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567 dias de papel – Parte 1 ”You've been reading some old letters. “This Is the Day”, clássico de uma era assinado pela banda estranhamente denominada The The, é uma das minhas canções favoritas de todos os tempos. Como se não bastasse, ainda conta com o verso que serve feito luva para um velho hábito que guardo: o de reler diários antigos. Entreguei-me à aventura em tempo na última sexta-feira – e a jornada rendeu. Tenho uma memória muito boa, mas às vezes me esqueço de quem sou. Podem rir. Parece bizarro, eu sei, mas é verdade. Para isso, guardo coisas que me ajudem a lembrar. A velha caixa de madeira, pintada por mim mesma (meio toscamente) e recheada de agendas e diários antigos, é um de meus tesouros. Todo mundo aí fora deve ter os seus. Mas nada de ficar relembrando dias que já foram com aquela nostalgia burra, que termina em si mesma. Gosto de reler minha vida por duas razões básicas: primeiro, perceber que há uma essência que permanece aqui – e, ao mesmo tempo, ver como amadureci e aprendi a lidar melhor com ela. Só que essa razão, claro, não tem a menor graça para você, caro leitor. Então, vamos logo à segunda, antes que isso aqui vire consultório de psicanalista. Bacana mesmo é o seguinte: rir do passado, seus monstros e problemões que hoje viraram piada. É essa parte que quero compartilhar com você. Em primeiro lugar, a capa de meu diário mais antigo – que cobre o período de 4 de janeiro de 1990 a 6 de dezembro de 1991, dos 11 aos 13 anos – é composta por uma bela miscelânea de recortes que eu mesma fiz. Se as figuras são um reflexo do que eu achava interessante à época, prepare-se: tem a Madonna, o Indiana Jones, o Bart Simpson e... o Humberto Gessinger! Numa foto grande, ainda por cima. O tempo nos prega peças. O terceiro diário – que vai de 9 de dezembro de 1993 a 29 de junho de 1995, 567 dias de papel enquanto eu contabilizava de 15 a 17 verões – é o mais divertido. Ou, pelo menos, o único que reli de cabo a rabo até agora. Foquemo-nos nele. Na madrugada de 25 para 26 de julho de 94, por exemplo, cravei o seguinte: “É muito solitário estar aqui na sala da casa do meu pai, à uma da manhã, escrevendo. Na verdade, há mais ou menos uma hora atrás (sic) eu estava dormindo bem e sonhando com meu amigo Marcelo (no sonho ele não dava o furo que ele deu)...” É claro que não tenho idéia de que furo estou falando. Bom, pelo menos nesse trecho eu sei quem é o Marcelo. Sigamos. “... até que a Tati e a Rê chegaram gritando e caindo por cima de não-sei-quê... e rindo. Despertei e elas continuaram cantando e conversando e eu bem quietinha, acordada, vendo se dava para dormir de novo, que eu precisava (já já conto por quê).” É claro que acabei não contando. Nem tenho idéia do porquê. “Muito engraçado, eu me mexia um pouco e elas diminuíam o volume das cacarecajens (meu Deus, de onde isso surgiu?!), falavam ‘a Clá, a Clá, baixa o volume aí!’. Aí eu parava e elas voltavam aos 2.350 decibéis normais.” Continuo sem saber de onde tirei “cacarecajens”. Ainda mais com jota. Já em 9 de setembro de 1994, registrei o seguinte: “Estou ouvindo jazz enquanto escrevo. Antes, eu estava ouvindo jazz e fazendo CARETAS – o que é muito divertido.” Comecei bem, mas joguei qualquer chance de querer ser fina na lata do lixo. Depois, terminei a escrita do dia com esse incrível resumo: “No mais... fui no Golden com a Rê (1o dia de trabalho!) e comprei um jeans saint-tropez; encontrei a Tereza lá; não fui ver o Já (pasmem!); Alê brigou com o Su; girls ganharam nos Jogos hoje, boys lost; peguei uma merda de ônibus lotado de delinqüas e cheguei à conclusão de que PENSO DEMAIS E ACABO ENROLADA. Boa noite!” Vamos às explicações possíveis: o Golden é um shopping de São Bernardo; o Já é o Jarbas (minha paixão platônica adolescente que trabalhava no shopping); tenho uma vaga idéia de quem sejam Alê e Su, mas não dá para confirmar. A única lembrança que guardo claramente é do ônibus cheio de garotos que tumultuaram o percurso e detonaram os bancos. Tive medo. No dia 30 de setembro do mesmo ano, vem o melhor: “O Jarbas pegou na minha mão e no meu pescoço. Que conquista!” Bom, ao menos eu já tinha um pouquinho de auto-crítica. A seqüência aparece escrita e ligada à frase anterior por uma seta: “Parece aquelas menininhas de 13 anos... Ou melhor, acho que até as menininhas de 13 ‘tão tão avançadas que nem pensam mais nisso.” O ano seguiu. Em 19 de outubro, há um PS depois dos acontecimentos e considerações do dia: “Comprei um maço de Hollywood Lights”. Foi minha primeira aquisição em termos de... tabaco. Muitas outras viriam – e continuam vindo até hoje. Assim como as histórias.
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