sábado, 28 de outubro de 2006

Um encontro folclórico

Naquela tarde, Saci Pererê andava apressado pela metrópole quando, de repente, tropeçou em um dos muitos buracos da calçada. Estatelou-se no concreto, junto com a papelada que levava nas mãos. Um vendedor ambulante correu até ele para ajudá-lo a levantar e reunir os papéis espalhados aqui e acolá. Quando Saci se recompôs do tombo, viu o rosto do bom samaritano e reconheceu-o na mesma hora.

— Curupira, amigão! Sou eu, pô, o Saci! Não tá lembrado?

— Saci? Tem certeza que é você mesmo, malandro?

— Claro que tenho! É que agora eu coloquei uma prótese, normal você estranhar depois de todo esse tempo...

— Por isso que eu nem o reconheci! E como vai a vida?

— Ah, rapaz, você sabe. A vida anda dura. Ninguém mais liga pra gente. O pessoal só tem medo do Jason, do Freddy Krueger... Não assustamos nem velhota, que dirá criança! Os guris tão numa esperteza danada. E a gente precisa se virar de outro jeito, arrumar outros afazeres...

— Só. E essa roupa? Jeans, camiseta, boné... Aonde vai chique assim?

— Mano, agora eu virei office boy! Arranjei uma empresa boa, que emprega deficiente... Se bem que eu acho que eles me pegaram só porque eu posso pegar fila preferencial no banco, sacumé. Mas é um trabalho digno... E você, que anda agitando?

— Tô tentando me acostumar ainda com a cidade grande, amigo. Vixe, isso aqui é muito diferente das nossas matas, concorda? Não tem mais nem mangueira para eu roubar manga, nem novelo de cipó para eu desenrolar, nem porco selvagem para eu montar. E povo daqui é estranho demais da conta. Tem cada um com cabelo roxo, prego enfiado no beiço, desenho pelo corpo! Eu que tenho os pés virados sou mais normal que eles!

— Verdade. Ô, eu também sinto falta do mato, viu. Aqui nem tem cavalo para eu trançar a crina. Outro dia fui pitar meu cachimbo de palha no escritório, o chefe me passou o maior sabão! Disse que não podia, que fazia mal pros outros funcionários. Assustar galinha, então, nem pensar! Onde é que eu encontro galinha neste lugar, me diga? Só tem morta, congelada que nem pedra no supermercado. Parece visagem, cruz credo.

— A gente tem que acostumar e ir levando, certo? Eu também tentei arrumar um emprego, mas é difícil. Ainda bem que ouvi falar nesse tal de comércio informal... Lembra da Iara? Soube que ela tava fazendo uns passeios pro Paraguai, trazendo umas mercadorias, resolvi apostar na amizade e agora comecei a vender os produtos aqui na rua.

— Nossa, a Iara! Faz um par de anos que eu não vejo mais aquela sumida! Perdi contato com todo mundo, esse negócio de freqüentar banco diariamente me tira do sério, não tenho vontade pra mais nada! E o resto do pessoal, você ainda tem notícia?

— Tenho algumas sim... Outro dia encontrei a Mula-Sem-Cabeça. Ela passou um tempo muito deprimida, não sei se você chegou a tomar conhecimento.

— Não! O que aconteceu com ela?

— Ela não conseguia se sustentar por aqui... Porque eu e você ainda somos meio humanos, mas a Mula, coitada, não tem jeito, né? Ela fez um curso de cabeleireira, estudou, provou talento, mas daí nenhuma cliente queria cortar cabelo com alguém que não tem cabeça!

— Imagino... E aí?

— Ah, aí ela entrou em uma crise braba. Tentou até tomar uns comprimidos, acabar com tudo. Pior é que ela esqueceu que nem boca tem, então ficou mais deprimida ainda! Agora melhorou, tá trabalhando de vidente. Faz as previsões atrás de um pano, ninguém vê, e ela ainda ganha mais por ser misteriosa. Ficou esperta...

— Tem que ser esperta mesmo para sobreviver. E Boitatá? Saudade daquela malandra! A gente sempre dava um jeito de se encontrar, agora é difícil... Eu achava o matagal grande, mas nada se compara a esta cidade! Você pode andar dez dias e dez noites sem parar e nunca vai topar com alguém pela segunda vez!

— Pois é, compadre. De Boitatá não tenho muita notícia não. Soube que ela se engraçou com um circo, acho que a contrataram. Deve de dar dinheiro pro dono. Imagine, ver aquela cobrona luminosa? Se bem que hoje em dia circo tem até poodle azul.

— É isso que pega, né? Na época da roça, a gente era maioral. O povo de lá só conhecia homem e bicho, não tinha essas coisas de televisão, de cinema. Quando a gente aparecia, lembra, era um corre-corre danado! Uma vez até peguei um caipira com as calças arriadas, tava mijando no arbusto! O matuto deu um grito, foi embora com tudo de fora mesmo, pingando!

— Hahahaha... Bons tempos aqueles. O Lobisomem é um que não se conforma com essa vida nova. Acredita que ele continua tentando assustar por aí?

— E dá certo?

— Dá nada. Uma vez ele levou bolsada de uma mulher meio míope. Outra vez, chamaram a carrocinha. A última que eu soube foi que ele acabou parando em um programa na TV de domingo. Foi lá falar que tinha uma doença rara, ver se conseguia umas cestas básicas com o apresentador.

— Jura que ele teve coragem?

— E não teve? Eu que não concordo com essa coisa de mendigar. A gente é lenda mas é capaz, tem que trabalhar. Cada um conta com um dom, é só saber escolher um caminho. Veja o Negrinho do Pastoreio, por exemplo. Arrumou um trampo lá no metrô, na seção de Achados e Perdidos. Vive de encontrar tudo quanto é objeto, o danado. Ganha dinheiro com o que ele sabe fazer de melhor!

— Fico feliz por ele! E você, rapaz? Anda vendendo bastante?

— Olha, até que eu vendo bem, viu. Tem esse sutiã de silicone aqui que é uma bizarrice, mas sai que é uma beleza. E minha especialidade é mesmo o Rolex, né? Na caixa, novinho, com bateria, 20 reais.

— Sério? Então me vê um aí, vou colaborar com você em nome dos velhos tempos. Mas acerta as horas pra mim, que eu não tenho onde botar essa papelada.

— Valeu, chapa! Ó, vou pegar esse aqui, o mais bonitão. Deixa eu colocar em você.

— Brigado, ficou ótimo! Eita, já é essa hora? Ficamo aqui de papo, mas eu preciso correr! O banco fecha às quatro da tarde, se eu não entrar antes disso me lasco! Fora que aquela porta anti-roubo só atrasa ainda mais minha vida. Essa prótese engancha sempre, a porta trava, um fuzuê.

— Eu sei, irmão. Vai na fé! Bom encontrar contigo, viu? E vê se não some mais, vamos combinar uma cachaça aí qualquer dia desses pra continuar a prosa.

— E eu sou de recusar cachaça? Toma aqui, o número do meu celular. Inté, Curupira!

— Inté, Saci! Vai pela sombra e cuidado com os buracos!

* Este texto é uma republicação. Vivi Griswold volta a escrever crônicas inéditas no dia 1 de novembro.

Vivi Griswold às 10:17 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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