sábado, 15 de julho de 2006

Pipoca, meu bem, pipoca

Eu conheço gente que não gosta de pizza. Eu conheço gente que não gosta de chocolate. Eu conheço gente que não gosta de sorvete de morango. Gente que não gosta de pipoca, porém, eu não conheço. Claro que deve até existir meia dúzia de incautos por aí – só porque nesse mundo tem mesmo de um tudo. Se há quem faça parte do fã-clube da banda Calypso, torcer o nariz para uma mísera pipoquinha é café pequeno em matéria de insanidade. Mas vamos combinar que a maioria de nós não resiste àquele cheirinho, àquele estalinho, àquela crocância, àquelas mini-maravilhas da culinária que, além de deliciosas, são divertidas: ou você nunca ficou brincando de adivinhar se o formato da pipoca lembra um carneiro, um velho de cachimbo ou seu primo narigudo?

Algumas lendas dos índios norte-americanos pregam que espíritos moram dentro de cada grão de milho. Eles vivem suas vidas felizes e contentes em suas respectivas cascas, até serem aquecidos. Daí, ficam irritados. Pulam para mostrar descontentamento e, se o aquecimento continuar, explodem de tanta raiva. Essa é a explicação mágica para um fenômeno que sempre pareceu um pouco mágico. Como é que um milho duro e impróprio para a alimentação de repente se transforma em uma coisa completamente diferente? A ciência, como sempre, é mais sem graça. Diz que ao invés de espíritos, quem mora dentro de cada grão é... água. Uma pequena quantidade que, com o calor, evapora e expande o milho, fazendo-o explodir. Então ele é virado do avesso e o que era interior, vira exterior.

Você acredita que a pipoca mais antiga de que se tem notícia foi descoberta em uma caverna no Novo México e tem por volta de cinco mil anos? Há ainda registros de que os astecas conheciam a prática de estourar o milho e usavam pipocas como ornamentos em danças cerimoniais e para enfeitar estátuas de deuses. Contudo, o início da pipoca como petisco aconteceu de um jeito pouco prático: espigas inteiras eram colocadas sobre uma grelha, e esta por sua vez sobre um fogaréu. Nem preciso contar que pipocas voavam para longe, caindo no chão, ou nas chamas. Poucas sobravam para serem comidas. Isso aconteceu até alguém ter a brilhante idéia de botar os grãos em uma espécie de engradado com cabo, assim eles não teriam contato o fogo e nem correriam o risco de voarem desgovernados e acertarem o olho de algum azarado.

O começo da carreira da pipoca nas ruas também não foi lá das melhores. Os vendedores estouravam o milho em casa e ficavam rodando com o mesmo estoque durante o dia todo – ou seja, a clientela tinha uma pipoca murcha e passada. Foi em 1885 que Charles Cretors, de Chicago, inventou um carrinho com uma engenhoca capaz de estourar o milho na hora, mantendo assim o produto sempre fresquinho. Aí ficava difícil para o povo ignorar a vontade. O irônico é que até a Grande Depressão os cinemas proibiam o consumo de pipoca em suas salas porque dava trabalho limpar todo aquele milho pisoteado ao final da sessão. Mas com a época de vacas magras chegando e a população cada vez com menos dinheiro para gastar em uma entrada, a pipoca serviu como atrativo: quem comprasse um ingresso, ganhava desconto no petisco. Foi quando começou uma das uniões mais firmes de que se tem notícia – pipoca e cinema.

Durante a 2ª. Guerra Mundial, grande parte do açúcar norte-americano era enviado para os soldados nos campos de batalha. Portanto tudo o que era doce virou item escasso dentro do país. Quem é que mais uma vez saiu ganhando? A pipoca. Seu consumo triplicou. Sem falar que em 1950, com a popularização da TV, as famílias preferiam ficar em casa assistindo seus programas favoritos e comendo, claro, pipoca. Desta vez o consumo aumentou impressionantes 500 por cento. Mas fazer pipoca em casa era complicado. Comparava-se o milho em saco, botava-se tudo em uma panela especial (com uma manivela em cima da tampa para mexer os grãos e evitar que eles queimassem), adicionava-se óleo... E depois toca esfregar a panela para limpar a sujeita incrustada.

O que ninguém sabia, naquele tempo, era que um tal de Dr. Percy Spencer acabara de fazer uma descoberta incrível. Em 1946 ele estava trabalhando em tubo para aspiradores de pó chamado “magnetrum”. De repente, ele notou que a barra de chocolate guardada no bolso de sua calça havia derretido só com a proximidade da peça. Por pura curiosidade, Spencer então decidiu colocar alguns grãos de milho de pipoca ao lado do tubo. E sabe e o que aconteceu? Eles estouraram! Depois de mais algumas experiências melecadas com outros tipos de comida (como ovos, por exemplo), nascia o protótipo do nosso tão cotidiano forno de microondas. Mais uma vez, a pipoca virava notícia.

Claro que ela não ia ficar fora do furor causado pela invenção na vida das pessoas. Tudo o que a pipoca precisava para ganhar de vez os lares de seus apreciadores era de uma embalagem que pudesse ir ao microondas. Então inventaram aquele saquinho de papel, que você tem de desdobrar e colocar com as abas voltadas para cima. No centro há uma lâmina de alumínio que esquenta com as ondas do forno e, assim, faz com que os grãos de milho estourem rapidamente. Desde então o céu é o limite. Nos Estados Unidos, são consumidas 400 mil toneladas de pipoca de microondas em um ano. O segundo maior país fanático pelo petisco salgado é, adivinha só, o Brasil – nós consumimos 70 mil toneladas em 12 meses.

“Ah, mas como tudo o que é bom, aposto que engorda e faz mal...”, você deve estar pensando. Ei, não a pipoca! É incrível, mas se você parar para pensar pipoca nada mais é do que milho. Isso mesmo, um grão rico em fibras. E em um copo de pipoca sem manteiga há apenas de 30 a 55 calorias; se a manteiga for pouca, o número não passa de 130. Quer mais algum motivo para agarrar o saco de pipoca mais próximo? Hoje é sábado, leitor! Dia de ir pegar um cinema, ou de alugar um DVD bacana e assistir esparramado no sofá!

Eu já estou começando a sentir o cheirinho...

popcorn.jpg
Vai uma pipoquinha aí?



Vivi Griswold às 08:54 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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