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Na minha lista Tenho um caderno de capa dura azul-marinho na medida 13 cm por 18 cm. Na verdade, trata-se de uma agenda de 2003 que, dado o adiantado do ano, foi sendo usada no período além do que devia. Não importa muito, pois ela tem páginas brancas com linhas – o que me basta para projetar a vida toda ali. Extrato do banco anotado dia a dia, para depois riscar o que já caiu; entrevistas feitas em cima da hora; lembretes genéricos; temas para textos; endereços perdidos; telefones desconhecidos; e, principalmente, listas de afazeres. É impossível que eu viva sem fazer listas. É um traço leve de TOC, suspeito. Mas se não começo o dia ou a semana fazendo uma lista curta ou longa de tarefas, me perco no mundo. Esqueço de inspirar e expirar se não estiver anotado ali, debaixo da data e do cabeçalho “Lista de hoje”. Em letra de forma, que senão não presta. Olhando o caderninho com capa de 2003, vejo que já fiz demais nesses últimos tempos. O primeiro rol de itens, por exemplo, diz respeito ao marceneiro. Sei disso porque está anotado em letras garrafais “COBRAR O MARCENEIRO”. E eu só uso caixa alta quando é muito importante. Apesar de achar meio exagerado, agora, os pontos de exclamação em “prateleira do banheiro!!!” e “prateleira do meio do armário da cozinha!!!”. Lembro que o moço veio todo esbaforido me socorrer com a tal prateleira do meio do armário da cozinha. Se ele soubesse a bagunça que permanece lá, com a tábua sendo usada para duas frigideiras velhas, não teria me atendido tão depressa. Mais adiante, vejo uma série de travessões invocando idéias para a finada coluna da Revista Época. Um quadro com grandes políticos que sofreram com doenças, como Arafat, Regan e Napoleão. A idéia, se não me engano, nunca saiu do papel – e a lista agora só traz gente mais finada do que a saudosa coluna. Tempo bom. Não sei bem por que, mas fiz listas também de presentes de Natal. Acho que foi para saber quem já tinha seu regalo decidido e comprado (separei isso em duas colunas, com descrição completa, com nome da loja e preço. Que nerd). Sei agora que, há dois natais, dei ao Enzo um pôster do Star Wars. Silvia ganhou um kit de aromaterapia calmante, papai recebeu um livro sobre cachaça e mamãe levou um DVD de “A Felicidade Não se Compra” (que, ironicamente, custou o olho da cara). Preciso melhorar neste ano, acho que começarei a lista mais cedo. Por causa da antiguidade dessa agenda, passa um bom período em que Sabrina, de barriga a bebê pronto, domina as listas. É um tal de “bebê conforto”, tic, “mala”, tic, “enfeite da porta”, tic, “cortina”, tic, e um exótico “pijama”, tic. Por que eu queria mesmo que ela já tivesse um pijama? Nem bem era nascida e eu lhe comprei... um pijama? Bom, lista é para viajar e prevenir mesmo. Senão por que motivo teria escrito “abrir previdência privada”? Data de 8 de fevereiro de 2005. A bem da verdade, até hoje não tenho previdência alguma. A bem da verdade, naquele tempo ainda havia algum dinheiro entrando para ser usado com previdência, coisa que hoje não mais. Bem que a lista me avisava. Ver essas seleções faz saber que muita gente já passou pela minha vida, e saiu com a mesma velocidade. Senão, como teria me esquecido quem é a Lílian para quem deveria ligar urgente em 21/7? E por que precisava receber “o homem da Atenud”, se eu mal sei o que é isso? Há um endereço aqui com uma rua na Vila Ema, sendo que nunca coloquei pés ou rodas nesse bairro. Opa, um CPF desconhecido com o valor de “R$ 362” anotado ao lado. Quem levou essa grana de mim? Se tivesse um telefone, ligava e pedia de volta... Constam aqui bizarras listas de mercado – com fralda, algodão, tomate e macarrão, levando-me a crer que naquele dia não fiz nada além de limpar um pequeno traseiro e comer carboidratos. Elas convivem com anotações sobre o edifício, já que eu sou a síndica (e confesso que me farto de rir aqui ao ler “consertar a porra da fechadura da porra da entrada desse lixo de prédio”). Era um mau dia, acho. Um incrível número de consultas médicas marcadas, dezenas de lembretes para ligar para a DirecTV, setlists de baladas, textos começados sobre temas como “na Idade Média é que era bom”. Se um arqueólogo apanhar a agenda 2003 daqui milhares de anos, concluirá que o povo outrora vivente era hipocondríaco, telemaníaco, com um gosto horroroso para músicas e saudoso dos anos 1.400. Taí, um texto sobre exploradores do futuro nos analisando como antepassados... Deixa anotar aqui na lista. |
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