sexta-feira, 22 de julho de 2005

Quanto assunto, Silvio!

Há um atributo erroneamente subestimado na convivência social moderna: o talento para puxar papo. Só notamos o quão importante é a habilidade naqueles dias em que o ônibus demora anos a passar ou nos pegamos sozinhos no elevador com um vizinho. Dividir um espaço tão pequeno com um completo desconhecido é deveras constrangedor. Pessoalmente, acho que manter o silêncio em tais ocasiões torna os ponteiros do relógio ainda mais pesados. É quando pensamos: “ah, se eu tivesse um assunto na manga!”. No entanto, entre os milhões de brasileiros, há um homem que, aposto, jamais se lamentou pela falta de assunto. Isso porque ele o tem até demais.

Silvio Santos é tido como um grande comunicador não só porque ele aparece na televisão, nem porque sua imagem já está mais popular que chinelo havaianas. Tampouco por ter gravado marchinhas de Carnaval de duplo sentido e gosto duvidoso, como “A Pipa do Vovô Não Sobe Mais” (para deleite dos meus ouvidos, confesso). Claro que tudo isso conta – e muito. Mas a essência do poder de comunicação desse senhor está no animado papo que ele engata com os participantes de seus programas.

Vejamos, por exemplo, o caso do “Show do Milhão”. Na antológica atração, descaradamente xerocada do norte-americano “Who Wants to Be a Millionaire”, a pessoa enfrentava uma batelada de perguntas que a levariam a “um milhão de reais em barras de ouro, que valem muito mais que dinheiro” (o que o Patrão quis dizer com isso ainda não entendi).

Antes do candidato a milionário começar a responder as capciosas questões (como “Quem perseguia a Chapeuzinho Vermelho no conto de fadas? A. O lobo mau; B. O urso mau; C. O javali mau; D. A foca má”), sêo Silvio batia um papo com o dito-cujo. Invariavelmente, o apresentador-e-mito indagava o que a pessoa queria fazer com o dinheiro. Daí é que vinha a graça.

Tinha gente que pretendia comprar a tão sonhada casa própria, adquirir mais uma residência para a mãe, negociar um carro para o irmão e arcar com os custos da faculdade da caçula. “E quanto você acha que precisa para tudo isso?”, perguntava o Homem do Baú. E o participante: “Ah, uns cinco mil dá, né, Silvio?”.

Hum. Dois imóveis, um carro e a faculdade... deixa ver... sessenta... vezes dois... mais quinze... sobe um... É. Cinco mil não dá nem pro começo. Ou essas pessoas moram na Preçolândia ou o Roque ensaiava os coitados para dar essa resposta bizarra e divertir as multidões do outro lado da tela. Bom, comigo funcionava. Especialmente quando o oposto acontecia: também havia gente que queria só “terminar o puxadinho lá de casa” – e para tanto precisaria de uns... cem mil.

O fato é que Silvio tem o poder de fazer as pessoas se sentirem em casa, a ponto delas ficarem suficientemente à vontade para levar a cabo cálculos despropositados e dar declarações absurdas como essas. Ou de pularem no pescoço dele, gritando “tira uma foto comigo, Silvio!”. Natural. Na presença do Patrão, eu também faria isso. Nem que fosse só para ouvir o “sai pra lá” do homem.

E não é só. Ele também costuma travar diálogos sensacionais sobre o que as pessoas fazem da vida, tanto no próprio “Show do Milhão” como em outros programas inesquecíveis, como o “Topa Tudo por Dinheiro” e o “Em Nome do Amor”. Até o participante chegar às vias de fato do que foi fazer ali, Silvio vai matando o tempo com todo seu poder de fogo.

“É a primeira vez que você participa do programa?”
“É, sim, Silvio”
“Já participou antes?”
“Não, Silvio”
“Então você nunca esteve aqui, no SBT?”
“Não, senhor, Silvio”
“Certo. É a primeira vez que você vai participar, então?”
“É isso mesmo, Silvio”

Impressionante. E quando Silvio se convence definitivamente de que o cidadão nunca esteve ali, ele passa à fase seguinte:

“E você faz o quê?”
“Eu sou feirante em Catolé do Rocha, Silvio”
“Ahn! E quanto você tira por mês, mais ou menos, como feirante em Catolé do Rocha?”
“Ah... Fica aí na casa de uns mil, Silvio”
“Mil reais?”

“Não, pedro bó. Mil conchinhas de praia”, dá vontade de dizer. Mas o mais incrível é que a gente não diz – e ainda continua assistindo à enrolação:

“E por quanto está saindo o quilo da cenoura lá em Catolé do Rocha?”
“Ah, taí pelos oitenta centavos, Silvio”
“Oitenta centavos, certo. Então, com um e sessenta, eu compro dois quilos de cenoura em Catolé do Rocha, é isso?”
“É isso mesmo, Silvio”

Nessa hora, eu me pergunto porque ainda estou a acompanhar toda essa patuscada e, acima de tudo, porque diabos o Silvio acha que o preço do quilo da cenoura em Catolé do Rocha pode ser interessante para seu público.

Mas o controle remoto permanece intocado – eis a prova cabal do poder de assunto de Sêo Silvio.

silvio-santos-milhao.jpg
Imagina pegar o elevador
com ele todo dia de manhã


Clara McFly às 11:24 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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