quarta-feira, 21 de junho de 2006

3x0 pro canteirinho

E finalmente chegou a primavera por estas bandas do hemisfério norte. É fácil perceber que o inverno deu bye-bye, não apenas pelas temperaturas mais agradáveis e pelo sol – mas também por conta da enxurrada de produtos para “aproveitar o ar livre” que invadem canais de televisão e as lojas. É propaganda de churrasqueiras, liquidação de móveis de vime, programa de jardinagem, saldão de mudas, anúncio de fertilizantes que não acaba mais. Pra piorar, basta uma espiada pela janela para ver o vizinho da frente podando as árvores da casa dele. Basta uma caminhada pela rua para ver o resto dos moradores do bairro ajoelhado e cavoucando na terra. Como eu e namorido somos pessoas mui influenciáveis, decidimos: queremos participar da festa também, pombas!

A casa onde moramos conta com duas áreas verdes. Que no momento são áreas cinzas por causa da falta verde. Enfim. Uma é um quintal estranho nos fundos, que é estreito mas possui três níveis – então cabe bastante planta. Outra é um canteirinho ao lado da porta da garagem, já na calçada em frente à casa. O canteirinho tem três pinheiros e um pé de azevinho totalmente fora de controle (e que serve de escada para o rato preto, já contei do rato preto que vem nos visitar?). Decidimos sabiamente atacar primeiro o canteirinho, por dois motivos simples: primeiro, é menor e mais fácil do que o quintal dos fundos, e serviria de teste para nossos talentos paisagistas, ou para a falta deles; segundo, porque ao contrário do quintal dos fundos, todo mundo que passa em frente ao sobrado vê o canteirinho, zomba da cara dele e cospe sem piedade no arbusto meio-morto de margaridas que nasce desengonçado por ali.

Ok, essas duas últimas partes foram invenção minha. Mas até que seria uma reação compreensível para quem vê o pobre canteirinho e, logo depois, vê o belíssimo canteiro da minha vizinha da esquerda. Pois não é que a senhorinha é uma paisagista de mão cheia, caprichosa de dar raiva? Tudo ali é lindo. A grama é impecável, as flores são perfeitas, as cores combinam. Ela sai diariamente para molhar sua obra com a mangueira e deve se encher de orgulho, ainda mais comparando aquilo com o canteirinho do jovem casal de estrangeiros que anda enfeiando a rua. Agüentamos o desaforo silencioso por todo o outono e inverno – afinal, arrumar dentro da casa era mais importante que lidar com a parte de fora. Mas não na primavera! Na primavera tínhamos que tomar uma providência! Decididos, fomos até a loja de ferramentas para comprar os apetrechos essenciais para a missão.

É claro que tudo era muito mais caro do que pensávamos. Então a dupla formada pela super tesoura de poda e pela super alicate de cortar galhos mais grossos rapidamente se transformou apenas em uma tesoura de poda mais ou menos. Compramos também uma pequena pá. A idéia era num primeiro momento limpar o canteirinho, deixá-lo livre de plantas mortas e de árvores crescendo mais que o pé-de-feijão daquela história para aí sim termos uma idéia do que plantar. Até porque aqui não tem Ceasa com caixa de mudas a cinco reais. Aqui um vaso de crisântemo, daquele bem ordinário que é vendido no Carrefour a dois contos, não sai por menos de 15 dólares. Um assalto. Portanto, todo planejamento é necessário. Pois bem. Domingão chegou, todo ensolarado, e depois de assistirmos ao jogo do Brasil com alguns amigos conterrâneos, começamos a atacar o canteirinho.

Não passaram mais de cinco minutos para repararmos que precisaríamos sim daquela super alicate de cortar galhos mais grossos, quando namorido quase caiu da escada ao tentar livrar-se de um galhão com a tesoura de poda mais ou menos; que nossa escada é baixa demais para conseguirmos nivelar os pinheiros por cima e baixar a bola do azevinho; e que a gente esqueceu de comprar um par de luvas. Essa última constatação deu-se na vigésima sexta vez em que eu furei minha mão tentando arrancar o matagal. Tive que descer na loja de conveniências da avenida para comprar luvas de jardinagem. Sim, na primavera as lojas de conveniências vendem luvas de jardinagem. Voltei com minha recente aquisição e já fui puxando pela raiz os dois arbustos meio mortos de margaridas e o monte de ervas daninhas.

Com o mato mais alto sob controle, reparei que nosso canteirinho estava coberto por cascas de caracóis. Namorido comentou que precisávamos comprar um produto para acabar com eles, mas eu respondi que eram cascas vazias. Pego uma na mão, olho, e de repente começa a sair uma gosma de dentro dela. Argh, caracóis vivos! E o que você faz com eles? Pisa? Não, nojento demais. Joga na vizinha com canteiro bonito? Tentador, mas não. Enquanto pensava no fim daquelas criaturas melequentas, começa a soprar uma ventania e todos os galhos podados e matos arrancados começam a sair rolando pela calçada. Apressada, peguei a vassoura e tentei trazer de volta os fujões, mas obviamente o vento estava ganhando de minha pessoa. Era necessário botar o matagal em algum lugar, o que nos colocou frente a frente com o próximo problema: ei, onde vamos colocar essa montanha de folha, galhos e raízes?

Aqui na cidade (não sei se o sistema é o mesmo no resto do país), todo morador possui o direito de ter três lixeiras distintas: uma preta, para lixo normal; uma azul, para lixo reciclável; e uma verde para entulhos em geral, contando aí o produto resultante de uma tarde trabalhando no jardim. É claro que nós não temos a tal lixeira verde e nunca pedimos para a companhia de lixo nos trazer uma. Ok, e agora? “Vamos botar na lixeira da vizinha”, sugeriu namorido. Óbvio que me recusei. Afinal de contas, se a vizinha vier tomar satisfação sobre a lixeira dela até a tampa de entulho alheio, sou eu que estarei em casa, sozinha, para enfrentá-la. E se esperarmos até quarta-feira, dia de colocar o lixo para fora? Caso a lixeira verde da vizinha esteja vazia, tudo bem, podemos usá-la. Certo? Certo. Então... hã... onde vai ficar tudo isso até quarta-feira?

E lá fomos nós botar aquele matagal para dentro da garagem! Que vergonha. Que amadorismo. Pessoas passavam e olhavam aquele casal de malucos enchendo a própria garagem de terra. E o medo de estar botando alguma aranha venenosa pra dentro de casa? Melhor não pensar nisso. Quando terminamos, o canteirinho estava limpo, as árvores estavam aceitavelmente podadas e nós dois estávamos cansados, suados, imundos. O plano de comprar plantas e terminar a transformação do canteirinha naquele mesmo dia foi adiado. Começamos a pensar se ao invés de grama e flores não seria mais fácil fazer um jardim de pedra e cactus. Ou enfiar umas flores de plástico no chão mesmo, como eu vi uma velhota fazer na televisão. Mas ela era senil, e não vamos chegar a este ponto. Agora terminar a missão virou questão de honra! Porém, só quando tivermos ânimo novamente. Num futuro distante, talvez.

A vizinha pode até olhar com desdém para o nosso canteirinho na próxima vez em que for molhar seu belo jardim. Sabe de uma coisa? Nem estou ligando tanto. E se ela ficar com cara feia, devem ter sobrado alguns caracóis na garagem...

canteirinho.jpg
À esquerda, nosso canteirinho depois da limpeza.
À direita, o jardim metido da vizinha.


Vivi Griswold às 09:22 AM

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