sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Quando a Escola Mundial...

... dominava a Terra

Muita coisa marcou os malfadados anos Collor: o confisco da poupança, o espaço entre os dentes da Zélia, as extravagâncias da provinciana Rosane. Enquanto isso, na televisão, acontecia um fenômeno mais incrível do que um candidato porcamente produzido ganhar a eleição: uma novela porcamente produzida ganhava audiência – e muita – atendendo pelo despretensioso título de “Carrossel”.

Não sei você, caro leitor, mas eu adorava “Carrossel”. De Roberto Marinho já não se pode dizer o mesmo. A Globo se viu obrigada a esticar o Jornal Nacional em 20 minutos para fazer frente à turma da Professora Helena. Era a primeira vez em que a emissora, que sempre primou pela qualidade (técnica, ao menos) de seus programas, foi posta perigosamente na berlinda por um azarão. E que azarão.

É difícil explicar como uma atração tão tosca bateu “O Dono do Mundo”, superprodução folhetinesca global assinada por Gilberto Braga e estrelada por Antonio Fagundes. Ei, peraí... Não é tão difícil, não. Na verdade, às vezes o melhor a se fazer é optar pelo simples. E “Carrossel” apostava nisso. Além, é claro, de enfiar um monte de crianças no elenco. Quem resiste a criancinhas com problemas, ainda mais mal-dubladas?

“Carrossel” se passava na Escola Mundial, generosamente mantida por um ricaço. Vai ver por isso o colégio abrigava petizes das mais diferentes camadas sociais – todos orquestrados pela diáfana Professora Helena, que em visita ao Brasil até desceu a rampa do Planalto com Fernando Collor. Isso dá uma idéia da dimensão que a noveleta alcançou por aqui, mas o barato mesmo eram os personagens.

Jaime Palilo, por exemplo, era um garoto “fortinho”, filho de um mecânico. Grandão, fazia o estereótipo do gigante bondoso. Também se achava um pouco burro e sempre batia na cabeça quando não conseguia fazer uma tarefa (ou seja, quase sempre). Mas se redimiu ao fundar a Patrulha Salvadora, uma equipe de alunos pronta para qualquer resgate, cujo mascote era um cão com o curioso nome de Rabito.

Laura encarnava o papel da gordinha romântica e meio boba. Na abertura, que mostrava a chamada dos alunos feita pela Professora Helena, ela se sentava numa tachinha colocada na cadeira por um colega engraçadinho. Era tão boa atriz que, meia hora depois de sentar-se, soltava um “au!”. Era demais.

(Ainda na abertura, a Professora Helena terminava a chamada e a imagem congelava com a mestra de boca meio aberta. Então, em off, a voz dela dizia “toda a classe, zero em comportamento”. Era meio estranho vê-la falando com a boca parada.)

A classe ainda contava com outro punhado de tipos, como Kokimoto – que, para cumprir fielmente o estereótipo oriental, usava uma faixa de caratê na cabeça o tempo todo. Firmino, o porteiro, era um velhote simpático e cúmplice da Professora Helena quando esta se indispunha com a rígida diretora Olívia. No meio da trama, o ator que fazia o personagem foi substituído por outro sem como nem porquê. Era genial, essa novela...

Mas nada que “Carrossel” fez questão de imprimir em nossa cachola se compara à dupla Cirilo e Maria Joaquina. Ele era um menino negro e pobre, mas com muito orgulho da profissão do pai, que era carpinteiro (“a mesma profissão do pai de Jesus!”, repetia o moleque incessantemente). Ela era podre de rica, filha de um médico que não aprovava sua personalidade, digna de irmã malvada de Cinderela.

É claro que Cirilo se apaixonava por Maria Joaquina. E é claro que ela desprezava cada tentativa de aproximação do incauto. E não bastasse a distância social dos dois, a loiríssima garota ainda era racista. Chegava a ser engraçado, de tão descarado era o teor dos diálogos entre os dois:

Cirilo (com aquela voz meio anasalada e ingênua, tão ingênua que dá raiva): “Maria Joaquina, quer se casar comigo?”
Maria Joaquina (com tom ardidinho e entojado, como convém às meninas riquinhas): “Claro que não, Cirilo! Você é pobre e, ainda por cima, é preto!”
Cirilo (ainda com aquela voz meio anasalada e ingênua, tão ingênua que dá raiva, e agora acrescida de uma certa subserviência mais irritante ainda): “Eu só quis dizer...”

Ninguém pode ser tão coitado assim! Ah, se eu fosse roteirista de “Carrossel”... Buscava inspiração em “Macunaíma” (onde o herói, ao refletir sobre a injustiça dos homens, testemunha um chupim que roubava toda a comida de um ticotiquinho e resolve o problema de uma maneira bem peculiar) e dava logo uma paulada na cabeça do Cirilo. Se ele não morresse, ao menos podia adquirir alguma auto-estima.

CiriloSoQuisDizer.jpg
Ele é legal, mas vacila


Clara McFly às 11:08 AM

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No passado
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Na TV
Bombril na ponta da antena
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