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Tinha tudo para dar errado Pense comigo: você está confortavelmente instalado em seu sofá numa tarde preguiçosa, quando escuta a chamada para a Sessão da Tarde ou similar. “Dois músicos muito loucos topam tudo para fugir de um bandido: vestidos de mulher, eles vão viver as mais eletrizantes aventuras em meio a uma banda feminina!” Não espantaria se, na seqüência, o locutor anunciasse a participação de Steve Guttenberg ou qualquer outra figurinha conhecida por estar sempre em filmes duvidosos, hã? O mote de “Quanto Mais Quente Melhor”, clássico de Billy Wilder com soberbas interpretações de Jack Lemmon, Tony Curtis e Marilyn Monroe e roteiro irrepreensível, pode ser resumido nas linhas citadas acima. Ou seja: tinha tudo para dar errado, mas o resultado foi excelente. Talvez graças ao diretor, talvez ao roteirista ou aos atores; sabe-se lá. Mas o fato é que esse misterioso expediente ocorreu mais de uma vez na história do cinema. Quem em sã consciência levantaria a bunda do sofá e pagaria 13 pilas por cabeça (fora o estacionamento) para ver algo resumido como “um embate entre o Bem e o Mal no qual tomam parte uma princesa rebelde, um guerreiro de roupão, um mercenário e seu inseparável amigo peludo, cuja linguagem resume-se a grunhidos”? Parece um baita samba-do-nerd-doido, mas a descrição acima não deixa de ser uma maneira de explicar, em linhas gerais, a saga de “Star Wars”. Claro que não é só isso, mas todos os elementos citados estão lá. Obviamente, George Lucas preferiu não divulgar sua obra dessa maneira. E o público deixou 780 milhões de verdinhas nos caixas dos cinemas. Foi uma loucura. Diz que tinha gente saindo da sessão e entrando na fila para a próxima. Por que o simpático criador do universo de “Guerra nas Estrelas”, que anda cada vez mais parecido com um ewok, conseguiu decolar um filme que todos apostavam ser um pepino? Vai saber... Nos dois casos acima, ao menos fomos premiados com películas bacanas. Mas não é só um argumento estranho que pode comprometer produções – embora elas também acabem, surpreendentemente, saindo-se melhor que a encomenda. Contar uma história cujo final é sabido deveria ser a maior asa negra do cinema. No entanto, não é. “Titanic” e “A Paixão de Cristo” são dois exemplos palpitantes. Ambos estouraram a boca do balão nas bilheterias. E, tanto na história do barcão como na do Filho do Hômi, todo mundo já sabia a triste conclusão: o navio vai afundar e o cara vai parar na cruz. Então, como explicar a massiva presença de infiéis ansiosos por depositar o valor da entrada e ver os filmes? Mistééério... Talvez o que as gentes querem é ver como as coisas aconteceram. Tarantino sacou esse fetiche nos cinéfilos e entrou para a história ao subverter a ordem de suas narrativas. Assim, criou outra forma de manipular as audiências. Em “Pulp Fiction”, quem não torceu para que Vincent Vega vivesse, apesar de já saber de antemão que o carismático “gangsta” havia encontrado a Desdita sentado no trono, pelas mãos de Butch? Concluímos, portanto, que nem um argumento bizarro, nem a ciência do final da trama são capazes de estragar uma produção. Mas a prova final deste mal-traçado teorema ainda está por vir. E ela atende pelo nome de “Proposta Indecente”. Eu gostaria muito de saber onde diabos está o atrativo desta porcaria – que custou estimados 38 milhões e arrecadou, pasmem, mais de 260. Supostamente, o filme se sustentaria num grande dilema moral. Mas onde diabos está o dilema moral de dormir com o Robert Redford e ainda ganhar um milhão? Polêmica, para mim, seria o senhor Redford oferecer um milhão para dormir com o Didi travestido de Maria Bethânia. E olhe lá! ![]() Alguém me explica onde está a polêmica? Clara McFly às 10:25 AM |
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