Como eu disse, Roliúde anda fascinada com requentados de toda espécie: refilmagens, adaptações e, é claro, continuações. Como tampouco tenho algo de novo a acrescentar e estou mais é esperando algum produtor me pagar umas lascas por seguir o sistema, apresento hoje mais versões possíveis para a clássica história de Chapeuzinho Vermelho. Mas, é claro, até mesmo as continuações possuem suas regras.
Diz que toda seqüência tem de ter mais ação, mais emoção, mais astros (ou pelo menos aqueles que caíram no truque do contrato ou estão dispostos a engordar a conta a despeito da qualidade do roteiro). Enfim, há de ser mais incrementada. Mas as seqüências costumam, também, ter histórias mais pífias.
Então, aqui, o incremento fica por conta da variedade. Desta vez, temos uma sugestão para cada linguagem: TV, teatro, cinema, Internet e videoclipe. As histórias também estão ligeiramente maiores. Já se pioraram... bem, isso é você quem decide. Mas caso chamem o caro leitor para integrar a platéia-teste, tenha a bondade de não dizê-lo ao produtor, sim?
Sem maiores delongas, como diria a bruxa enganada pelo Pica Pau, “e lá vamos nós”!
Sitcom
O título seria: The Hood Family
A abertura mostra cortes rápidos de cenas cotidianas vividas por Chapéu, a Avó, o Lobo e o Caçador, que dividem um colorido apartamento em Nova York. Em uma delas, Chapéu aparece correndo no Central Park. Em outra, a Avó e o Caçador andam pela Quinta Avenida. O Lobo é mostrado comendo cachorro-quente numa esquina. Ninguém acha estranho o fato de um animal, um caçador, uma velhinha meio cega e uma garota de capa vermelha circularem por aí, porque, afinal, é Nova York! Além dos pequenos problemas cotidianos, como fazer supermercado de maneira a agradar a todos – carnívoros e vegans (Chapeuzinho agora também faz Power Yoga), velhotas com problema de colesterol e caçadores que podem comer por um batalhão inteiro – o mote central da trama são os encontros e desencontros vividos por quatro solteiros de estilos bem diferentes à procura de um namorado/esposa/loba-no-cio/viúvo.
Peça do Zé Celso
O título seria: Queima, Chapéu
No palco, uma garota vestida de vermelho passeia inocentemente pela Floresta – representada por acessórios de cena feitos de metal retorcido e valorizados pela iluminação delirante. Com um grito repentino, ela denota a aproximação do lobo (que a platéia nunca chega a ver), e retira seu capuz num gesto... er... teatral. Em seguida, aparecem várias ninfas nuas que levam Chapeuzinho ao centro da ribalta, onde ela deposita a capa e, entre gritos, convida alguém da platéia (muito possivelmente o cara mais tímido e padrão de todos, talvez um bancário conhecido por Almeida, que está lá acompanhando a namorada cabeça) para ajudá-la na missão de queimar a capa. As ninfas também participam do movimento e queimam inclusive o terno do Almeida. Seguem-se duas horas e meia de aparente caos e danças em torno da fogueira. É o chamado “momento catártico”. Ao fim, Zé Celso aparece portando um cajado e é ovacionado.
Lenda urbana internética
O título seria: Cuidado! Nova Modalidade de Assalto
O e-mail daria conta de uma perigosa forma de assaltar os cidadãos de bem, que fecham rapidamente as janelas de seus carros blindados quando vêem uma criança se aproximar com uma caixa de drops. O esquema é o seguinte: um lobo se aproxima do vidro do carro fazendo malabarismos quando você para no farol. Enternecido por aquela visão – afinal, crianças tem aos montes, mas um animal selvagem é inédito – você abre o vidro e estende a mão para dar uns trocados. Nessa hora, uma maléfica Avó agarra seu braço e diz que vai contar todos os detalhes da operação de tireóide à qual foi submetida se você não passar toda a grana da carteira. Ao longe, sua netinha, uma doce garota de capinha vermelha, garante que o esquema seja finalizado: ela porta uma escopeta com a mira justo em sua cabeça. E, caso o motorista ainda consiga escapar, o Caçador esguicha silicone em seu pára-brisa no farol seguinte.
Clipe de boy band
O título seria: I Want You Back, Hood
A câmera capta um avião em pleno vôo contra um céu de brigadeiro. Corte rápido para cada um dos membros da banda, em câmera lenta. O Lobo aparece fazendo cara de mau. Chapeuzinho tem a capinha elegantemente esvoaçada por uma lufada de vento. O Caçador aponta para o peito com a mão fechada, dramaticamente. E a Avó dá uma piscadinha marota para a câmera. Depois, vemos Chapéu andando pela Floresta e cantando. O Lobo, após espiá-la por detrás de uma moita, vira para a câmera e canta. Na casa da Avó, a velhinha toca seus afazeres domésticos cantando. Numa cabana no outro lado da Floresta, o Caçador canta enquanto afia seu facão. Corta. Todos aparecem juntos no aeroporto. Eles desembarcam do avião em câmera lenta, enquanto entoam o refrão. Corta. Mais uma vez, cada um aparece separado cantando e fazendo caras e bocas (aparentemente em frente a um ventilador) em câmera lenta. Fade out.
M. Night Shyamalan
O título seria: O Sexto Sinal
Um Lobo encontra uma garotinha na Floresta e passa a persegui-la. A menina, apavorada, faz tudo que é possível para despistar o perseguidor. Muda sua rota todos os dias. Começa a sair em horários diferentes. Chega mesmo a adotar uma capinha amarela, em vez da tradicional vermelha – o que não adianta muito, porque o Lobo é daltônico. O clima de tensão cresce. Preocupada em livrar-se do ameaçador animal, Chapeuzinho nunca consegue chegar à casa da Avó: todos os dias os docinhos voltam para sua casa dentro da cestinha (provavelmente amanhecidos e duros feito uma pedra). Mas a menininha insiste. Até que, depois de uma crescente tensão nesse velado jogo de pega-pega, o Lobo finalmente a encurrala. E então a verdade é revelada: os dois já estão mortos faz tempo, dentro da barriga da Avó, que comeu a dupla achando tratarem-se de dois atraentes marzipãs em tamanho natural. E o pior é que, assistindo de novo, tudo faz sentido.

Shyamalan já abriu os testes.
Quem se habilita?