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Para gringo ver Mudar-se para outro país é um processo bem traumático, por mais preparada que a pessoa esteja. É tudo diferente, esquisito, estranho. Existem aqueles problemas de adaptação mais óbvios, como a língua, os costumes, as regras. Mas existem também detalhes pequenos que só passando pela experiência. Como, por exemplo, a programação da TV. Se eu já era viciada na máquina de fazer doido no Brasil, não ia deixar de ser nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar. Mas vou confessar uma coisa... Para pegar o controle remoto aqui é preciso estar disposta a ver coisas que só sendo americano para agüentar. Se os nossos canais abertos são uma tristeza, os da gringolândia não ficam muito atrás. Para começar, aqui as emissoras têm nomes tão iguais que mesmo depois de alguns meses eu ainda não consigo saber qual é a ABC, a CBS ou a NBC. Tudo bem, eu sou a pessoa que confunde “atacado” com “varejo”. Mas a única faceta que eu consigo identificar é que uma tem o logotipo de pavãozinho, outra é um olho copiado pela Bandeirantes e outra é um círculo com o nome da emissora copiado pelo SBT. Mas nada além disso. E a programação também é muito confusa. É difícil decorar onde passa “Lost”, “Desperate Housewives” e “CSI”, sendo que no Brasil era tudo centralizado no canal por assinatura Sony. Ao contrário da Globo, do SBT, da Record e companhia, cujos estilos (ou a falta deles) são bem óbvios, as emissoras aqui parecem ser todas iguais. Ok, eu posso estar falando a maior besteira do mundo, mas é essa a impressão que eu tenho em quase cinco meses de televisão americana. Juro que não é birra. Por exemplo: após o almoço, lá pelas duas da tarde, é hora de novelinha. Então absolutamente TODOS os canais passam novelinha. E longe de ser uma novelinha legal – é uma coisa que parece mexicana, mas sem o charme. Fora que as novelinhas aqui duram décadas. Isso mesmo. Imagine uma trama do Manoel Carlos, tipo “Laços de Família”, por 30 anos seguidos. Os atores nem são mais os mesmos, a história já tomou outro rumo mas... o troço nunca tem fim. Não que eu esteja sentindo falta daqueles programas femininos cheios de merchan, de notícias super importantes como onde a Luana Piovani vai passar o Carnaval, de aulas de axé às sextas-feiras e de receitas do arco da velha que nenhuma dona de casa, por mais Mirtes que seja, tem paciência de encarar em pleno século XXI. Mas um pouquinho de variedade não faria mal a ninguém, vá. Se eu quiser fugir das novelinhas, não me resta outra coisa que não seja o canal de compras. Vinte e quatro horas de ofertas de sapatos a bonequinhas de porcelana, passando por jogos de panelas, relógios e roupas. Tão interessante que eu prefiro assistir ao crescimento do bambu aquático que comprei. A partir das seis da tarde, é hora dos telejornais. Logo, TODAS as emissoras passam os seus ao mesmo tempo, é claro. Assim, para dar bastante opção à audiência, sabe? E é essa hora que mais me dá nos nervos. Porque não é só o horário dos telejornais que são combinadinhos. As notícias também são! Então, se em um telejornal está passando sobre a gripe do frango na Malásia, pode apostar que a mesmíssima matéria também está sendo exibida em todos os outros concorrentes. É um timing perfeito. Com a previsão do tempo acontece igual: a hora em que um moço ou moça aparece na frente de um mapa é dividida por todos os canais. Se eu nunca entendi por que vale a pena abrir uma loja de vestido de noiva na rua que só tem lojas de vestidos de noiva, imagine essa mentalidade. Fico boiando na lógica. No quesito comerciais, tenho um plano de pesquisa: escolher uma emissora, assistir a todos os comerciais e marcar, dentre os exibidos, quantos eram de remédio. Porque é uma loucura a quantidade de propaganda de remédio que empurram goela abaixo. E não só de dor de cabeça, cólica ou gases, mas de mal de Alzheimer, herpes genital, câncer de cólon e outros quadros clínicos tão agradáveis quanto. Normalmente aparece uma mocinha simpática ou um rapazote muito bem-apessoado dizendo quanto a vida com hemorróidas ou com hepatite é ruim, e como melhorou depois de tomar o remédio tal. Daí entra uma voz falando que o remédio tal pode causar “enxaqueca, depressão, aborto, dor abdominal” e mais uma lista de um sem-número de efeitos colaterais. A segunda obsessão nacional depois da farmácia é, pelo visto, a gôndola de produtos de limpeza. Nos comercias, todos são práticos, milagrosos e muito específicos. Tem a esponja para limpar banheira, tem o spray para perfumar o carpete, tem o esfregão que só falta fazer tudo sozinho ao som de um sucesso do Blondie. Ou seja, depois de ter certeza de que você tem sopro no coração e está com os dias contados se não falar para o seu médico sobre o remédio x, vem aquela vontade de esfregar o rejunte dos azulejos com algum paninho mágico vendido pelo Mr. Clean, um garoto-propaganda bombado e com sobrancelhas brancas que me causam pesadelos. Isso porque ainda não entrei no mérito dos reality-shows. Tem desde os conhecidos do público brasileiro, como “O Aprendiz” do Donald Trump até os mais bregas e viciantes, como um de nome “Starting Over”, no qual eles botam um bando de mulher cheia de crises existenciais para baterem boca. A epidemia é tão grande que só faltam filmar os conflitos do dia-a-dia das lesmas de jardim. Já pensou? As lesminhas votando no final qual delas deve ser eliminada com sal? É melhor falar baixo, vai achem a idéia super inovadora. Ah, não posso esquecer ainda da seção “cópia mal-feita dos ingleses”, com programas originais da Grã-Bretanha e que foram adaptados para o público americano, como “Minha Casa, Sua Casa”. Até hoje não vi um cômodo sequer que tenha sido no mínimo aceitável. Tudo isso, meu caro leitor, só para contar que assim como você, o telespectador ianque está lascado. Que os anjos digam amém à tevê por assinatura tanto na terra da feijoada quanto na terra do Big Mac. Vivi Griswold às 09:10 AM |
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