terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

American cuma?!

O estranho bonequinho aparece. Sobe, em meio aos aplausos da multidão, por uma espécie de elevador. Lá em cima, já aclamado pelo povo, anda por uma passarela e abre os braços no palco. Atrás dele, um logo que me lembra por demais o da montadora de automóveis aqui perto de casa. Só que, em vez do sobrenome do cara que inventou a linha de montagem, está escrito “American Idol”. Pronto. É a minha senha para algumas horas de emoções tão variadas quanto cardápio de restaurante por quilo.

Eu capitulei ao “American Idol”. O programa, que está em sua quinta temporada na televisão por assinatura, consiste basicamente num grande caça-talentos. Ou numa fábrica de popstars. Ou num reality-show capaz de me fazer rir, me emocionar e me constranger – tudo em menos de cinco minutos. That’s entertainment!

E quer saber? Acho que nem os criadores do programa acreditavam muito na bagaça. Senão, teriam contratado uma trinca de jurados melhor do que Paula Abdul (sim, a moça do “Rush Rush” teve uma segunda chance na vida. Milagres acontecem), Randy Jackson (quem?) e Simon Cowell (cuma?). Eu sei que, se der um Google no par de ilustres desconhecidos, devo achar algo. Mas se eu der um Google no MEU nome acho algo, e nem por isso sou qualificada.

Ao fim e ao cabo, os aspirantes a estrelas passam pelo crivo de uma mulher que não segurou o sucesso por mais de duas ou três canções (e cantava “Rush Rush”, por Deus), um produtor que banca o simpático e um britânico com sotaque delicioso e língua afiada. Se bem que Simon salva o programa com seu estilo Pedro de Lara de avaliar os coitados. Frases do tipo “você soa como um saco com nove gatinhos mergulhado em água fervente” saem da boca dele com a maior naturalidade.

Assim sendo, “American Idol” pode não ser muito confiável como um termômetro de talentos. Mas rende algumas horas de diversão. Ou daquele sentimento de vergonha alheia, quando a gente cora pelos outros. Especialmente na primeira fase, quando qualquer infiel pode ir lá cantar na frente da banca. É nessa parte que mais me contorço. Isso porque as figuras que aparecem fariam jus a uma eventual aquisição, pelo programa, da popular alcunha do transporte público “cata-louco”.

Gente que não tem o menor talento para cantar dá a cara a tapa. Gente que nunca cantou na frente da mãe resolve apostar num futuro apresentando-se diante de multidões. Gente que trava na presença dos três, mas talvez pudesse fazer melhor, acaba se dando mal. Gente que esquece a música no meio emudece, deixando pairar um silêncio terrível. Gente que acha uma boa ir vestido de Estátua da Liberdade é massacrada por Simon. E, eventualmente, gente que canta bem e tem postura de palco aparece. Mas esses, embora sejam um alívio para os ouvidos, não têm tanta graça. Já os outros, embora hilários, dão também um pouco de dó.

Eu fico imaginando quem disse a essas pessoas que elas podiam cantar. Que era uma boa fazer isso em rede nacional (e, via cabo e satélite, para dezenas de outros países). Que eles tinham alguma chance. Tomemos como exemplo William Hung, um clássico do “American Idol”. Nerd até os ossos, o rapaz apareceu para o teste usando camisa social florida por dentro da calça, levantada até o peito. Disse que ia cantar Ricky Martin, “She Bangs”. E o que veio depois virou história.

É difícil descrever aquilo. Melhor clicar aqui para ver com seus próprios olhos, já que faltam as palavras. Carente de ritmo, melodia, afinação e coordenação motora para dança, a performance foi tão hilária que virou quadro do “Saturday Night Live” – onde Hung foi vivido por Jimmy Fallon. Eu, particularmente, adoro a parte em que ele levanta as mãozinhas e canta (?) “she bangs, she bangs”.

Sério: quem disse a William que ele podia cantar? E, acima de tudo, apesar de ter ficado definitivamente provado que não podia, como ele fez sucesso? Charme pessoal. Auto-confiança. Atitude. Ou apenas absoluta falta de noção (resta descobrir se dele ou do público). Enquanto isso, continuo achando “American Idol” – além de divertido, constrangedor e meio marmeloso – um grande mistério.

americanidiot.jpg
Alguém me explica tudo isso?


Clara McFly às 10:45 AM

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No passado
Brinquedos, escola, casa
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Verso, vinil, vitrola, voz
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Na TV
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