrito talvez não muito antigo, mas tão apreciado que espera que os outros não liguem para a chance de lê-lo novamente, com essa pequena reedição. * * À memória da tia Cida, gente normalíssima das melhores * * Clara McFly às 08:08 AM |
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