quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Na fila do supermercado

Pronto. Acho que já peguei tudo o que precisava. Agora o negócio é enfrentar a fila. Vamos lá, coragem. Não vai estar tão grande assim. É só fazer força para empurrar o carrinho, tomar cuidado para não atropelar as canelas dos outros que está tudo certo e... Ai minha Santa Izildinha que fila grande da moléstia. Por que sempre que eu resolvo fazer supermercado, tarefa que já me tira qualquer resquício de bom-humor, parece que toda a cidade de repente teve a mesma grande idéia? Será que a farinha acaba simultaneamente para todo mundo?

Bem, vamos ver qual dessas filas parece a menos pior. Opa, essa aqui está vazia! Ufa, que sorte. Quê? É só para idosos, deficientes e gestantes? Mas eu faço tricô e falo frases que começam com “no meu tempo”, meus pés são chatos e carrego uma criança interior. Jura que não me encaixo em nenhuma das qualificações? Droga. Vamos tentar outra. Hmm, essa aqui até que não está de todo mal. Hein? Por que a moça está botando uma plaquinha ali? O caixa vai fechar justo na minha vez? É perseguição, só pode. Que tal aquela outra? Ó, são só três compras grandes e uma criança segurando uma lata de achocolatado na minha frente. Beleza.

Ai, e não é que o moleque estava só guardando o lugar para a mãe que apareceu do nada com dois carrinhos até a tampa e um bebê a tiracolo? Isso deveria ser proibido, viu. Além de explorar o menor para uso próprio, ainda joga areia na esperança dos outros. Na próxima vez, eu compro pela internet. Ou procuro um horário bem esdrúxulo, tipo às 2h da manhã. Puxa, mas tem tanta coisa mais legal para fazer na internet que nunca me lembro de incluir as compras. E passear pelas gôndolas de produtos de limpeza não é um jeito bom de gastar a madrugada. Eu sei que eu reclamo demais. E só vou pensar em uma solução quando já estou metida nesta muvuca.

O jeito é esperar e tentar passar o tempo. Vejamos, que tal repassar a lista de compras na cabeça? Pão de forma, queijo prato, peito de peru, detergente, manteiga, bolacha, batata, sabão em pó, cenoura, agrião, uma dúzia de ovos, xampu, nuggets de frango, desodorante, danoninho, leite... Tenho certeza de estar esquecendo alguma coisa, mas o quê? Maldita teimosia em não fazer lista, viu. Dá nisso. Deixe-me pensar... Já sei, papel higiênico! Eu sempre me esqueço desse item de primeira necessidade. Sempre. Até cheguei a afanar um rolo do banheiro coletivo do prédio. Eu sei, fim da linha, né. Mas foi por pura necessidade, juro! Vou dar uma corrida e pegar um sacão. Moça, olha meu carrinho aqui, já venho, ok?

Argh, voltei e a fila andou pouco mais de um centímetro. É claro que o rapaz quer pagar com cartão de fidelidade do supermercado, mas o tal está dando erro. Por que toda vez tem um caso complicado na minha frente? Ainda bem que nem tudo está perdido e eu posso dar uma olhada nas manchetes das revistas. “Xuxa volta das férias”. Nem sabia que ela tinha ido. “1001 idéias de sexo”. Jura que ainda há coisas inéditas no assunto? E 1001 delas? “25 dicas para melhorar sua alimentação”. Melhor não saber, com esse carrinho cheio de besteira. “Tenha o cabelo dos seus sonhos”. Para isso, preciso nascer de novo. E ainda: truques para emagrecer, faça dinheiro trabalhando em casa, simpatias, horóscopo chinês...

Nada de interessante nas revistas, pra variar. Já faz 15 minutos nesse raio de fila. O que mais tem para olhar? Adoro essa seção de “última hora” que colocam nas gôndolas pequenas que delimitam os caixas. Parece que tudo o que o ser humano precisa neste momento é de isqueiro, pastilha Tic-Tac e cola Super Bonder, porque são sempre os mesmos itens em todos os supermercados. Pode reparar, é um dos maiores mistérios do universo. Se eu ainda fosse o McGyver, poderia usar esses três produtos para construir uma bomba de efeito moral e conseguir passar na frente desse monte de carrinho. Vai ver o problema é comigo.

E é claro que a criança na minha frente já perdeu a paciência e está gritando para a mãe, que grita com ele de volta. E o bebê grita sozinho, coitado. Vontade de gritar também, mas daí vou parecer louca. O moleque, exausto, deita no chão. A mãe briga, diz que vai sujar todo o uniforme da escola. Pensa que eu sou sua escrava, não sou não viu. Levanta daí, José Henrique! Vou contar até três! Deixa eu chegar em casa que vou contar tudo pro seu pai! Você vai ver. Lembra daquele videogame que você tanto quer? Então, pode esperar sentado. Eu que não vou comprar. Eu só trabalho nessa vida e você ainda me desrespeita na frente de todo mundo? Olha o vexame, José Henrique!

Chegou a vez da família barulhenta na minha frente, aleluia. Sou a próxima! Nossa, mas essa mãe comprou tudo isso de cerveja? Será que vai ter festa? Deve de ser churrasco, porque ela acabou de tirar um saco cheio de lingüiça e de tomate. Para o vinagrete, claro. Eu adoro checar a compra alheia. Você não apenas desvenda se vai ter algum evento social na casa dos outros, mas descobre se o cabelo da pessoa é seco ou tem pontas danificadas, se ela está de regime, se é vegetariana ou se é rica. Nesse último caso, ela só carrega uvas daquelas sem caroço, queijo brie, biscoito fino e vinho importado. Diga-me o conteúdo do teu carrinho de supermercado e eu te direi quem és.

Ufa, chegou a minha vez! Escuto até as harpas dos anjos. Daqui a pouco estarei livre, livre! Boto minha compra na esteira. Guardo tudo dentro das sacolas rapidamente. E então a moça do caixa me dá o valor total. Hein? Tudo isso? Eu que achava que a fila era a pior parte do supermercado...

Vivi Griswold às 09:17 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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