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Take a walk on the wild side Ganho a rua com o sol a pino. Ou quase isso, já que no inverno o sol não fica a pino. Mas é meio-dia e o passeio pelo subúrbio está apenas começando. A canção de Lou Reed pode não ser a trilha sonora mais apropriada para quem quer vencer, em calmas passadas, as ruas que se avizinham aqui de casa. De “selvagem” o subúrbio não tem nada, pelo menos na aparência. Mas algo me diz que, por trás das fachadas mais ou menos iguais, tudo poderia acontecer. Daí a escolha do título. As casas se enfileiram, embora previsíveis, com uma divertida variedade arquitetônica. Portões de alumínio são um must do subúrbio e já prenderam muitos braços infantis incautos. Minha casa no bairro Assunção mesmo tinha um, de correr. Eu gostava de ficar olhando através dele enquanto minha mãe o abria à noite para guardar o carro. Era uma profusão de luzes que pareciam uma tempestade magnética em plena rua dos Crisântemos. Lajotas de cerâmica marcam presença, mas têm perdido espaço para a ardósia. Ardósia pode ser um símbolo do seu status social no subúrbio, igual ao carro zero. A casa para a qual me mudei depois do sobrado geminado da rua dos Crisântemos tinha ardósia no quintal, o que significou uma leve “melhora de vida” da família. O piso reúne duas qualidades essenciais para um suburbano que se preze: é bom e barato. De quebra, tem mais uma vantagem para as Mirtes que se prezem: é fácil à beça de limpar e, com uma cerinha rápida, fica tinindo de brilhante, menina. Há telhas daquelas transparentes cobrindo as garagens e janelas de alumínio a torto e a direito. Há casas revestidas com azulejos grandões, nova tendência das vilas. Há, sobretudo, casas de fundo. Mesmo que a gente não possa vê-las, as placas de numeração duplas entregam a existência do pessoal dos “FUNDOS”, palavra que figura junto a um dos números brancos em fundo azul escuro. E há aqueles que se deram um pouquinho melhor na vida, possivelmente supervisores de firma alçados à gerentes, que fazem lajes no lugar das telhas brasilit e botam textura na parede. Talvez estes sejam aqueles vizinhos malas que se acham o máximo porque o filho estuda em escola particular e não tiram o plástico do banco do carro zero, comprado a muito esforço e prestação e exibido pela rua com o mesmo afinco. Casa de subúrbio tem sempre um jardinzinho na frente, na maioria das vezes com roseiras. Quem teve de cimentar o canteiro para fazer caber o carro sedan – tática muitas vezes combinada ao portão reformado para ganhar uma barriga que se projeta em direção à calçada – não hesita em dar vida à garagem (que também serve de salão de festas) com plantinhas enfiadas em latas de óleo aqui e acolá. No meio do dia, uma profusão de peruas escolares – sinal dos tempos, já que agora a maioria das mães trabalham também – vem apanhar ou despejar as crianças à porta de casa. O ar se enche do som das buzinas estridentes dos veículos e do vapor assobiado pelas panelas de pressão cozinhando feijão. Afiando bem o ouvido, captam-se também os barulhos das máquinas de lavar batendo a roupa e das rodas dos carrinhos de mochila dos estudantes menores. O cheiro do subúrbio é justamente esse: cheiro de feijão cozinhando. Ou de refogado de toicinho (porque ninguém no subúrbio fala “bacon”) com cebola e alho. Isso pela hora do almoço, claro, porque ao cair da tarde o subúrbio cheira a sabonete das crianças enviadas para o banho antes do jantar. Ops. Do jantar, não. Da janta, que é como a gente fala no subúrbio. Algumas donas-de-casa atrasadas passam por mim arrastando seus carrinhos de feira e reclamando que no fim a gente não acha nada bom mesmo, né, colega? Adolescentes chegam sozinhos da escola, portando mochilas e fichários nas mãos e vestindo uniformes invariavelmente cortados ou rabiscados, uma forma de se destacar entre a massa, tão sintomática dessa fase. Cachorros irritantes latem no quintal até que uma mulher de lenço e chinelos abra o portão para eles. Velhinhos passeiam devagar na pracinha. A perua escolar vem recolher a turma da tarde. Eu amo andar pelos bairros de subúrbio, a começar pelo meu. Clara McFly às 11:38 AM |
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