Parte I
08h
Essa hora da manhã e o escritório já está esfumaçado. Sobra pouco para fazer além de fumar e contar as manchas de bolor que teimam em aparecer pelo teto, pelas paredes. Fecho os olhos e lembro dos bons e velhos tempos ao lado do meu parceiro Dwight, morto por engano por um amante ciumento e sem mira. Ah, Dwight, que saudades, garoto. A gente aprontava poucas e boas. Você era jovem e cheio de vida, e eu já estava arruinado. Quantas vezes não me amaldiçoei, era em mim que aquela bala deveria ter pego, em mim! E agora aqui estou eu, sozinho. De testemunha, apenas a velha máquina de escrever, o chapéu de feltro e o sobretudo gasto pendurado no mancebo. E minha amiga garrafa de uísque, que é gelada mas esquenta minha alma, venha cá, deixe-me dar mais um gole.
08h30
De repente vejo uma silhueta no vidro fosco da porta do escritório. Ela entra. Jovem, alta, loira e linda, de óculos escuros apesar da luz apagada. Toda vestida de preto, meias de seda pretas, sapatos pretos, luvas pretas. Só o loiro para contrastar, o loiro e os lábios escarlates. “É aqui o escritório de detetive?” ela pergunta. Vontade de responder “Não, é a loja de animais, por isso que está escrito a palavra ‘detetive’ na porta que você acabou de abrir”. Mas não é hora para ironias. Há muito tempo eu não vejo uma mulher como aquela. Há muito tempo eu não tenho um trabalho, as contas se acumulando na porta do meu apartamento barulhento e sem móveis. Não, não era hora para ironias. Peço para ela se sentar. Ela obedece e cruza as pernas. Tira um cigarro da bolsa, e eu risco um fósforo e lhe ofereço a chama. Ela dá uma baforada. Nicotina e perfume de rosas.
08h45
Ela não tem pressa. Fica algum tempo calada, os óculos escuros ainda no rosto. De vez em quando a mão enluvada que leva o cigarro à boca dá uma ligeira tremida. “Está nervosa”, eu penso. E espero. Tenho todo o tempo do mundo. Quando você estiver pronta, baby, eu estou aqui para escutar. E então ela se curva para frente, como se quisesse me contar um segredo impronunciável, e sussurra “eu preciso de sua ajuda com o meu marido”. Logo imagino que o marido a está traindo, ah, é sempre isso. Sempre a droga da traição, essa gente perdeu a criatividade. Mas quem há de trair uma mulher dessas? Só se for muito burro. Ou muito sortudo de encontrar outra melhor. Não, não pode ser. “O que o seu marido fez?”, pergunto, demonstrando cumplicidade. “Ele acabou de morrer”, ela diz, com a mesma voz sussurrante. E se cala novamente.
08h55
Enquanto a observo tentando decorar suas feições, penso em como poderia ajudar um morto. Um presunto que acabou de ser enterrado, está a sete palmos debaixo da terra, não respira mais, come capim pela raiz, foi de encontro ao Criador se esse tal de Criador existir. Aliás, se ele existir, quero fazer uma reclamação por escrito, pois eu fui criado com vários defeitos de fabricação. Mas logo o pensamento se afasta da minha cabeça, impossível pensar em defeitos se a perfeição em carne, osso e vestes negras está sentada na minha frente. Ah, Dwight, você deveria estar aqui agora vendo isso, garoto. Maldito amante vesgo, tem gente que definitivamente não pode encostar em arma de fogo. “Conte-me sobre seu marido”, eu digo, e minha frase soa como um cristal caindo e quebrando o silêncio.
09h
“Meu marido era o melhor marido que uma mulher como eu poderia ter. Antes de conhecê-lo, eu estava perdida na vida. Quis ser atriz, agentes me falavam que eu levava jeito, mas sempre que chegava em uma entrevista de trabalho era para ser dançarina exótica. Como não tinha dinheiro, aceitava. Você não imagina o que é fazer cara de fatal para homens que você nunca olharia duas vezes se cruzasse com eles nas ruas. Tentei buscar trabalhos sérios, com diretores, mas me diziam que eu era muito bonita para pisar em um teatro. Diziam que meu talento era outro. Até que ele entrou na minha vida. Tirou-me das boates e me levou para sua mansão. Não precisei mais me preocupar com aluguel, tinha tudo o que eu queria ter, jóias, carros, roupas francesas. Fomos muito felizes, apesar de tudo”.
