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Bury e o mistério dos Racionais O Bury estudou comigo na primeira série do primário – hoje primeira série fundamental. O Bury, na verdade, se chamava Alexandre. Nome um tanto comum na minha geração, daí ele passar à história escolar pelo sobrenome. Assim como os punhados de Fábios e Fernandas que dividiram carteiras comigo, e acabavam precisando de um sobrenome ou apelido para distingui-los do resto. Ele era um menino sério, seriíssimo. Enquanto as outras crianças se revezavam em descrições mais aproximadas a alegres, infantis, desdentados com a troca de dentição, medrosos, curiosos, desaforados, acanhados, estridentes ou mesmo tristes, o Bury era sério. E esquisito. Ele ia para a escola com dois pés de tênis diferentes. Ele enchia as margens dos cadernos de desenhos – e não eram os Ursinhos Carinhosos. Ele levava na mochila revistas que só meu tio podia ler, do tipo “Chiclete com Banana” e “Mad”. Ele era muito alvo e tinha cabelos muito loiros, quase brancos; uma disposição que contrastava com os óculos de aros coloridos (lembro-me de azuis e vermelhos). O pai dele parecia um bancário, daqueles que portam sempre óculos, bigodes e camisa social e são chamados de Tavares ou Almeida (mas provavelmente o senhor era chamado de... Bury). Nunca vi a mãe dele, era sempre o pai que ia apanhá-lo e ao irmão menor, menos branco, menos loiro e aparentemente mais adaptável, na escola. Uma coisa é certa: o Bury era mais ou menos da minha altura, de modo que foi designado como meu par na quadrilha do colégio quando chegou o tempo dos festejos de São João. Eu não podia imaginar aquele garoto esquisito envergando camisa xadrez com remendos propositais, chapéu de palha e cavanhaque pintado de rolha queimada. Por isso talvez eu desconfiasse que iria levar o cano no dia D, o que seria um alívio, porque aí eu teria a desculpa perfeita para não dançar. Mas lá estava ele, no dia da festa, figurando exatamente como eu duvidava. Pois dançamos, e meu pai tirou uma foto, imortalizando aquele estranho casal junino. Eu, desdentada em toda a glória dos sete anos, com ostensivas bochechas redondas de ruge salpicadas de pintinhas feitas à lápis de olho, um oferecimento da caixa de maquiagem da minha mãe. E o Bury ao lado. Sério como nunca. Ou melhor, como sempre. (Claro que anos depois, já na pré-adolescência, a foto veio à tona e eu era diariamente zoada pelo fato de ter dançado com o Bury). Como o Bury era o tipo de garoto que não incomodava, os anos entre a primeira série e o ginásio me são um grande borrão no que diz respeito a ele. O próximo evento de que me lembro foi o Festival de Música da escola, já em 1991, quando estávamos na sétima série, todos contando 13 primaveras – exceto os repetentes, essas temidas figuras vistas como os delinqüentes do universo escolar. Acredito que ele tenha continuado a ser esquisito, calçando um tênis de cada e desenhando figuras medonhas no caderno. Mas eis que, nesse Festival de Música, ele e seus amigos – boa parte dos meninos da classe – decidiram se apresentar. Ele cantava e os meninos dançavam atrás. Até aí, nada demais. Os Menudos já faziam isso e muitas bandas de pagode vieram a fazer depois deles. O ponto aqui era a música que ele cantou, que me deixou impressionada. Para que fique claro o quão impactante foi a música do Bury, devo registrar um pouco do cenário onde ela foi apresentada. O Colégio era reduto de crianças de classe média ou média alta, cujos pais e mães haviam dado graças pela vitória do Collor na eleição de 89, porque “se o Lula ganhasse, ele ia tomar um dos dois carros da sua família e dar para os pobres”. Eu ouvi esse discurso mais de uma vez enquanto fazia trabalhos escolares na casa de colegas – para os quais, aliás, era o máximo da realização juvenil ter uma camiseta da Pakalolo, tantas canetas importadas quanto possíveis e um pai a apanhá-lo na escola com um Escort XR3. E eis que o Bury me surge com uma espécie de rap. Letra cortante, bem concatenada e um tanto agressiva. Era um discurso dirigido a um playboy (ou, como a gente dizia na gíria renascida da Idade Moderna, “burguês”), que se perdera num bairro barra-pesada. Tinha frases contundentes como “dura é a lei do mais forte, onde a miséria não tem cura e o remédio mais provável é a morte” e rimas espertas, como “você gasta milhões se vestindo em etiqueta/ Enquanto isso as crianças na sarjeta/ Futuros homens/ Quase não comem/ Morrem de fome”. E aquele menino branquinho, sério e calado estava ali cantando esse tipo de coisas para uma platéia escolar classe-média-de-subúrbio. Talvez aquela meninada fosse tão tapada que nem entendeu a mensagem. Ou admiraram apenas a coragem de um outsider nato em subir num palquinho no pátio e cantar aquela música de preto pobre – sendo que ele era branco. E, senão rico, pelo menos pobre também não era. Já eu fiquei boquiaberta. A letra era muito boa, a mensagem era contundente. E confesso que invejei. Invejei o Bury e sua capacidade criativa, para logo depois descobrir o que alguns talvez já desconfiem: a letra era “Hey Boy”, do primeiro disco dos Racionais MCs. Foi o Leli, membro da banda e meu amigo mais fiel, quem dedurou o plágio descarado – jamais percebido por qualquer outra criança ou professor, já que ninguém mais devia ter alguma pista de quem diabos eram esses tais de Racionais Ême-Cê-Esse. Passamos a desdenhar da composição ao saber da verdade, eu e minha amiga Roberta, que havíamos ficado ambas de queixo caído e com aquele sentimento, que ainda me é muito familiar, de morrer de vontade de ter pensado naquilo antes. Mas o tempo dá outra perspectiva às coisas: hoje, o que me intriga é a cara-de-pau de um rapazote como o Bury em subir num palco e, no auge da insegurança dos 13, se apresentar para o colégio inteiro. Com um plágio. E, sobretudo, me intriga onde raios aquele menino branquelo, de classe média e pai com cara de bancário, conseguiu um disco dos Racionais MCs.
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