O velho ditado romano que dá nome a este texto não podia ser mais acertado: “no vinho está a verdade”. Muita gente só revela mesmo sua face original depois de um belo porre. Existe, porém, o bêbado clássico. É aquele que desfila com conhecimento de causa por toda a plataforma da bebedeira – e que está pouco se lixando pra verdade, vedade, berdade... “garção, desce duas budistserdade aí”. Conhece o sujeito? Claro que sim.
Pode-se chamá-lo de pinguço, pau d’água, pé de cana, pudim de cachaça. E pode chamar mesmo, pois o bebum tradicional nem liga, visto que ele está travado demais para protestar. Se bem que protesta por outros motivos. Bêbado, uma vez no auge da manguaça, acha que o garçom cobrou a mais, acha que o moço da mesa ao lado mexeu com sua garota, acha que a Seleção é um lixo, acha que o pai não o ama, acha que perdeu o celular... E diz tudo isso na lata. Na lata de Skol.
Não há de ser difícil reconhecer o moribundo alcoólico. Não fosse o fedor de água que passarinho dispensa tomando toda sua pessoa, ele ainda usa as mesmíssimas frases cunhadas por muitos cachaceiros antes dele. Ouvido atento para o projeto de bêbado que divide mesa contigo.
“Aê, campeão, desde mais uma!”
A intimidade com o garçom já demonstra as intenções do cidadão. Ele começa chamando o moço de “grande”, “amigo”, “chefe” e “camarada”, e logo está segurando o pobre operário do setor de bebidas e lhe dando tapinhas nas costas. Tudo é apenas uma falsa tentativa de ficar chapa do homem e com isso ganhar uns goles gratuitos. Bebuns são ardilosos.
“Acho que o meu copo tá furado, cara”
Daí ele começa a fazer gracinha. Todo manguaceiro tem essa mania de querer virar comediante. Se o copo esvaziou de uma talagada, lá vai o tal brincar com os demais dizendo que o duende roubou seu goró – ou a velha tática do vasilhame furado. O resto da turma ri amarelo e passa a imaginar que a próxima caneca de chopp, a oitava, terá mais um buraco no entender da “esponja-humana”.
“Te considero demais, cara... cê é um irmão meu”
Pronto, o nível de álcool começa a ficar intolerável. Intolerável para os demais! A sensibilidade aflora nesse momento e o chapado em questão se torna meigo e choroso. Tudo o emociona, das lembranças de infância ao gol do Madureira mostrado na TV do bar. Então ele abraça os colegas, aperta-lhes pescoços e braços, e diz frases de efeito amoroso. Perdoe o trocadilho, mas bêbado é um porre.
“Marião... saideeeira, Marião!”
O paciente Mario Sérgio tem mulher e filhos em casa e pensou que aquela happy hour seria apenas uma cervejinha rápida de sexta-feira. Pois acabou sendo tragado pela fúria beberrona do parceiro de copo e permanece há seis horas com o traseiro na cadeira do boteco. A cada tentativa de picar a mula, o outro pede “a saideira”. Aprenda mais essa: o limite dos bebuns só surge com o raiar do sol.
“Eu vô lá!”
O álcool tem um efeito colateral bastante infeliz: a ira. Passada a fase dengosa em que o pau d’água declara amor até ao Osama, ele se torna meio nervosinho. Conta histórias (mentirosas) sobre quando deu porrada em um jogador de rúgbi, peita os próprios amigos, tem alucinações sobre as pessoas ao redor terem rido dele. E qualquer faísca gera uma combustão de valentia que o faz arrumar encrenca com seguranças e transeuntes. É o famoso “homem-molotov”.
“Eu tô bão, eu tô bão”
E como convencer aquela entidade cambaleante que ele está fora de si? Trança pés, não mantém a cabeça ereta e, ao visitar o banheiro, percorre o bar como aquelas pessoas que estão aprendendo a andar de patins de gelo. Apoiando-se em cadeiras, balcões, pilastras e ombros de outros clientes, ele serpenteia pelo estabelecimento feito um zumbi. Isso não é nada “bão”...
“Carro meu, só eu dirijo”
Ai, meus sais... É sempre a mesma ladainha. Gente ébria se torna especialmente ligada com seus automóveis. À menor sugestão de entregar o volante a outrem, vira bicho. Não aceita ser passageiro em seu próprio domínio. Aí é preciso que um amigo de longa data dê-lhe um esporro em volume alto, mande o desgraçado entrar naquela porcaria de carro, bata a porta, assuma a direção e indique a janela mais próxima. Afinal, todos sabemos o que virá depois do porre e como isso pode infectar um estofamento.
“Cara, acho que comi algo que fez mal ontem”
Vai ver foi a azeitona do martini. Ou o salsão do bloody mary. Ou aquelas doze tequilas, os oito rabos de galo, as seis cervejas e a garrafa de uísque nacional sem marca. Será que os romanos tiveram um dia de ressaca muito ruim ao inventar aquele ditado? Então Brutus olhou para César e disse “cara, desculpa se eu ontem eu passei a mão na sua mina, ateei fogo no seu cachorro e depois disse que ia te matar, falô? Tava muito forte aquele vino”. Ao que o outro, ainda com uma tremenda dor de cabeça, apenas respondeu “é veritas...”.
Não é um clássico?