quinta-feira, 22 de junho de 2006

Efeitos co(pa)laterais

“São quatro pãezinhos, um litro de leite B, uma rosca doce e... avedeus, gol da Ucrânia! Olha que golaço, linda! Golaço, né?”. Eu não sabia se respondia “sim, mó golaço” ou “mas a senhora deve ter a idade da minha avó Emília, não devia dizer a palavra ‘golaço’, é estranho”. Usei a primeira opção para ser simpática à empolgação da doce senhora à minha frente na fila da padaria. Essa Copa do Mundo deixa tudo muito diferente.

A velhinha usava blusa de lã tricotada em casa e um par de óculos pendurado no pescoço. Olhando assim, mal daria para pensar que ela se importava com a habilidade futebolística da Ucrânia. Ou mesmo com a brasileira. Ou mesmo que estivesse enxergando a chuviscante TV da padaria. Preconceito meu, ela vibrou mesmo com o gol. Mas senhoras fazendo festinha para futebol é apenas um dos efeitos colaterais trazidos pela Copa.

As ruas ganharam decoração verde-e-amarela, como deve ser por essas bandas. Voltaram à moda velhas manias, como pintar o asfalto e as guias, amarrar fitas coloridas de poste a poste, estender bandeira na janela. Nessa hora, impressionante, ninguém está se importando de parecer otimista, ufanista ou animado demais. E ainda tem outras coisas que só a Copa provoca.

Festas juninas sumidas
Vai precisar rolar muito quentão e churrasquinho para que os festejos de São João tenham popularidade este ano. Muitos vão à quermesse, claro, mas terão que encarar flâmulas em apenas duas cores e cartazes dizendo “Pipoca Rumo ao Hexa – Ficha Aqui”, como vi na entrada da igreja do bairro uma noite dessas. Daqui a pouco, estaremos cantando “Pula a fogueira, Kaká/ Pula a fogueira Rorô”.

Almoços de firma intermináveis
Fonte quente garantiu que, neste mês, os almoços da gerência estão mais longos do que nunca... Saem às 12h45, abancam-se no restaurante às 12h55. Começa a partida no telão ali ao lado, eles pedem covert (antes renegado com veemência), escolhem o prato, recebem a comida. Acaba o primeiro tempo, ordenam sobremesa, cafezinho, a conta. Acaba o segundo tempo. Aí sim, lá pelas 15h10, é hora de voltar ao escritório. É a famosa vagabundagem-executiva.

Camelôs com produto único
Não adianta estranhar: o menino do farol mudou de ramo temporariamente. Antes trazia aquele conjunto de balinhas e chicletes gostosos pelo módico preço de R$ 1. Agora só dá bandeirola para a janela do carro, chapéu comemorativo, faixa de “Brasil Campeão 2006”. Nem mesmo os vendedores de rosas, carregadores de celular e frutas da estação puderam ficar de fora. Todos estão no setor de artigos de Copa agora. Ah, e parece que o rapaz dos malabares está atirando bolinhas de futebol flamejantes pro ar. Sinal dos tempos.

Bandeiras tortas
Nada contra o comércio informal (exceto por eles deixarem 15 cm de espaço para circularmos nas calçadas). Mas precisa melhorar de olho, essa turma. Todo varal de bandeiras brasileiras à venda contém uma infinidade de aberrações. É um tal de estrela faltando, verde em tom de drops chupado, bola azul imensamente desproporcional. Outro dia notei que trocaram o oficial “Ordem e Progresso” por “Vai Brasil!”. Um herói da Inconfidência revirou no caixão nesse momento, ouviram?

Êxodo
Empresas bacanas estão dispensando o efetivo para assistir aos jogos. Óbvio, pois se não fizessem isso, o roubo de post-it em protesto aumentaria horrores. Então quando falta uma hora para a partida, as ruas ficam abarrotadas, parece que anunciaram feriado prolongado de oito dias ou ameaça de invasão alien. Já quando restam 15 minutos para começar a festa, o povo vai sumindo, sumindo... Na hora marcada, não tem vivalma na área pública. Dá pra sair pelado e deitar no asfalto da Avenida Paulista. Mas isso seria perda de tempo, porque o jogo tá rolando!

Comentários vários
Sim, o Galvão Bueno recebe para fazê-los. Casagrande, Falcão, Noronha, Luciano, Muller, Dunga, idem. Já quem não tem contrato com rede de televisão para dar prognósticos embasados, chuta qualquer coisa. Tem uma amiga, muito entendida de ballet, mas analfabeta de futebol, que garante: o Uruguai será o campeão dessa Copa. Não adianta dizer a ela que o Uruguai não foi... Vem na seqüência toda uma explicação de porquê o Uruguai é melhor. Se bem que o Pelé é entendido e também só fala groselha.

A febre do álbum
De repente, um bando se reúne em círculo. No centro, montes de figurinhas com faces de jogadores de todas as seleções convocadas para a Copa do Mundo. Pensa que trata-se de uma horda de crianças? Há! A idade média dos trocadores de cromos gira em torno dos 25, 30 anos. O álbum do Mundial é tão popular que, entre os colecionadores, estão homens de negócios, mães de família, adolescentes EMO, bebês de colo, militares aposentados, freiras e punks. Aposto que a velhinha à minha frente na fila da padaria, a torcedora da Ucrânia, tinha um bolo de figurinhas no bolso. E com duas repetidas do Robinho.

album.jpg
Tenho, tenho, não tenho, tenho...


Fla Wonka às 09:19 AM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold