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Momentos tão enormes de nós duas Foi no dia 30 de janeiro de 2005 que nasceu minha filha, a Sabrina. Ela já estava querendo muito vir ao mundo, a julgar pelo modo como escoiceava minha barriga e as costelas sem piedade. Daí a médica usou um martelo e duas talhadeiras (não foi, mas parecia) e tirou a garota de seu aconchego maternal. Levaram-na para uma mesa lateral e eu não pude acreditar, berrando logo “ei, deixa eu ver, traz aqui, moçaaaa!”. Pois ela veio. Já limpinha, já com cor razoavelmente natural, já de touquinha branca. E quando eu vi aquele rosto do tamanho de um par de meia enrolado, só uma coisa dominou o pensamento: “ferrou, eu amo tanto você que dá até nojo”. Daquele centro cirúrgico em diante, muita coisa mudou. Mas não pense o leitor que se seguirá aqui um texto sobre como é duro ser mãe, a trabalheira, o sacrifício, blá blá blá, eu não sou sócia da light e meu dinheiro não dá em árvore. Tudo isso é verdade – principalmente o fato de o meu dinheiro não dar em árvore – mas quem liga? Chora-se um pouco nos cantos às vezes, com lembranças e pensamentos, e passa em segundos. Passa mais fácil que isso, aliás. Desde os primeiros dias, essa menina foi uma figura. No primeiro choro compulsivo, alçou notas sonoras que deixariam Montserrat Caballé com inveja. Esticou a puxada de ar até que todos em volta gritaram “vai perder o fôlego, vai perder o fôlego, abana, abana!”. Não sei por que, mas eu nem me abalei (nem abanei). Esperei terminar o “guáááááááá.... ááááá... ááááá” pacientemente, certa de que na História do mundo nunca houve um caso de morte por auto-sufocamento. Se a Sabrina insistisse com aquilo, eu estava preparada pra colocá-la debaixo do chuveiro frio e fazer voltar! Não precisou. Não naquele dia... Pois os meses se passaram com a garota se tornando um sarro. Aprendeu a chupar o pé; aprendeu a nos seguir com os olhos; aprendeu a rir; aprendeu a se contorcer na cama e virar. E foi então que ganhou o apelido de Minhoca. No começo, era a Minhoca Dorminhoca, já que só fazia se retorcer e nanar. Já contei que, com um mês de vida, Sabrina dormiu uma noite toda? Não é um fenômeno? Eu quase acendi uma vela do meu tamanho em Aparecida. Nossos momentos foram ficando maiores do que os ritos básicos de mamar, embalar, trocar, banhar. No primeiro lanchinho de mamão amassado, tirei foto. Não se engane, também tirei foto do primeiro Bis, do primeiro banho de bacia na sacada, do primeiro cafuné no cachorro. Só não fotografei a primeira mamadeira porque... bem, eu estava lá na calçada, choramingando. Ela não gostava do troço de plástico com leite industrializado, então o médico aconselhou que eu parasse de tentar e saísse de perto, deixando outro ministrar o leite não-da-mamãe. O Marcus ficou agüentando os gritos de recusa e eu fui lá na rua, me sentir mal bem longe. Quando voltei, tive a impressão de que ela me olhava com cara de “te odeio, você não me alimenta como se deve, sai daqui sua insensível”. Só passou quando ela sorriu pra mim, feliz com o “teteco” nos braços. Passamos mesmo uns momentos de fortes emoções, eu e a Sabrina. Aos seis meses, ela caiu da minha cama. É horrível só lembrar, mas foi fato: deixei deitadinha, com travesseiros escorando, e fui tirar o lixo rápido. Pois ela deve ter jogado uma teresa sobre os travesseiros, superado a muralha fofa e rolado para a beirada. Não ciente de que a cama, para ela, estava mais ou menos a altura de um Everest, pulou. Só ouvi de longe o “TUC” e o “Uhááááááááááá”. Acho que cheguei ali em velocidade supersônica, ranquei-lhe a roupa toda, procurei marcas, dores, cortes. Nada. Com o colinho, ela parou de chorar e riu. Considerei que tinha gostado do bungee-jump caseiro, apesar do susto. Também, se a gente for contar todos os acidentes... Caiu de cima do sofá da Clara, fritando o nariz no tapete; tentou passar pela porta de vidro da sala, desconhecendo a malícia da transparência e chapando a cara; prendeu o dedo nas gavetas e portas 648 vezes; entrou na cesta de roupa suja pra brincar e entalou; enfiou o pé pelas travessas do berço e o prendeu lá. Sabrina recebeu o salvamento da mamãe em todas essas ocasiões. A gente passa momentos de briga também. Na feira, outro dia, ela quis segurar a sacola do pastel. Arrastou no chão, perdeu a sacola. Quando eu quis ajudar, fez birra, emburradinha e saliente. Abriu o berreiro quando tentei conversar. Foi trazida pra casa à força e colocada na (hoje conhecida como) poltrona do castigo. Um minuto inteiro de punição! Quando finalmente entendeu meu discurso sobre ter feito ruindade, falou “dicupa” e deu um beijo. Daí comemos um pastelão de palmito juntas, pra comemorar o tratado de paz. Somos assim mesmo, acho, duas moças boas de gênio ruim. Mas foi uma surpresa perceber que ela pode ser mais adulta que eu. Quando repreendo num tom de voz mais alto, logo escuto “mamãe, num guita”. Dá uma certa vergonha levar pito de alguém com 80 centímetros de altura. E que, ainda por cima, agora aprendeu a dizer um “ai ai ai” reprovador. Eu agüento? Agüento, sim. Já está mais do que provado que eu agüento. E tento até ir além, promovendo festinha de Playmobils, banho de mangueira, almoço de panqueca no jardim e a Incrível Hora de Dançar Beatles, que ela adora e se mata de rir. Já elegeu “Ob La Di, Ob La Da” como uma das preferidas. Dizem por aí que eu faço dos momentos com a Sabrina horas muito estranhas. Só porque nos lançamos em perseguições imitando dinossauros e usamos camisetas de banda de rock? Eu garanto que a mania de levar na escola um urubu de pelúcia não fui eu quem inventou! Sabrina, o meu pop-up, rendeu alguns dos melhores momentos da minha vida. Engraçados ou tristes, assustadores ou ternos, confusos ou tranqüilos, encaramos todos. E quando nada mais parece ter uma razão de ser, eu lembro da carinha com touca me sendo apresentada no centro cirúrgico. Foi quando nasceu outro coração dentro de mim – cuja dona agora está bem aqui, me puxando pela mão e dizendo “vem, vem... pega bola!”. Eu pego, Sabrina. Pra sempre, em todos os momentos.
Neste momento, ela comia queijo e galopava num cisne Fla Wonka às 09:44 AM |
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