sábado, 10 de junho de 2006

Sobrevivendo ao rodízio

A garota sabe que o plano precisa ser traçado no dia anterior. Ela pensa: para ir a uma churrascaria rodízio, daquelas com buffet de salada, frutos do mar e comida japonesa, são necessárias algumas horas de jejum. Pra render, sabe. Afinal, não importa o quanto de comida a garota consegue empurrar goela abaixo – o preço a ser pago será sempre o mesmo. Então nada mais óbvio do que fazer render seu dinheirinho, certo? Daí ela janta só uma sopinha de pacote e, no dia do grande almoço (precisa ser almoço, deusalivre de empanturrar o bucho de carne à noite), resolve fechar a boca ao invés de tomar café da manhã. A fome aperta, mas ela sabe que vai valer a pena quanto tudo tiver acabado.

Chegando ao lugar, a garota escolhe a mesa, pega o prato e já se dirige ao buffet. Daí percebe que o cidadão responsável por montar o dito buffet adivinhou que na noite anterior ela jantou sopa de pacotinho e que desde então ela não comeu nada só para fazer render a ida àquela churrascaria. Isso explica o esmero com que as travessas são colocadas e a variedade absurda de opções. A garota é fraca. E com fome, é mais fraca ainda. Então quando se dá conta do acontecido já encheu o prato com lasanha, camarão na moranga, ovo de codorna, arroz tropeiro, sashimi, mussarela de búfala, rolinho primavera, carpaccio, casquinha de siri, berinjela empanada e salada de broto de feijão. Quem vê pensa que ela acabou de erguer uma laje com as próprias mãos e precisa de sustança. Com uma certa vergonha, ela se dirige de volta à mesa e pede uma água – pra não engordar.

O garçom traz a água. Junto com um pratinho de pão-de-queijo, pastel de carne e mandioca frita. A garota percebe estarrecida que o garçom está mancomunado com o cidadão que monta o buffet. Todos são cúmplices na tarefa de fazê-la comer muito antes do primeiro espeto chegar. Ficam tramando tudo entre chuletas e costelas, rindo da fraqueza de espírito dela diante da fartura. A garota fica tão deprimida ao encarar a realidade que garfa um pastel de carne. E um pão-de-queijo, olha aí, está tão quentinho. E uma mandioca frita (que não pára de olhar para ela!). São minutos de esforço para limpar o prato. “Ir a rodízio com fome é pior do que ir ao supermercado com fome”, pensa. Ela odeia ir ao supermercado com fome porque acaba gastando muito mais que o necessário.

A garota então dá sinal verde para que comecem a trazer carne. Primeiro vem a lingüiça. Ela passa. Depois vem o queijo de coalho. Ela passa também. Mas onde estão as carnes? Então vem a asinha de frango. E a garota tenta imaginar quem é que sai de casa em pelo domingão, enfrenta trânsito, agüenta churrascaria cheia de crianças barulhentas e mães mais barulhentas ainda (“Luiz Alfredo, pára de botar o dedo na maionese, filho!”) para comer asa de frango. Ela passa também. E continua pensando que esses garçons que servem o que ninguém quer devem ser estagiários. Será que existe uma hierarquia de garçons de rodízio? Asa de frango sendo o mais baixo escalão e picanha com alho sendo o mais alto? Nisso chega um espeto de fraldinha. Esse ela aceita. Hmmm, da parte mais rosadinha, por favor. Outro pedaço? Tá bom, vai, mas pequenininho. Obrigada.

O garçom traz carneiro. Ela recusa com cara de horror. Com cara de mais horror ainda, a garota vê a irmã aceitar várias fatias de carneiro. “Não acredito que você come isso”, ela diz. A irmã responde “Ah, não começa, porque você come boi também”. A garota faz um muxoxo, ninguém entende o ponto de vista dela. Sim, ela come boi (muito de vez em quando) e frango e peixe. Um tipo de carne vermelha, dois tipos de carne branca. Pra quê comer outros bichos além desses? Já está de bom tamanho. Portanto a garota não come, nem amarrada, carneiro. Ou coelho, ou javali, ou pato, ou jacaré, ou avestruz, ou porquinho da Índia, ou qualquer outro bicho. Se tudo tem gosto de frango mesmo, ela prefere ficar com as galinhas. A garota se lembra de que seu namorido confessou ter experimentado canguru na Austrália. Jamais, jamais, ela comeria canguru. Só se ficassem, ela e o canguru, presos em uma ilha deserta. Mas aí seria capaz do canguru conseguir comê-la antes.

O pensamento a respeito da misericórdia para com os bichos acaba quando o garçom traz o cupim. E a alcatra. E o filé argentino. E a picanha com alho. E a tão esperada maminha na manteiga. Se há um motivo pelo qual a garota topa ir até uma churrascaria com a família em um domingo, é a tal da maminha na manteiga. Exausta de mastigar – e com aquele monte de comida no buffet já pesando – ela vira o cartão para o lado vermelho. Mas o pai da garota e a irmã da garota ainda querem mais. Então os garçons continuam botando espetos e mais espetos na frente dela, completamente ignorando o sinal de “pare, por favor, já num güento mais!”. Ela continua dizendo “não” seguidamente por mais uns quinze, vinte minutos. Até que a mesa inteira se dá por satisfeita. A garota se ajeita na cadeira e olha para o lado.

A verdade é que Dante deveria ter feito um inferno baseado em rodízios de carne. O que tem de gente que acha que aquilo é uma competição para ver quem come mais não está no gibi. As boas maneiras ficam do lado de fora do restaurante e o mais lorde dos presentes chega a comer com as mãos, chupar os dedos e limpar a boca na toalha da mesa. E o que dizer da quantidade de desperdício daquele lugar? Ela fez prato de pedreiro sim, mas pelo menos raspou tudo. Alguns freqüentadores pegam 10 ostras só para lembrar depois que odeiam ostras. E vai tudo para o pratinho das sobras, em cima de pedaços inteiros de carne e de polenta que invariavelmente vão parar no lixo. Uma tristeza. Por que toda vez em que a garota vai a uma churrascaria ela fica deprimida no final? Vai ver que o corpo precisa de açúcar. E ela segue para o carrinho da sobremesa.

Depois da última garfada da torta holandesa, a garota vê que a depressão continua e decide que é hora de ir para casa. Os cinco sentidos já estão falhando, o sono já bateu e o estômago já não comporta um amendoim sequer. A garota pensa “Já comi carne pelas próximas seis encarnações”. Ela faz a si mesma, pela 184ª vez, a promessa de virar vegetariana. Agora é pra valer.

Isso até a mãe do namorado da irmã da garota convidá-la para um churrasquinho na semana seguinte. E ela aceita.

Vivi Griswold às 09:34 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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