quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Medieval? Eu passo

A Idade Média, período compreendido entre os fugidios anos de 476 e 1.473, foi mesmo um assombro. Derrubou alguns impérios, ergueu novos, desmoralizou guerreiros e fez a fama de outros tantos. Rendeu vários filmes também, a danada. Com as imagens cheias de charme divulgadas pelo cinema, muitos passaram a sonhar como seria bacana viver naquele tempo valente e romântico. Arriscam até dizer que, em sendo a Máquina do Tempo uma realidade, correriam direto para a Idade Média, para “ver como era”. Eu não, obrigada. Seria impossível sobreviver em uma época tão precária.

Começa pelo uso do toilette – que nos idos do século 5 não tinha esse nome afrescalhado, porque tratava-se apenas de uma bela fossa, um buraco às vezes amparado por tábuas ou uma cadeira vazada. Isso se o dono da “casinha” fosse também dono de um aprazível feudo. Os pobretões tinham mesmo é que visitar o mato. Não é querer ser esnobe, mas eu aprecio vasos de louça branca, com descarga moderna, papel apropriado bem à mão e umas revistas não muito sérias. Na Idade Média as pessoas deviam sofrer muitíssimo de prisão de ventre simplesmente por não ter uma “Caras”.

Daí passamos ao vestuário. Os rapazes não tinham muito sobre o que chiar, pois usavam lá suas calças flexíveis debaixo de shorts bufantes e próprios para, como se diz, “criar o bicho solto”. Os sapatos eram de lona, os chapéus eram de feltro. E se eles optassem por ostentar uma capa ou uma pena colorida no alto do boné, ninguém duvidaria de sua masculinidade. Era moda. Enquanto isso as myladis...

As myladis, pobrezinhas, eram metidas em vestidos imensos com armações de arame. Vestiam perucas. Debaixo daquela caloria toda, espartilhos que esmagavam peitos e causavam constantes desmaios. Não, elas não perdiam os sentidos pelos guris bonitos do Reino. Era tudo culpa do pulmão pressionado – e, possivelmente, culpa do cheiro indizível dos cavaleiros de shorts bufantes que tomavam banho sábado sim, sábado não.

Sim, a higiene evoluiu horrores desde a Idade Média. Graças aos céus. Da mesma maneira, evoluíram os cosméticos e as relações de trabalho. No rosto, as garotas precisavam passar um pó branco áspero feito cal (e aquilo devia causar uma alergia louca). Para ter bochechas coradas, só na base do beliscão, porque blush era artigo para rainhas e princesas. Inventaram um tal de perfume, mas era preciso ter um alquimista por perto para misturar os cheiros com propriedade. E se eles não tinham nem banheiro decente, que dirá um fazedor de odores fúteis.

As relações de trabalho? Bom, eu preferia viver debaixo da terra do que passar a vida devendo a um barão. E olha que o tal, serelepe e sem muito o que fazer, ainda costumava apanhar as camponesas humildes para lhe satisfazer nos lençóis. Pode ter sido esse cenário o precursor do teste do sofá... Mas hoje ao menos pode-se escolher se quer subir na empresa dando pro chefe ou trabalhando feito um burro.

A amarga rotina medieval, porém, não chega aos pés do problemão que era o setor de comunicações. Acontece assim: hoje eu telefono para uma amiga, conto um caso, faço duas questões e finalizo sempre com o fatídico “putz, tinha uma outra coisa pra te falar, mas esqueci...”. Então desligo, lembro a coisa em 10 minutos e telefono novamente para completar a prosa. Lá por volta de 650 d.C., camarada, isso seria um martírio para o mensageiro.

Imagina apanhar uma carta com a Baronesa de Kent, cavalgar seis dias, e entregar a missiva à Duquesa de York. Aí você cavalga mais seis dias e volta para casa. E então a roliça senhora, esquecida como ela só, está na ponte levadiça com mais um envelope em punho – afinal, ela “esqueceu que tinha uma outra coisa pra falar” à Duquesa de York. E toca cavalgar mais 15 dias. Os mensageiros morriam aos 23 anos, provavelmente de hemorróidas.

Era mesmo um deus nos acuda. Mas então vinha o Baile Anual, aquele onde toda a Idade Média se reunia para um rave maneira em que todos os fidalgos transavam o corpo numa nice. Escolhia-se o traje de gala, as jóias, os sapatos. Iam-se ao encontro da galera ouvindo um showzão de cravo e dançando aquela quadrilha delirante.

Em meio ao bailão, a mocinha acha um rapaz adorável. Sacode o esqueleto com ele, toma um vinho, trocam olhares. Ele puxa conversa e ela, tímida, responde com muxoxos enquanto risca uma linha imaginária no chão com a ponta do scarpin. Como ambos são avexados, fica nisso. E para encontrar de novo e seguir o romance, só no Baile do ano que vem??

Devia ser uma tortura, um martírio. Seria melhor cair no fosso frente ao castelo e ser traçado pelos crocodilos ou morrer em decorrência da Peste Negra. Se a Máquina do Tempo vier, mande-me para qualquer cafofo futurista. Idade Média não, me poupe.

idademedia.jpg
Quem gastaria plutônio numa viagem
no tempo para viver essa agonia?

Fla Wonka às 10:09 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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