09h15
“Apesar de quê?”, eu pergunto. “Apesar da família dele, que sempre foi contra nosso relacionamento”, ela continua, cada vez tremendo mais. “Falavam que eu era muito jovem. Só porque ele tinha uma filha com a minha idade? Isso não quer dizer nada. Os filhos não pensavam na felicidade dele, pensavam apenas na herança. Eu o queria vivo, porque ele foi o único homem que me tratou como uma dama, sem preconceito. Então, de repente, ele adoeceu. Começou a ficar cada vez mais fraco. Procuramos os médicos mais consagrados, fizemos os exames mais caros, e nada de diagnóstico. Em poucas semanas, ele não conseguia mais sair da cama. Eu sempre fiquei do lado dele, tentando confortá-lo. A mim, ninguém confortava. Os filhos estavam ocupados demais tratando do testamento, sabe? Eles ganhariam dinheiro, enquanto eu perderia a pessoa que me estendeu a mão”.
09h25
Ela começou a soluçar. Abriu a pequena bolsa de contas e de dentro dela tirou um lenço. Enxugou os olhos borrados de maquiagem. Tocante. Ofereço água, ela aceita balançando a cabeça. Levanto para tentar encontrar uma caneca, tenho certeza de que a caneca de estimação de Dwight ainda está em algum canto por aqui. Talvez debaixo dessa pilha de jornais. Ou nesta gaveta. Ou atrás deste arquivo. Finalmente acho a bendita caneca. Vou até o banheiro e pego água da torneira mesmo, é a única que tem. Ela me segue com o olhar e assim que eu lhe entrego a caneca, coloca-a sobre a escrivaninha, sem beber um gole sequer. Teve passado pobre, mas agora quer ser tratada como rica. Tudo bem. Espero mais um pouco para ela se acalmar e pergunto onde um detetive decadente como eu entra nessa história. Ela suspira.
09h45
“Um dia antes de morrer, meu marido perdeu a consciência. Já não me respondia coisa alguma. Eu perguntava se ele sentia dor, se ele precisava de alguma coisa, se ele sabia quem eu era, mas nada. Eu sabia que ele estava partindo e fui obrigada a começar a tomar todas as providências para velório, enterro, essas coisas. Era uma questão de tempo. Chamei o padre para dar a extrema-unção. Foi um momento muito difícil. Até que, de repente, ele voltou a si. Reconheceu-me, me chamou pelo nome, pediu para que eu segurasse a mão dele e sentasse ao seu lado. Disse que tinha uma pergunta muito importante para fazer e pediu para eu encostar o ouvido em seus lábios. Eu obedeci e ele começou a sussurrar, bem devagar, ‘O QUE TEM NO COPO VERMELHO?’. Quando quis saber o que diabos era aquilo, ele deu seu último suspiro. É aí que o senhor entra, detetive. Eu preciso saber a resposta urgente. Em 24 horas”.
10h
Não há tempo a perder. Um caso assim não cai todo dia no seu colo. Nem o maço de dinheiro com que aquele pedaço de mulher está acenando para mim. Nem aquele pedaço de mulher. Tenho pressa, os ponteiros do relógio são ágeis. Eu já sei por onde começar: a loja de animais empalhados do velho Seymour. Pego meu sobretudo, meu chapéu de feltro e saio. A porta bate atrás de mim.
* * * * * *
A misteriosa saga do detetive continua na quinta que vem, dia 30/03. Mas se você já tem um palpite sobre o que tem no copo vermelho, clique aqui para responder, conjecturar e embarcar na brincadeira!
Os textos desta trilogia foram escritos especialmente para a ação O que tem no copo vermelho?