segunda-feira, 15 de agosto de 2005

Operação limpeza

Nunca imaginei que, um dia, fosse me postar em frente dos colegas para prestar esse tipo de esclarecimento. Claro que não adianta dizer, mas reafirmo: não tenho nada com isso, o desvio de valores foi feito à minha total revelia. Nosso grupo está em completo descrédito após esse escândalo terrível. Vossas Excelências podem estar certos de que não durmo há dias, perdi a fome, já nem brinco com a minha filha... (*Chuinf, chuinf*). Tudo por causa das minhas sócias, que não souberam controlar seus impulsos. Não estou aqui para julgá-las, mas apenas para ajudar essa comissão de inquérito e limpar a imagem do GQDN (Garotas que Dizem Ni, nosso partidão).

Estou prestando depoimento por vontade própria, é bom que fique claro. Os jornais e revistas ficam dizendo o que bem entendem sem apurar fatos, mas a verdade é que eu não tive nada a ver com o desvio de Post-its. Nada, nobres colegas, nada! Nossa tesoureira, a senhora Clarissa Adriana, arquitetou essa situação toda. Caixa 2 de jujubas, captação de gibis junto aos amigos, pagamentos de lanche no McDonald’s sem nota fiscal... Não concordei com nada disso.

E se hoje venho aqui com Habeas Corpus requisitado junto às instâncias superiores, podem estar certos de que é apenas para minha proteção e dos meus familiares. Eu falo “a minha verdade”, oras. Sei que não tenho provas de nada, não estava presente na data do ocorrido, não vi ninguém entregar encomenda alguma, sou meio surda de um ouvido e às vezes vejo girafas roxas tocando flauta, mas... eu sou sim uma pessoa confiável! Tenho certeza sobre a existência do Pacotão.

Desde que era menininha, lá nos rincões do agreste de Beverly Hills, nunca presenciei tanta lama. Datavênha, nobres colegas, datavênha. (Tudo bem, não sei o que significa essa “datavênha” aí, mas acho bonito dizer pra dar mais credibilidade ao discurso). Clarissa Adriana recebeu sim Post-its das contas do senhor Márcio Aurélio. E tudo me leva a crer que Viviana Agostinho sabia de tudo sim. Eu estava no apartamento em que elas combinaram os pagamentos: a quantia era de 12 parcelas de 10 milhões de bloquinhos nas cores verde-limão e rosa-Barbie. Essa foi a primeira vez em que “vi falar” do Pacotão.

Isso tudo é tão triste, puxa... (*Chuinf, chuinf*). Damos a vida para defender este país e proporcionar ao povo brasileiro uma vida melhor, mais dignidade, um suprimento justo de comida e Post-its para anotação de recados... Desde que lutei na guerrilha do Araguaia e passei fome, sede, sono, vontade de fazer xixi e a privação de não ter sequer um gole de uísque 18 anos pra beber, nunca me senti tão arrasada.

Se os senhores quiserem, eu abro meu sigilo bancário agora! Agora agorinha nesse segundo! Sou garota correta e não quero meu nome misturado ao dessas duas moças que macularam a imagem de um grupo lutador como o GQDN. É um absurdo envolver camaradas inocentes nessa barbárie hedionda, burlesca e torpe mesclada com um ignóbil conceito de cidadania. O que quer que isso queira dizer.

Mas ora, é claro, eu também queria ganhar o iBest – e fazer uma campanha vultuosa nos rendeu ótimos frutos mesmo! Mas nunca desconfiei, juro, que todos os milhões usados ali vinham das Bahamas. Clarissa Adriana e Agostinho contrataram aquele marqueteiro de renome, porém me juraram que ele trabalhava por amor aos nossos textos e recebia em amendoins! Quando eu poderia imaginar que ele, além de alucinado por rinha de pulgas, era ainda um salafrário que abriu conta no Caribe para amealhar fundos?

E agora vem dizer que não sabia de nada... Odeio essa gente mentirosa que fica chorando de jeito fingido só para ganhar simpatia popular... (*Chuinf, chuinf*). Minhas lágrimas são reais. Eu nunca recebi Pacotão e vivo mui modestamente com minha família comprando nossos próprios Post-its com muita dificuldade.

Agora meus entes queridos não podem mais sair na rua sem cobrir o rosto com vergonha. Mas tenho fé que a verdade aparecerá. Nunca a opinião pública saberá, porém, de onde vieram tantos Post-its e quantas pessoas foram beneficiadas neste esquema. Só espero não ir parar no xilindró. Tem muito bandido lá.

Este texto é uma obra de ficção – nomes e cenas foram inventadas, mas qualquer semelhança com a realidade política do Brasil não é mera coincidência. Só espero que aquilo tudo que vemos hoje divulgado na TV e nos jornais não passe incólume. Porque Clarissa não repassou mesmo uns Post-its que ganhamos e isso acabou virando piada entre Garotas. Mas brincar com dinheiro público, com influência e serviços à nação, isso não tem a mínima graça.

Fla Wonka às 10:44 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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