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Gatolândia Imagine um lugar cheio de gatinhos. Gatinhos grandes, gatinhos pequenos. Gatinhos bebês saltitantes e gatinhos velhinhos tranqüilos. Gatinhos gordos e gatinhos magros. Gatinhos pretos, brancos, cinzas, malhados, rajados. Gatinhos vivendo em turma e gatinhos dormindo sozinhos. Assim é a Gatolândia, um lugar onde há mais miados que palavras, onde é liberado brincar até cansar e onde ronronados são o som ambiente. E eu me sinto extremamente afortunada por estar trabalhando ali. A Gatolândia, na verdade, é o apelido que inventei para a enorme fatia do abrigo da SF/SPCA reservada aos felinos em busca do tão merecido lar definitivo. A SPCA (sigla para Society for the Prevention of Cruelty to Animals, ou "sociedade pela prevenção de crueldade com animais") de São Francisco, através de um centro de adoções maravilhoso chamado Maddie's, é uma das entidades mais respeitadas da área com um índice de salvamento que é mais que o dobro daquele de outros abrigos para animais nos EUA -- fazendo, assim, jus ao nome da cidade. O trabalho não poderia ser mais perfeito: dar carinho e atenção aos gatos para que eles fiquem cada vez mais confortáveis na presença das pessoas e mais aptos a serem adotados. Muitos deles foram vítimas de maus-tratos e de abandono. Muitos foram entregues depois da morte do dono. Outro tanto são gatos que nasceram nas ruas, ou muito medrosos ou muito agressivos (ou as duas coisas juntas), e que devem passar por um lento processo de socialização. Os bebês precisam ser manuseados para se acostumarem ao toque e aprenderem a diferença entre brinquedo e dedos. O lugar é, realmente, uma Gatolândia. Os gatos adultos ficam em pequenas salas envidraçadas, às vezes sozinhos, às vezes acompanhados de outros. Cada uma das salas tenta reproduzir o ambiente doméstico que o gato vai enfrentar na vida fora do abrigo. Portanto, eles têm televisão, sofá, tapetes, arranhadores e janelas para olharem o movimento do lado de fora. O objetivo é fazer com que a temporada deles no abrigo seja a menos traumática possível, e também prepará-los para uma adoção definitiva, tentando diminuir a taxa de devoluções por motivos bestas. Agora estamos no que eles chamam de "kitten season", ou "temporada de bebês gato", quando todas as gatas resolvem dar à luz novas ninhadas por aí. Parece ter alguma coisa a ver com a primavera/verão que deixa o clima mais quente. O fato é que nesta época a SF/SPCA é invadida por centenas e centenas de bebezinhos. Este ano, ouvi dizer, está sendo o mais movimentado. Tiveram até de tomar espaço da sala de reuniões para botar gaiolas com pequeninos miantes. Mesmo freqüentando o ambiente pelo menos três vezes por semana, a minha reação ao entrar na sala dos gatinhos é igual a do público: quase desmaio de tanta fofurice. Trabalhar lá foi o que sempre quis desde que a mudança para São Francisco virou possibilidade. Mas eu sabia que não seria fácil. E não é. É uma montanha-russa de emoções diária. Meu coração fica quentinho ao entrar na sala da Daria, uma gatinha de três anos. Daria é uma coisa doce que só de ouvir a minha voz rola no chão de felicidade e vira a barrigona pra cima. Também fico contente de ver gatinhos como Clyde, de cinco meses. Quando chegou, ninguém conseguia sequer tirá-lo da gaiola, de tanto que ele tinha pavor de humanos. Depois de um pouco de paciência, Clyde está deixando ser pego e ainda fica se enroscando no seu colo e dando piscadinha de amor (os gatos dão piscada de amor, uma piscada lenta, quem tem um sabe do que estou falando). Mas também meu coração é partido em mil pedaços diariamente. Como quando eu tenho que botar gatinhos como Nino de volta à gaiola. Nino é um poço de mel que descansa cada uma das patinhas dianteiras em cada um dos meus ombros e aninha a cabeça debaixo do meu pescoço, ronronando e dando o abraço mais gostoso do mundo. Eu fico mais de meia hora com ele assim, abraçada. E, na hora de recolocá-lo de volta, ele chora. Não quer ir. Eu prometo que volto no dia seguinte, torcendo baixinho para que alguém venha e o leve para casa de uma vez por todas. Nino está lá até agora, e eu simplesmente não entendo. Quero fazer campanha para ele ser adotado. Porque é uma sensação maravilhosa mostrar um gato para um possível adotante, ver que a pessoa é carinhosa, bacana e saberá dar uma vida feliz para aquele serzinho que já passou por tantos bocados, e ouvir a frase "é, vou ficar com ele". Melhor ainda é ser aquele que vai pegar o gato, botar na caixa de papelão (com os dizeres "Eba! Estou indo para casa!") e entregá-lo na mão da pessoa que, sempre, está com olhos brilhando como criança em véspera de Natal. Eu penso "ganhei o dia" várias vezes durante as horas que fico ali. Quando a gente faz um trabalho voluntário acha que está ajudando outros, mas a verdade é que quem sai ajudado é a gente mesmo. ![]() Contatos imediatos do melhor grau |
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