|
||||||||||
|
||||||||||
Invenção de brincadeira Então a cena apareceu na tela da nossa Telefunken e eu paralisei: encontrei, naquele dia de 1989, a profissão dos sonhos. O filme em questão era a febre do momento e se chamava “Quero Ser Grande”. Tom Hanks, um rapaz que ainda não tinha ganhado sequer Oscar de chocolate, encarnava o menino que pediu para ter 30 anos – e, num passe de mágica, acordou crescido e com alma de infante. A tal cena mostrava Tom se esbaldando em uma sala com os mais diversos brinquedos. Era isso o que o menino-adulto fazia, testava brinquedos. Era o que eu queria também. Sempre fui doidivanas por esses artigos lúdicos. Desde os bloquinhos do Pequeno Engenheiro, passando pelas bonecas que falavam “mamãe!” até os carrinhos controlados por um motorista remoto, tudo me chamava atenção. Continua chamando, aliás. Crianças adoram e detestam me convidar para brincar – porque sabem que inventaremos muitas artes legais mas, em compensação, elas não poderão tocar em nada até minha empolgação acabar. Ter me tornado test-driver de brinquedos, portanto, seria a glória. Não foi nesta vida, infelizmente. E duvido que alguém da Grow ou da Estrela ligará aqui em casa nos próximos anos. Pena. De tanta admiração pela classe, porém, passo os dias matutando sobre o assunto. Imagino que, para desenvolver brinquedos, o sujeito precise de muita imaginação e muita pesquisa. Ah, e se despir de todos os preconceitos, claro. Ou nunca teríamos vivido para conhecer o Neb, aquele alien que, aberto, apresentava um corpo repleto de vísceras e gosma verde. Fez sucesso, essa nojeira. Natural, pois crianças adoram meleca. Coisas viscosas mas gostosas, é com elas mesmo. Por isso a Geleca ganhou tanto mercado: era nada mais do que uma massaroca colorida e fedegosa presa em um recipiente. Mas tinha coisa melhor do que espirrar de mentira e fingir que ela estava saindo pelo nariz? Sujeito ímpar, o inventor da Geleca. Humor discutível é outra característica que um criador de brinquedos precisa ter, eu suponho. Sem essa virtude, não teriam feito nascer o Pula-Pirata, por exemplo. Imagino como o cidadão pensou na coisa toda... “Podíamos colocar um pirata anãozinho em um barril e fazê-lo pular, seria engraçado! Sim, sim! Melhor ainda: para ele pular, enfiamos espadinhas no barril, como se elas estivesse a perfurar o corpo diminuto do corsário! Há! Hilário! Eu sou mesmo um gênio”. E era genial (ainda que maligno), porque está sendo vendido há pelo menos 30 anos. Tal qual o Detetive. O camarada inventor do jogo de tabuleiro é, para mim, um investigador frustrado. Ou um serial-killer que, felizmente, freqüentou bastante o analista. Daí, em vez de atacar pessoas com um candelabro, criou um folguedo. Ou deve ter havido todo um método para inventar personalidades pungentes como as da Srta. Rosa e do Coronel Mostarda. E também para pensar em cenários e armas. Professor Black com a corda na cozinha foi fácil. Mas quando chegou na parte da Dona Violeta, com a chave-inglesa na Sala de Música... Esse homem era assustador. Corda e revólver vá lá, mas chave-inglesa é requinte de crueldade. Seria a patricinha Suzane Von Richthofen a criadora do Detetive? Humor negro por humor negro, sou mais fã é do inventor do Torremoto. Lançado no mercado de brinquedos nos anos 80, tratava-se de um punhado de toquinhos de madeira que deviam ser empilhados de maneira firme. Então os competidores sagazes precisavam tirar peça por peça sem deixar a torre desabar – o que fatalmente acontecia. Em paragens como Tóquio ou Los Angeles, imagino, ninguém acha muita graça em simular terremotos. Já que o criador foi assim tão ousado a ponto de parodiar um desastre, por que não lança agora uma versão “Torremoto World Trade Center”? Com bombeirinhos de plástico inclusos, quem sabe... Desculpem, já entendi. Talvez eu não seja mesmo uma boa inventora de brinquedos. A não ser que, para criar os desenvolver os tais nem haja necessidade de tanto humor, pesquisa ou criatividade. Se for preciso apenas ser um grande crianção, como o Tom Hanks em “Quero Ser Grande”, eu ainda estou na disputa pela vaga. Fla Wonka às 09:33 AM |
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||