De pequenos, tudo era uma fábula. Apenas uma professora nos levava ao mundo do “e” de elefante e do “b” de barriga. Uma conta de mais aqui, uma olhadela no mapa do Brasil ali... E ela ainda podia ser chamada de tia, acenando como uma pessoa da família que faria biscoitinhos com leite no fim do período. Pois a gente cresce e as aulas escolares mudam um pouco de figura. Não melhor nem pior – apenas muito diferente. E um pouquinho mais cruel.
Sei que não ia dar para aprender artigos de terceiro colegial usando papel crepon e tesoura sem ponta. Nem prestar vestibular escrevendo com lápis de cera e fazendo experiência com feijão e algodão molhado. Mas passar para a fase escolar mais avançada precisava perder o charme? Precisava dar aquela dor de cabeça toda?
Eu passei os cinco primeiros anos de escola na maior maciota. Não só tirava ótimas notas (sem estudar muito) como também era a queridinha dos professores. E então saímos de áreas doces como Estudos Sociais e Ciências para coisas aterradoras como Química e Física. Saíram as brochuras com o hino brasileiro na contracapa para a entrada de maciços cadernos de dez matérias. Largamos até a mochila da Hello Kitty por um fichário digno de gerente de repartição.
Confesso, eu me assustei com o ginásio e o colegial. O rendimento caiu e foi preciso ralar muito para descolar cada 7,0. Até hoje, quando me perguntam do tempo de escola, lembro de certos pavores...
Na aula de Química: Mol
A mulher queria falar sobre cinco pontos dentro daqueles 50 minutos. No dia em que inventou essa coisa de Mol – porque eu ainda hoje acredito ser tudo invenção dela – quase chorei. Em dado momento, depois da minha quarta pergunta não-solucionada, pensei ter sentido cheiro de cabelo queimado. Era a cuca fundindo.
Na aula de Física: Aceleração Centrípeta
Hoje até que visualizo melhor, na mente, o que significa tudo aquilo. Aos 15 anos, eu lá podia entender fórmulas que mais pareciam hieróglifos não decifrados no Baixo Nilo? Não entendi lhufas e fui para a prova com dor de estômago. Tirei 8,5. Física é tão inexplicável que fiquei sem entender minha própria nota.
Na aula de Matemática: Logaritmo
Lembro bem, foi a última aula da Professora Ana Lúcia antes de terminarmos o segundo ano. Ela queria mostrar aquela tabela cheia de numerinhos, a gente queria combinar a semana que passaríamos em Santos, no apartamento da Fabi. Com a média fechada, decidi tentar entender os logaritmos, mas foi em vão. Falta de motivação, sabe?
Na aula de História: Iluminismo
Aqui confesso ter sido 100% minha culpa. Hoje posso versar horas sobre o interessante tema acima e até dar informações que não constavam no meu livro encapado de amarelo – sabiam que Madame de Staël (Anne Louise Staël) foi umas das poucas mulheres a se unir ao Iluminismo? Naquele tempo, acho que esquecia os dados por estar mais preocupada se o menino da classe do lado ia convidar para a festa de sábado. Tolinha.
Na aula de Geografia: Tundra
Parecia o nome de um dos integrantes dos Thundercats. Mas era uma espécie de vegetação comum nas regiões nórdicas e áreas gélidas como o Alasca. Não deveria ser difícil lembrar isso, mas acontece que a tundra me confundia loucamente. Errei ao localizá-la no mapa. Logo eu, eterna nota 10 em Geografia... Que depressão. Só se resolveu quando minha mãe viajou para a Suécia, voltou, botou uma foto em cima da mesa e disse “isso aqui é a tundra, caramba!”. Matinho feio, isso sim.
Na aula de Português: Dissertação
A mestra pediu uma dissertação sobre tema livre. E nós passamos toda a viagem de ida ao Playcenter, em 1990, discutindo sobre o que haveria de ser uma dissertação. Era redação? Redação com argumento? O que raio é argumento? Foi um drama, mas consegui o 7,5 escrevendo sobre pena de morte (professoras adoram polêmica). A ironia está no fato de dissertar, hoje, ser parte da minha profissão. Até quando a escola assusta, ela ensina. Mas não seria ruim continuar a desenhar um solzinho no cabeçalho mesmo durante a universidade, seria?
Tundra, tundra... Você só me deu problemas