sexta-feira, 3 de março de 2006

Corre, rapaz!

A folhinha marcava o ano de 490 a.C. – ou qualquer outro número, já que ninguém àquela época sabia que estavam a 490 anos do nascimento de Cristo. Dario, o rei da Pérsia, estava de saco cheio das reclamações populares. Diz que ninguém mais agüentava o valor estratosférico dos aluguéis, já que as cidades do Império estavam ficando pequenas para tanta gente. É que as mulheres persas eram ótima parideiras – cadeirudas, como dizia a Mirtes – e, com o crescimento incontrolável da população, o metro quadrado médio persa alcançou valores incríveis. Era praticamente a Tóquio da Antiguidade.

Dario precisava tomar uma atitude. Ele chamou seus Conselheiros Reais para Assuntos de Expansão Territorial, que trouxeram seu mapa real, sobre o qual seus olhos reais correram. Então, seu dedo real apontou a Grécia:
- Hum. Essa região pode ficar bem valorizada, olha essa parte aqui de frente para o mar. Vamos para lá.

Os persas aprontaram sua esquadra e se mandaram em direção à conquista da Grécia. Dario ia pensando no palácio que mandaria construir à beira do Mediterrâneo: “Mando fazer logo um duplex, com salão de jogos com vista para o mar. Quem sabe um terracinho para churrascos, aquecimento central, piscina com spa. Vai ficar da hora”.

Mas, sabe-se lá como, algum dedo-de-seta entregou os planos persas para os gregos. E deu a fita inteirinha: avisou logo que os invasores pretendiam desembarcar perto da planície de Maratona e, dali, passar geral a Grécia inteira. Quando a notícia chegou aos ouvidos de Melquíades, o general ateniense, a primeira coisa que ele pensou foi:
- Ih, fudeu.

A segunda foi:
- Teremos que pedir uma força para os espartanos, aqueles malas.

A terceira foi:
- Fudeu de novo. Pelas informações, os persas estão desembarcando logo. Como vou avisar Esparta tão rápido?

A quarta foi:
- Ó, Zeus, por que ainda não inventaram o celular, o fax, o e-mail... o telégrafo, que fosse?

E então a solução apareceu. Filípedes, um dos soldados de Atenas, entrou na sala.
- Ôpa. Firme aí, grande? Trouxe sua correspondência.

Melquíades levantou-se e aproximou-se de Filípedes com um brilho esquisito no olhar. O pobre soldado pensou consigo: “Hum. Lá vem. Ele está querendo alguma coisa. Da última vez que o vi com esse olhar, fomos parar na sauna e... bom, até que foi bacana”. Antes que Filípedes pudesse seguir com suas considerações, Mélqui o interrompeu:

- Fala, chapa. Tudo certinho?
- Er... Tudo. E você?
- Beleza, beleza... Fora um probleminha que surgiu aí.
- Que foi?
- Diz que os persas estão chegando para pegar nosso terreninho. E vêm com 25 mil homens. E devem desembarcar em menos de uma semana.
- Putaquelamerda, meu! E você me fala isso com essa calma?
- Assustou, santa? Então, me quebra um galho. Aproveita essa descarga de adrenalina e corre até Esparta, pedir ajuda.
- ...
- Tá aqui ainda?
- São 120 quilômetros para ir e 120 para voltar!
- Sabia que os persas são contra a sauna?
- Ok. Fui.

Filípedes correu até Esparta em um dia. Chegando lá, teve que esperar um pouquinho porque os espartanos estavam no meio de um festival religioso e ninguém queria sair para abrir a porta da cidade. O ateniense aproveitou para tomar um fôlego e ensaiar o discurso que se esmerara em bolar durante a corrida:

- "Homens da Lacedemônia, os atenienses pedem que vos apresseis em ajudá-los, para que seu Estado, o mais antigo de toda a Grécia, não venha a ser subjugado pelos bárbaros". Tá bonito, tá bonito. Convincente, eu diria. Eles vão me amar.

Mas acontece que os espartanos não se impressionaram muito, não. Disseram que eles não podiam sair da cidade àquela hora, porque... porque... estavam esperando visita, e sabe como é quando vem visita, né?, fica difícil organizar o exército assim tão rápido, e outra: e se todos nós formos para lá e os persas atacarem aqui? E Filípedes teve de dar no pé de volta, só para avisar que não poderiam contar com os espartanos, aqueles chatos sem coração.

“Puxa. Que bom. Encarei uma tremenda jornada e passei os maiores apuros só para dar com os burros n’água”. Filípedes foi embora sentindo-se como o próprio Clark Griswold – se ele soubesse quem é Clark Griswold. Em mais um dia, alcançou Maratona e se animou um pouco: os atenienses conseguiram conter o avanço dos inimigos. Mas então correu outro boato: os persas bateram em retirada para, dessa vez, dar a volta e atacar Atenas antes que o exército voltasse para lá.

Enquanto descansava sentado numa pedra (fazia quase uma hora e meia que estava arfando e, em plena hiperventilação, vira coisas fantásticas, como cometas coloridos pelo céu e jacarés com cabeça de hipopótamo), Filípedes viu Melquíades se aproximar. O general sentou-se ao lado dele e começou a riscar o chão com a ponta da sandália.

- Er... Filípedes, precisava te pedir uma coisinha...
- Ah, não, Mélqui. Acabei de sentar, pô! (Aparentemente, a hiperventilação também altera a noção de tempo).
- Cara, você foi fantástico. Nunca vi um corredor como você. E agora a segurança de Atenas está em suas mãos. Alguém precisa correr até lá e avisar o pessoal que nos demos bem aqui, mas os persas pretendem dar a volta a atacar a cidade.
- Ai... Não tem como mandar outro?
- Qué isso, irmão? Para quem fez 240 quilômetros, 40 são fichinha.
- Sei não, Mel...
- Pense nas saunas, cara. Pense nas saunas.
- Fui.

Filípedes correu mais 40 quilômetros. Só deu para chegar em Atenas, dizer “Vencemos! Mas cuidado: Silvio Santos vem aí” e cair literalmente morto de cansaço. Os atenienses que o acudiram foram espertos o bastante para perceber que o esforço fizera Filípedes ficar meio alto e interpretaram a estranha última frase do bravo soldado como “os persas vêm aí”. Prepararam o exército e conseguiram defender sua cidade. Dario teve de esquecer seu duplex e a história de Filípedes ficou tão famosa que deu origem à prova da maratona.

E ainda tem gente que reclama de dar uma corridinha até o ponto para alcançar o ônibus que está saindo.


Clara McFly às 10:33 AM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold