Semana Especial – Desemprego
Não se espante com o título descrito acima, caro leitor, estimada leitora. A sabedoria popular já dizia que “tudo tem um lado bom”. E o humor popular emendava: “menos o disco do Wando”. É bem aí que mora o segredo de encontrar alguma coisa positiva em fazer parte da população economicamente inativa, ou da população eventualmente economicamente ativa – manter o humor. Há luz, ainda que vermelha, no fim do túnel. Claro que eu preferia que ela fosse azul, e provavelmente meus credores também. Mas não vou deixar de me divertir por uma mera questão de cores.
Borboletemos, portanto, entre as veredas do otimismo e no que há de bom (ou ao menos útil) em ficar desempregado. Sempre é possível, nestas condições...
Inventar comidas
Com a grana daquele freela entregue há dois meses para cair na semana que vem, é preciso dar uma esticada na despensa. Assim surgem receitas de omelete de bacon e tomate (era tudo o que tinha na geladeira), bolachas cream cracker com maionese e tomate (o patê já era) e salada... só de tomate. (Por que sempre sobra tomate na minha geladeira?)
Passear na pracinha
O tédio e a sensação de inutilidade assolam. O Outlook não registra nenhuma resposta às suas propostas de freela e colunas. Só tem tomate na geladeira. A solução? Desligar o computador e redescobrir a velha arte de andar na rua. Nisso, descobri uma pracinha onde faço caminhadas quase diárias. Se estivesse trabalhando adotaria esse hábito saudável? Nem.
Filosofar sobre o estado em que me encontro
Já consegui uma meia dúzia de termos para definir minha situação corrente sem a pejorativa expressão “estou desempregada”. Temos “estou em um período de transição monetária”, “estou em um processo de reavaliação do meu papel sócio-econômico” e “por enquanto, estou avaliando projetos”. Mas descartei esse último. É muito ex-BBB.
Especializar-se na limpeza e na cozinha
Tendo que fazer o serviço doméstico com mais afinco (afinal, há mais tempo de sobra), acabamos ficando craques na vassoura e nas panelas. Antes, varrer a casa era uma tarefa monstruosa. Agora, imagina!, é só uma vassourinha. Mato tudo em dez minutos enquanto boto, de quebra, o arroz no fogo. A prática conduz à perfeição – ou, pelo menos, à rapidez.
Redecorar a casa com o que já tem dentro dela
Quando estamos desempregadas – ou melhor, em “período de transição monetária”, ficamos muito em casa. Quando ficamos muito em casa, o cenário começa a enjoar. Quando o cenário enjoa e você não tem dinheiro, surgem as mais fantásticas idéias de remodelação de ambiente trocando apenas cortinas e tapetes de lugar e inaugurando uma nova posição do sofá.
Conhecer, afinal, quem são os alvos das fofocas
Por mais que você resista, um dia vai acabar almoçando mais tarde e, inadvertidamente, ligando a tv para acompanhar. Aí, cairá nos programas de fofocas vespertinos e verá um novo mundo se descortinando diante de seus olhos: a tal Renata Banhara existe mesmo e está lá, reclamando pensão de algum famoso (ou quase) cantor (ou quase).
Telefonar para velhos amigos
Tudo bem, às vezes a gente desenterra aquele contato do colega de faculdade que não vemos há anos em busca de um frila. Mas não é que o papo rende? De repente, você se vê conversando com o sujeito sobre o paradeiro do pessoal do fundão da sala e os solteiros convictos que passaram a jogar no time dos casados. E com filhos.
Descobrir locais inimagináveis que aceitam cartão de crédito
Já descolei uma banca de jornais e um cinema que topam me prestar serviços e fornecer mercadorias em troca da assinatura de um papelzinho amarelo. Daqui a pouco, o tiozinho que vende doces buzinando pela rua também vai adesivar seu carrinho com um logo do Visa. E vai ser bom, porque assim poderei matar a saudade de um quebra-queixo.
Desenvolver habilidades manuais diversas
Fazer as unhas, costurar, pintar você mesma aquela caixa de madeira que já está toda descascada. À economia de assumir os trabalhos da manicure, da costureira e da artesã soma-se o apuro da técnica que ganhamos praticando. Eu já consigo pintar as unhas da mão direita com cores fortes (que com base ou esmalte claro, qualquer macaco pinta).
Reciclar o guarda-roupa
Vale a mesma filosofia da casa: cansada das peças que se enfileiram penduradas no armário e sem um tostão no bolso para inovar? Arrumando o guarda-roupa a gente redescobre um vestido antigo que pode voltar à baila lindamente, ainda mais quando combinado com aquele cinto novo (que foi tudo o que deu para comprar na última visita ao shopping).