quarta-feira, 27 de julho de 2005

A verdade está lá dentro

Teorias conspiratórias, casos paranormais e detalhes de visitas alienígenas ao nosso planeta. Três temas que conseguem prender a minha atenção como poucos. Contudo, por algum motivo estranho, passei incólume pela febre “Arquivo-X” – seriado de mistério que virou um dos maiores símbolos dos anos 90. Talvez tenha sido a falta de TV por assinatura na época; talvez a culpa era da dublagem tosca dos episódios na Record; talvez eu estivesse mais interessada em “Barrados no Baile”; talvez o governo dos Estados Unidos, a CIA e os ETs não queriam que eu assistisse e...

O fato é que, com mais de uma década de atraso, resolvi checar de perto qual era o lance com os agentes Fox Mulder e Dana Scully para angariar tantos seguidores fiéis até hoje. Peguei emprestado do meu pai, um trekker de carteirinha (mesmo) e o responsável por introduzir o maravilhoso mundo da ficção científica à filhota aqui, os DVDs da primeira e segunda temporadas. Resultado? Preciso comprar um pôster com os dizeres “I Want To Believe”, arranjar uma carteira de agente do FBI e grudar um “X” de fita-crepe na janela da sala.

Sim, estou viciada. Os primeiros 24 episódios, incluindo o elucidativo piloto, já foram devidamente devorados em tempo recorde. Agora falta pouco para terminar a segunda leva. Porém, estou segurando o ritmo e tentando não fazer a graça acabar tão logo. Enquanto isso, planejo uma visita à locadora com o objetivo de alugar a terceira temporada. Isso porque “Arquivo-X” não é apenas um seriado com um cara crente e uma mulher cética que tentam desvendar em vão mistérios de homenzinhos verdes. Pô, é muito, muito mais.

Quando coloco um dos discos no aparelho, é hora de me preparar para o que virá. Pode ser uma seita adoradora das forças do mal matando jovens em uma cidadezinha, ou um assassino sanguinário e contorcionista que se espreme para dentro da casa da vítima, ou um zoológico que sofre com a perda de animais por abdução alienígena. Os temas são tão variados e numerosos quanto os mistérios desse nosso mundo. E, após ouvir o sombrio tema de abertura (um clássico imediato), prendo a respiração que só vai voltar ao normal quando aparecerem os créditos.

Sério, eu pareço minha avó Nena vendo novela. Ela era daquelas telespectadoras que xingavam o vilão, aconselhavam a mocinha, choravam com as tragédias e riam à beça com as situações engraçadas. Televisão, para a vovó, era uma experiência interativa. Pois não é que me peguei várias vezes dando uma de velhota noveleira? Já gritei para a tela “Scully, você é cega?”, “Não entre aí, seu tonto!” e “Mulder, por que você não anda com uma maldita câmera de vídeo?”. Ainda bem que não tenho testemunhas dos meus desvarios. Ou tenho, porque o governo sabe de tudo, né.

Embasando histórias intrincadas e bem construídas está, é claro, a dupla principal. Praticamente tudo já foi falado sobre a médica ruiva e o malucão de gravatas horrorosas e sobre suas diferenças e semelhanças que dão vida aos episódios. O que é legal notar, no entanto, é a química incrível entre os atores David Duchovny e Gillian Anderson e, consequentemente, entre seus papéis. Eu faço parte da turma contra um envolvimento amoroso dos dois. Mas adoro ver o carinho com que Mulder protege a parceira e como ela vai, aos poucos, aliviando sua visão ceticista dos fatos que a ciência ainda não pode explicar.

No meio disso tudo, os roteiristas enfiam personagens incrivelmente densos para uma vida-útil de apenas um episódio. Como, por exemplo, Ed Funsch, um pacato funcionário dos correios que tem fobia a sangue mas, por uma reviravolta misteriosa, é incitado a matar através de mensagens subliminares. É possível construir um perfil psicológico inteiro a partir de poucas cenas.

O criador da série, Chris Carter, também adora colocar detalhes significativos na trama. Como o apartamento de Mulder, que é número 42 – a resposta para todas as questões segundo “O Guia dos Mochileiros da Galáxia”. Outro número que botei reparo foi 11:21, horário que sempre aparece marcado no relógio digital do quarto de Scully. Trata-se do aniversário da mulher de Carter.

Em um ranking da revista “TV Guide” sobre os seriados mais cult de todos os tempos, “Arquivo-X” ficou com a medalha de prata – perdendo apenas para “Jornada nas Estrelas”. Assim como Fox Mulder é cultura pop instantânea, instantâneo também foi o impacto que o seriado teve nos fãs. É bom lembrar que ele floresceu ao mesmo tempo em que a Internet estava avançando e foi a primeira vez que discussões entre telespectadores tiveram tal tecnologia como aliada absoluta.

Tudo bem: eu admito que, chegando nas últimas temporadas, alguma coisa dá errado. Não sei se Carter perdeu a mão, ou se o sucesso subiu às cabeças dos atores, mas dá para sentir uma queda vertiginosa de qualidade e poder de entretenimento. Quando Scully fica grávida de alienígenas e quando Mulder é bruscamente substituído pelo T-1000, a mistura desanda. Apesar disso, vou continuar firme na minha empreitada de completar a série inteira. Porque eu sei que a verdade está lá dentro daqueles capítulos. E eu quero acreditar.


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Ei, não falei que estou viciada?


Vivi Griswold às 10:38 AM

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Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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