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3 medos A gente tem medo de um monte de coisa. Quando menores, do Bicho Papão e do Homem do Saco. Um pouco mais velhos, temos medo de cair da bicicleta ou tirar um zero bem redondo na prova, e ficar de castigo no dia da excursão ao Playcenter. Depois, passamos pela fase onde dá um medo danado de que alguém na escola descubra por qual sujeito de aparelho e espinhas arrastamos pestana. Por fim, encaramos medos típicos da vida adulta: tememos ser assaltados, nos dar mal na profissão escolhida ou pegar a fila do supermercado com a caixa em treinamento e a velhinha que esqueceu a senha do cartão. Vixi, que arrepio! Esses são os medos que eu chamaria de “pano de fundo”: quase todo mundo os compartilha e eles estão constantemente ali, à espreita. Mas também existem medos que você nem sabia que tinha. E outros que você nem imaginava um dia ter. Só descobre mesmo quando tem de enfrentá-los. Até porque o medo vem com esse estranho bônus da confirmação: você só sabe que é real quando chega a encará-lo. Afinal, quem aqui já topou com o Bicho Papão? Viram? Era um medo besta! Ao contrário dos três medos que enfrentei nos últimos sete meses. Eles, sim, foram bem reais. O primeiro eu nem sabia que tinha. O segundo, do “pano de fundo”, ganhou novas dimensões quando aconteceu de fato comigo. E o terceiro eu nem imaginava que viria a ter. Em setembro do ano passado, troquei as economias do cofrinho por uma viagem – exaustivamente planejada, ardentemente esperada, deliciosamente curtida. Foram doze dias sensacionais, a não ser pelas horas que passei em vôo. Sete decolagens, sete aterrissagens, umas 30 horas no ar e, calculo, uns 13 quilos a menos, de tanto suor. Ok, exagerei. Se eu perdesse 13 dos meus 43 quilos, ficaria parecendo o Primo Desossado. Mas que passei um apuro doido, ah, isso eu passei! Muita gente tem medo de avião e o meu também era dos mais irracionais. Eu fechava os olhos e tudo que conseguia pensar era o mantra “ai-Jesus-essa-porra-vai-cair”. Percebi que era um truque da minha mente vã quando me lembrei que morre muito mais gente em desastres de carro, e nem por isso entro no meu carro repetindo mentalmente “ai-Jesus-essa-porra-vai-bater”. (E enquanto eu tremia de medo e tentava me concentrar em pensamentos felizes e orações, meu companheiro de viagem espiava todo contente pela janelinha: E tudo que eu conseguia responder era: Cogitei voltar da Europa de navio. Ou ficar por lá, fazendo estátua viva nas Ramblas. Ou conseguir algum faixa preta e voltar desmaiada. Após cuidadosa análise, percebi que nenhuma das hipóteses era mais razoável do que simplesmente entrar no avião e me controlar. Deu certo. E hoje, embora me sinta muito mais feliz com o pé no chão, quando tiver de embarcar novamente posso me fiar nisso. Aí veio o Ano Novo, as sete ondinhas, a alegria do espoucar dos fogos, os tios bêbados de cidra e... a bota. A Época, onde assinávamos uma página semanal suficiente para garantir nosso sustento, passou por mudança de direção. E nós passamos por uma mudança de estatísticas: saímos do grupo da “população economicamente ativa” para o “índice de desemprego”. Perder o emprego é um medo do “pano de fundo”. Mas eu tinha um medo especial de sair da revista, porque entramos num golpe de sorte: o diretor encontrou nosso site, gostou do que viu e nos convidou para escrever lá. Eu sabia que ia ser muito difícil isso acontecer de novo: convite para trabalhar – e com ganhos bastante razoáveis. Será que essa mamata pode se repetir? Acho que não. Mesmo assim, confesso que quando soube do risco de sermos postas no olho da rua tive uma pequena sensação de... alívio. Ou aceitação. Não sei explicar direito, mas digamos que acendeu uma luzinha bem lá no fundo, animada com as possibilidades que poderiam se abrir e com tudo o que poderia mudar depois de quase três anos rezando praticamente a mesma missa. Ao fim, nem importa se uma mamata assim vai ou não cair no nosso colo de novo. Eu posso fazer uma porção de outras coisas. E então passou o Carnaval e estávamos mais exatamente no Dia da Mentira quando descobri a coisa mais sensacional de minha ainda não muito longa vida: eu estava grávida! A partir do momento em que vi a linha cor-de-rosa duplicada no exame, nada mais era muito preocupante – nem andar de avião, nem arrumar outro emprego, nem topar com o Bicho Papão. Tudo ia dar certo, desde que aquele pequeno juntado de células crescesse e se desenvolvesse direitinho, até nascer. Meu grande e único medo passou a ser, então, perder o bebê. E só. Pois foi justamente o que aconteceu. Uma semana depois – eu não tive sequer tempo de contar para todo mundo – fui para o hospital quando senti que havia algo errado. Longas horas de doída espera terminaram com um ultrassom que confirmou a fatalidade: o juntado de células que um dia seria meu bebê já não estava lá. Os médicos disseram que é muito comum isso ocorrer nas primeiras semanas de gestação. E eu fiquei com a dor da perda e do aborto – que, acreditem-me, dói pra caralho. Um horror. Mas nem só de dor se faz uma herança. Ficaram outras idéias, memórias e sensações maravilhosas, que eu jamais imaginava sentir ao experimentar a maternidade. E também a certeza de que tenho limites maiores do que eu imaginava ter. Por isso, ninguém precisa ficar com peninha, hein?! Afinal, medo todos têm. Outros ainda virão. E chega uma hora em que todo mundo tem de enfrentar. O que sobra dele, no entanto, é que pode fazer a diferença entre os covardes e os corajosos. Como ainda não embarquei noutra aeronave, não arranjei nova remuneração fixa e tampouco fui liberada para tentar engravidar de novo, ainda não sei o que ficou dos meus. Mas estou tentando ficar no segundo grupo. |
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