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Beijo sem língua, morte sem sangue Bastou alguém ligar a primeira televisão na tomada, já havia outro gravando uma novela para exibição. Desde os anos 60, a diversão maior dos dias de semana à noite passou a ser a vida fictícia de centenas de personagens. O horário das oito, assim chamado nobre, sempre foi saidinho e polêmico. O das sete, descontraído e inverossímil. Já o das seis... Pode manter as crianças na sala e convidar a vovó para ver TV. A novela das seis é toda deles. Coisa mais difícil é encontrar um beijo-chupão nesse tipo de folhetim. Mesmo mocinho e mocinha, que ficaram apartados por toda a trama, não chegam a dar um amasso no final. Sabe como é: no tempo das vovós, era selinho e olhe lá. Ainda mais na frente da câmera, pra todo mundo ver. Coisa de descarado, esse negócio de beijo com língua! Economiza-se no batom da protagonista e também no sangue cenográfico. Em novela das seis ninguém morre, apenas falece. E de morte morrida muito da romântica, de velhice ou tropeção. Mesmo a morte matada é branda: bem melhor assassinar com veneno, que não deixa marcas, do que com revólver. Se o uso da bala se fizer necessário, então é apenas um furo preto na roupa. Nada de caldo vermelho escorrendo, por favor! Quer enfartar as titias espectadoras? Deve ser terminantemente proibido, por exemplo, causar acidente de carro para trama das seis. Explosão, onde já se viu? Fogo pra todo lado, aquele monte de ferro retorcido, um corpo chamuscado... Nada disso. Melhor jogar a mãe da criancinha de um barranco médio, bastante seguro e com mato fofinho. Assim, quem sabe, ela até pode voltar no final da novela para salvar a pátria! Porque o público alvo de novela das seis é assim mesmo, não tolera injustiça. A não ser com escravos, claro. Tudo o que a produção poupa com maquiagem e sangue falso, gasta com grilhões e pau-de-arara, incrível. Negro bobeou, vai pro tronco. E a vovó fica horrorizada na sala de TV. Mas agüenta. Afinal, é temática do século retrasado, a sociedade não é mais preconceituosa assim. Daí ela aproveita e pede um chá para a empregada berrando “anda, menina, que o reclame já vai acabar!”. Vovós seguidoras de novela das seis são boazinhas, mas não muito. Aliás, o público alvo do horário já baixou um bocado de faixa etária. Antes eram só mesmo as velhinhas-bem-velhinhas – daí a novela das seis ser ouvida na casa do vizinho, dado o volume do aparelho. Hoje, jovens mulheres de 50, 40 e até de uns 30 e poucos adoram apanhar um pedacinho da história. Ora, lá os galãs são mais aprumados do que o Reynaldo Gianecchini. E os vilões são mais contidos do que o Marcelo Anthony. E ainda permite-se o uso de deliciosas expressões como “pedaço de mau caminho” para os primeiros e “ordinário miserável” para os segundos. Assim que é bom, assistir novela sem ficar quebrando muito a cachola com mistérios indecifráveis de 800 capítulos. Novela das seis não tem mistério algum. O bandido se apresenta logo de cara, roubando coisas de gavetas e cometendo atrocidades como... como... prender sua esposa na torre! É, ele pode ser mesmo cruel. Ao som de ópera alemã e ao sabor de licor de jenipapo, óbvio. Não importa a gastança com quilômetros de tecido para os vestidos ou litros de lágrimas fajutas para a mocinha se lamentar. E daí que o rapaz não vai dar um pega na garota e que o senhor de engenho vai chicotear um pobre até a tardinha? Quem se importa de ouvir uma trilha sonora repleta de baladas sonolentas? O que vale é tudo acabar bem, com um casamento na pracinha, vilões trancafiados e um bebê pronto a nascer. Quiçá até um beijo apaixonado! Mas de leve, porque isso é novela das seis, hein?
Vai beijar? Vira essa boca pra lá, menina!
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