quarta-feira, 20 de julho de 2005

Vai um filminho aí?

Toda vez em que a moça da televisão, aquela que fica diante de mapas e temperaturas, anuncia a chegada de mais uma frente fria típica do inverno no hemisfério sul, muitos de nós acabamos com a mesma vontade: alugar filme. Afinal, se existe algo que combina com uma tarde gelada é um bom entretenimento para ser assistido do sofá, de preferência com uma manta sobre as pernas e um balde de pipoca no colo.

Mas vamos voltar a fita: antes de apertar o “play” do aparelho de DVD, antes de acomodar o traseiro no almofadão e antes de estourar o milho no microondas, os adeptos do cinema doméstico precisam passar por um mesmo ritual – enfrentar a videolocadora. O que parece ser fácil e inofensivo, contudo, pode vir atrelado a várias arapucas. É necessário tomar alguns cuidados naqueles templos para que o final desse programão de inverno seja feliz.

Por isso, sugiro que você imprima o manual que vem a seguir. Leve-o para ser plastificado e mantenha-o na bolsa ou na carteira a cada momento em que a temperatura ameaçar diminuir e a vontade de ver um filminho ameaçar subir...

Não vá com a cara-metade
Uma quer pegar “Razão e Sensibilidade” e o outro teima em segurar a caixa de “Piranhas 2 – Assassinas Voadoras”. Visitar o estabelecimento enquanto casal é tarefa para poucos! Ou vocês tiram no par ou ímpar (no caso, apenas um parceiro vai se divertir), ou levam os dois filmes, ou tentam chegar num acordo amigável. Qualquer uma das situações leva tempo. E muita saliva.

Não procure por filmes alternativos
Quem topa freqüentar a videolocadora deve estar preparado para escolher entre opções comerciais. Dá um pouco de raiva saber que a indústria prefere lançar “Beethoven 5” a colocar na prateleira um especial do Monty Python? Claro que dá! Mas saiba engolir a raiva para ela não atrapalhar seus planos. Até porque às vezes um filmão hollywoodiano vem a calhar na tal tarde gelada.

Não alugue desenhos infantis
Tudo bem: eu adoro “Procurando Nemo”, “Monstros S.A.” e “Shrek”. Porém, lembre-se de que os disquinhos prateados já passaram por mãozinhas travessas. O DVD costuma vir tão riscado que fica difícil precisar se ele serviu de bumerangue ou foi atacado pelo poodle da família. De qualquer maneira, o melhor a fazer é evitar o setor das crianças – e, com isso, evitar também dor de cabeça depois.

Não caia na arapuca dos lançamentos
Quando a nova superprodução chega, seus exemplares tomam metade da loja. É difícil resistir a tamanho apelo. Tente se controlar! Provavelmente você já deve ter visto o filme no cinema e é sempre mais legal optar por um outro título. E se você o perdeu na telona... Bem, espere mais um pouco e economize dinheiro, pois lançamentos custam mais. Não teve pressa na época e vai ter agora?

Não leia o texto no verso da caixa de DVD
O resumo que costuma vir estampado na caixa serve mais para afugentar espectadores do que para atraí-los. Faça um favor para si mesmo e não perca um minuto sequer lendo as letrinhas. Normalmente, elas estragam a surpresa do final. Ou contam uma revelação que era para ser impactante. Ou narram uma história tão sem-graça que você pensa se vale mesmo a pena. Siga seus instintos.

Não vá às sextas e sábados
Quer ficar com a sensação de que a cidade inteira de repente teve a mesma idéia? Então desembarque no local na sexta-feira à noite. Você com certeza terá de disputar a tapas o último título decente que sobrou ali. Em sábados, por outro lado, existem apenas... restos. Tipo “Vovózona”. O melhor dia para passar na videolocadora é quinta-feira. Pelo menos, haverá uma chance maior para o sucesso da missão.

Não opte por sessões temáticas
Digo isso por experiência própria: sou mestre em ter a “brilhante” idéia de pegar, por exemplo, “O Senhor dos Anéis” 1, 2 e 3. No começo parece super legal. Depois, por volta da metade do segundo episódio, você já não está mais agüentando a mesma história, os mesmos personagens e os mesmos atores. O último CD parece nunca acabar, e você corre o risco de cochilar e perder o final.

Não vá com muito tempo disponível
Visitar a videolocadora com tempo de sobra é como ir ao supermercado com fome – sempre acabamos pegando mais do que conseguimos suportar. Lembre-se de que o fim-de-semana não será passado tão somente na frente da televisão. Você também precisará almoçar, jantar, ir ao banheiro, tomar banho, escovar os dentes, dormir... Superlotar sua folga cansa mais do que se estivesse trabalhando.

Não passe na sessão de guloseimas
Os responsáveis pelas lojas jogam muito baixo ao posicionar o setor de salgadinhos, balinhas e sorvetes bem ao lado da fila. Enquanto sua vez não chega, você fica olhando aquele monte de gostosuras e babando. O problema é que lá os artigos custam 10 vezes mais do que em qualquer outro mercado. Então, segure a onda e passe na venda honesta mais perto de sua residência.

Não alugue nada que tenha o Steven Seagal
Se você passou incólume por todas as tarefas acima, é chegada a hora de colocar o filme para tocar... Com a manta, a pipoca e, de preferência, uma boa companhia, é quase impossível o passatempo não ser bacana. Quase. Isso depende, é claro, do escolhido não contar com o tosco do Steven Seagal. Se for “Nico – Acima da Lei”, “Ameaça Subterrânea” ou “Lado a Lado Com o Inimigo”, vá já devolver!

seagal.jpg
Lembre-se: o importante é fugir dele!



Vivi Griswold às 10:43 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
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