|
||||||||||
|
||||||||||
Corre, rapaz! A folhinha marcava o ano de 490 a.C. – ou qualquer outro número, já que ninguém àquela época sabia que estavam a 490 anos do nascimento de Cristo. Dario, o rei da Pérsia, estava de saco cheio das reclamações populares. Diz que ninguém mais agüentava o valor estratosférico dos aluguéis, já que as cidades do Império estavam ficando pequenas para tanta gente. É que as mulheres persas eram ótima parideiras – cadeirudas, como dizia a Mirtes – e, com o crescimento incontrolável da população, o metro quadrado médio persa alcançou valores incríveis. Era praticamente a Tóquio da Antiguidade. Dario precisava tomar uma atitude. Ele chamou seus Conselheiros Reais para Assuntos de Expansão Territorial, que trouxeram seu mapa real, sobre o qual seus olhos reais correram. Então, seu dedo real apontou a Grécia: Os persas aprontaram sua esquadra e se mandaram em direção à conquista da Grécia. Dario ia pensando no palácio que mandaria construir à beira do Mediterrâneo: “Mando fazer logo um duplex, com salão de jogos com vista para o mar. Quem sabe um terracinho para churrascos, aquecimento central, piscina com spa. Vai ficar da hora”. Mas, sabe-se lá como, algum dedo-de-seta entregou os planos persas para os gregos. E deu a fita inteirinha: avisou logo que os invasores pretendiam desembarcar perto da planície de Maratona e, dali, passar geral a Grécia inteira. Quando a notícia chegou aos ouvidos de Melquíades, o general ateniense, a primeira coisa que ele pensou foi: A segunda foi: A terceira foi: A quarta foi: E então a solução apareceu. Filípedes, um dos soldados de Atenas, entrou na sala. Melquíades levantou-se e aproximou-se de Filípedes com um brilho esquisito no olhar. O pobre soldado pensou consigo: “Hum. Lá vem. Ele está querendo alguma coisa. Da última vez que o vi com esse olhar, fomos parar na sauna e... bom, até que foi bacana”. Antes que Filípedes pudesse seguir com suas considerações, Mélqui o interrompeu: - Fala, chapa. Tudo certinho? Filípedes correu até Esparta em um dia. Chegando lá, teve que esperar um pouquinho porque os espartanos estavam no meio de um festival religioso e ninguém queria sair para abrir a porta da cidade. O ateniense aproveitou para tomar um fôlego e ensaiar o discurso que se esmerara em bolar durante a corrida: - "Homens da Lacedemônia, os atenienses pedem que vos apresseis em ajudá-los, para que seu Estado, o mais antigo de toda a Grécia, não venha a ser subjugado pelos bárbaros". Tá bonito, tá bonito. Convincente, eu diria. Eles vão me amar. Mas acontece que os espartanos não se impressionaram muito, não. Disseram que eles não podiam sair da cidade àquela hora, porque... porque... estavam esperando visita, e sabe como é quando vem visita, né?, fica difícil organizar o exército assim tão rápido, e outra: e se todos nós formos para lá e os persas atacarem aqui? E Filípedes teve de dar no pé de volta, só para avisar que não poderiam contar com os espartanos, aqueles chatos sem coração. “Puxa. Que bom. Encarei uma tremenda jornada e passei os maiores apuros só para dar com os burros n’água”. Filípedes foi embora sentindo-se como o próprio Clark Griswold – se ele soubesse quem é Clark Griswold. Em mais um dia, alcançou Maratona e se animou um pouco: os atenienses conseguiram conter o avanço dos inimigos. Mas então correu outro boato: os persas bateram em retirada para, dessa vez, dar a volta e atacar Atenas antes que o exército voltasse para lá. Enquanto descansava sentado numa pedra (fazia quase uma hora e meia que estava arfando e, em plena hiperventilação, vira coisas fantásticas, como cometas coloridos pelo céu e jacarés com cabeça de hipopótamo), Filípedes viu Melquíades se aproximar. O general sentou-se ao lado dele e começou a riscar o chão com a ponta da sandália. - Er... Filípedes, precisava te pedir uma coisinha... Filípedes correu mais 40 quilômetros. Só deu para chegar em Atenas, dizer “Vencemos! Mas cuidado: Silvio Santos vem aí” e cair literalmente morto de cansaço. Os atenienses que o acudiram foram espertos o bastante para perceber que o esforço fizera Filípedes ficar meio alto e interpretaram a estranha última frase do bravo soldado como “os persas vêm aí”. Prepararam o exército e conseguiram defender sua cidade. Dario teve de esquecer seu duplex e a história de Filípedes ficou tão famosa que deu origem à prova da maratona. E ainda tem gente que reclama de dar uma corridinha até o ponto para alcançar o ônibus que está saindo.
|
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||