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O ciclo maior Talvez seja culpa da Terra, essa coisa tão redonda. Inspirados nela, os fatos da vida tendem a girar, girar e terminar sempre em um ponto bem semelhante ao começo de tudo. Há sim a evolução da espécie, o aprendizado, o ganho de mais sabedoria. Mas, afinal de contas, parece que a vida é mesmo um grande ciclo natural. Assim como as plantas nascem, crescem, reproduzem-se e morrem, os humanos têm uma tendência a iniciar e finalizar a existência de um jeitinho bem igual. Ninguém me tira da cabeça que bebês e velhinhos são farinha do mesmo saco. Tudo leva a crer que os primeiros anos e os últimos têm uma paridade curiosíssima. A comida, por exemplo: quando criancinhas, só nos dão de comer aquela papa mole de legumes. Com sorte, vem misturada a um arrozinho xoxo ou a um caldo de feijão meio destemperado. Então crescemos, nos lançamos nos doces, nos churrascos, nas pizzas de calabresa e nas batidas de morango... para mais tarde e idade avançar e voltarmos ao legume cozido no vapor. Com sorte, vem junto um arrozinho xoxo ou um feijão meio destemperado. A situação propaga-se para o sono. Nenéns dormem uma base de 18 horas por dia. Onde você aninha o pacotinho cheiro de dobras, ele ressona. Basta embalar no colo ou fazer um carinho, a criança vai para o mundo do sonho sem reclamar. E os idosos? O mesmo. Dormem antes do Jornal Nacional e acordam apenas para ver a Santa Missa em Seu Lar. Onde você aninha o pacotinho cheio de rugas, ele ressona. Basta um sofá confortável, uma xícara de leite com café morno e 10 minutos de novela das seis. Não é muito fácil lidar com o início e o começo do ciclo. Às vezes os bebês demoram a sair das fraldas. Às vezes os velhinhos se recusam a entrar nas fraldas. É duro convencer os dois lados de que eles precisam de cuidados especiais. Babás não são muito bem aceitas a principio. A mãe do bebê sai para trabalhar, é a abnegada mocinha quem precisa entreter com bonecas, alimentar com chá e amor, aturar a choradeira. Ou é a filha do velhinho quem precisa ir para a lida. E é a mesma mocinha quem precisa entreter com baralho, alimentar com chá e amor, aturar as reclamações. E tanto os pequenos quanto os grandes fazem dessa criatura bondosa uma melhor amiga, um ente querido, um membro da família. Para ser gentil com os de 5 anos é fácil: basta dar atenção. Para ser gentil com os de 85 anos, é fácil: basta dar atenção. Ambos gostam é de quem pergunta sobre sua rotina – se foi legal hoje no tanque da areia da escola ou se era legal ontem no curso de normalista. O que o bebê quer, a vovó também quer: interesse genuíno e um pouco de condescendência. Porque, se você não fizer o que eles querem, vai ter volta! O petiz faz drama e emburra no canto. O velhote faz muito mais drama e emburra ainda mais no canto. Chiliques temos todos ao longo da vida. Mas no comecinho e no finzinho dela, os ataques de birra são incrivelmente teatrais. Minha filha Sabrina não ganha o gibi, faz beiço, bate o pé e me deixa sentindo culpada. Minha vó Ondina não ganhava sua revista, fazia beiço, batia o pé e deixava minha mãe se sentindo culpada. Táticas semelhantes com oito décadas de diferença. O efeito dos dois grupos também é muito parecido. Ao ver um garotinho de camisa, bermuda e sapato, não há quem engula o “óóóó, olha que graça!”. Ao ver um senhorzinho de camisa, suspensórios, boné e gravata borboleta, fica igualmente impossível conter o “óóóó, olha que graça!”. Já quem detesta crianças e velhos tem a mesma reação: vira a cara e troca de calçada. Não entendo essa turma que ignora, maltrata ou explora os habitantes do começo e do fim. Hoje eles estão na intermediária, mas se esquecem já ter passado pelo início de tudo? E que a outra extremidade do tudo também chegará um dia? Garanto, para esses, que é só dar uma chance para se apaixonar terrivelmente. É alegria pura ver a boca semi-banguela de um infante oferecendo brinquedos da mesma forma que é alegria pura ver a boca semi-banguela de um idoso oferecendo suas histórias. No ciclo da vida, o meio serve apenas para justificar essas suas pontas tão distintas. E tão iguais.
Qualquer semelhança não é mera coincidência
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