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Cante com os políticos Se eles fossem bons administradores como são compositores, o Brasil teria a renda per capita de Mônaco. Políticos deveriam investir em cursos de finanças e faculdades de gestão pública, mas em vez disso preferem gastar fábulas na criação de campanhas atraentes. Péssimo para o nosso bolso – pois hoje sabemos de onde sai a verba para tal publicidade –, ótimo para a memória. Porque em nenhum outro país do mundo existem tantos jingles políticos sensacionais para guardar na lembrança. A rima é patética. A métrica é infame. E aí está a mistura perfeita para fazer as tais musiquinhas grudarem na cabeça feito papel de bala vagabunda. É claro que, ao produzir um tema de candidato na eleição, ninguém quer saber de poesia. Querem é colar na mente e nos fazer repetir aqueles versos como uma seita maligna. O que, por sinal, dá certo. Até eu, que me considero dona de uma carapaça de aço contra ação musical de políticos, já me peguei cantando coisas terríveis como “Lá lá lá lá lá Brizoooola”. Pode? Pode. Aposto que muito reacionário também entoou, em 1989, o emocionante “Lula-lá, com sinceridade/ Lula-lá, com toda a certeza/ Pra você, meu primeiro voto/ Pra fazer brilhar nossa estrela”. E de mãozinhas para o alto, embalando a democracia! Como uma ode dessas pôde perder para Fernando Collor? De qualquer forma, é simplesmente impossível ficar alheio aos jingles em época de campanha eleitoral. São tantas as pérolas que, quando vemos, estamos repetindo o refrão ao lavar louça ou passar aspirador. Espertos, esses tios. Nos pegam desprevenidos e incutem as musiquinhas em nossa pobre cachola para todo o sempre. Duvido que você, politizado leitor, nunca tenha proferido estes malfadados versinhos. Faça a coreografia com Afif Domingos O cidadão não venceu como presidente, mas fez toda uma nação juntar as mãos com dedos indicadores apontados, e dizer o “juntos chegaremos lá”. Ele não alçou o estrelato, nem nós, mas a mímica sim. Cante indignado com a cara-de-pau(lo) de Maluf São Paulo foi Paulo – e foi para o buraco também. Trabalhador ele era mesmo. Os paulistanos só não sabiam que, no caso, o salário de prefeito não era a única féria que o homem embolsava. Ou sabiam? Então como ele elegeu Celso Pitta depois? Raios! Mantra de enganador, com Orestes Quércia Eu cantei em 1986, mas hoje não canto mais por medo da minha língua apodrecer, secar e cair. Nem sequer falo o nome do camarada, que é para não atrair mau-agouro. O sol nasceu para todos mesmo. O de Orestes, ele foi apanhar em algum paraíso fiscal. Jânio, político-gari-e-cantor Tiozinho incrível esse Jânio! Criou o maior factóide da história nacional (insinuou renunciar esperando que lhe dessem mais poderes... mas não é que aceitaram a demissão?). E criou também o jingle mais cantado. Minha avó, fanática, tinha até um bottom da vassourinha. Era bebum e destemperado, o Quadros, mas era engraçado. Bom letrista, grande perdedor Um dos meus prediletos – e de todas as crianças que acompanharam as eleições de... de todos os anos, porque José Maria Eymael se candidatou até a síndico do prédio apenas fazendo versões da música (seria ele o Jorge Vercilo da política?). A levada de sambinha atraiu os ouvidos de petizes por toda a cidade de São Paulo e Eymael, que não tinha nem três minutos de horário eleitoral, virou celebridade. O melhor jingle político é o do velhinho Disparado, o mais divertido e engajado tema já criado para uma campanha. Ulysses Guimarães acertou em organizar as “Diretas, Já!”, mas acertou muito mais ao aceitar ser chamado de velhinho na canção tema. Ele sabia mesmo o que fazia. A não ser quando adentrou aquele helicóptero em dia de tempo ruim... Pena. Perdemos um bom homem público. Mas o jingle ficou! E agora podemos passar as tardes a cantar “Bote fé no velhinho, o velhinho é demais...”.
Consegue imaginar Ulysses cantando a própria musiqinha? Fla Wonka às 10:14 AM |
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