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Ei, Tim Burton, cadê o meu cupom? Ele fez mesmo. Quando o boato sobre uma nova versão de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” começou, há três anos, eu jurava que era mentira. Na verdade, acho que era mais uma auto-indução de quem não queria acreditar na ameaça. Sim, porque eu assisto tudo o que é remake, mas admito que eles geralmente não agradam como o original. Por isso ver meu filme predileto refeito era tratado como “ameaça”. Mas ele fez. Tim Burton – o diretor, o homem, o mito – fez. Neste momento gostaria de ser um polvo, para dar todos os meus oito braços a torcer. Primeiro, era tudo mentira. A nova “Fábrica” não é um remake. É a verdadeira versão cinematográfica do livro de Roald Dahl. O escritor britânico publicou a obra em 1964. Daquela cabecinha lindamente torta saiu a história de Charlie, um garoto pobre muito interessado na fábrica de chocolates vizinha à sua casa. Especialista em contos que misturavam horror e fantasia, Dahl, um ex-piloto da Força Aérea, produziu um texto divertido para crianças – mas só aquelas que suportam uma boa dose de susto. E bizarrice. Não é um livro fofinho. Willy Wonka, o dono da fábrica, é um maluco paranóico que trancou-se em seu estabelecimento por décadas devido ao ódio que sentia dos traficantes de segredo industrial. Tempos depois, ele espalha cupons dourados dentro de chocolates que dão direito a cinco crianças visitarem a empresa. Tem, na verdade, um plano muito bem traçado, o Sr. Wonka. Estava mais para história da máfia – com Joe Pescy e Robert De Niro no elenco, claro – do que para fantasia infantil. Mas virou, porque o texto é vibrante e engraçado. E evoca formas divertidas de mostrar às crianças os piores defeitos que ela podem ter. No filme de 1971, Gene Wilder era um Wonka amalucado, sarcástico e bem assustador em certos momentos. Era dele a função de apontar para os vícios dos visitantes da fábrica: Augustus era um alemão ensandecido por comida; Veruca, o máximo da mimada pentelha; Violet era neurótica por ganhar a competição de mastigadora de chiclete; Mike pregava os olhos na TV dia e noite. Todos tinham a permissividade dos pais como apoio. Todos sofreriam as conseqüências. O filme de Tim Burton, que acaba de estrear, traz toda essa gangue de malditos de novo. Traz também os Oompa Loompas, homenzinhos muito bem coreografados para o trabalho de produzir chocolate – e dizer o “eu te disse” cantado para as crianças eliminadas da visita à fábrica. No primeiro filme, eu queria ser amiga de um Oompa. Eles tinham cabelo verde e sobrancelhas brancas. Agora não quero mais... Para Tim Burton, eles têm todos a mesma cara. É estranho. Bom, mas tudo é estranho. O comportamento do empresário Willy Wonka dá arrepios. Alguém bem afirmou: Johnny Depp deve ter se inspirado em Michael Jackson para compor o personagem. De fato, só falta cantar “Beat It”. Ele ri meio fino e afetado, relembra a infância com traumas, vive uma realidade doidona, faz amizade com garotinho... E ainda assim é apaixonante! Quem mais ficaria fazendo versinhos estúpidos como “Chewing gum is really grosse, chewing gum I hate the most”? E diz a um menino pequeno para falar sem meter a língua nos dentes, porque assim não se entende nada? E troca o seguinte diálogo com uma senhora de idade: Vovó Georgina: “O senhor cheira a amendoim!” Willy Wonka, desta vez, rouba a cena. No filme anterior, as crianças ainda tinham alguma vez. Agora, só dá ele. Ele, seu elevador panorâmico que anda para todos os lados, sua bala que nunca termina, seu passado tenso como filho de dentista, seus esquilos descascadores de nozes, suas ovelhas cor-de-rosa... Não disse que era inspirado em Michael Jackson? Mas não se pode ficar comparando os dois filmes. Já se vão 34 anos de diferença entre os lançamentos. Como a década de 70 teria tecnologia suficiente para montar o sonho que montaram Tim Burton e equipe? Bom mesmo é apreciar o ar tosco e cheio de isopor do primeiro e a magia do segundo. Cada um em sua época, são marcos. Para quem tiver o prazer de ver o que vi, não aconselho levar crianças muito pequeninas. Elas não vão entender tudo – e podem se assustar com ataques de esquilos e com meninas inchando feito imensos balões roxos. Eu me assustei, e olha que já sou grande. Não tão grande, porém, que não tenha choramingado e gargalhado com Willy Wonka, Charlie e as histórias de ambos. Acontece desde os sete anos: Charlie abre o chocolate, não acha o cupom dourado e eu me acabo em lágrimas. Depois ele persevera, encontra o passaporte da alegria, e lá vou eu me debulhar de novo. Sempre sonhei em ganhar um cupom dourado. Já ganhei um até! Não foi entregue por Willy Wonka, mas me deixou em êxtase. Queria que fosse de verdade. Ah, Tim Burton, por que foi avivar essa esperança, hein?
Seria Michael Jackson? Com o cabelo da Ana Paula Padrão?? Não, é o Senhor Wonka... Fla Wonka às 10:52 AM |
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