sábado, 16 de julho de 2005

Doméstica, amiga e confidente

Eu não queria que a minha vida fosse como as vidas em folhetins televisivos. Naquele mundo colorido e irreal, se a pessoa for honesta, sofre como um cão sarnento e só depois de muitos obstáculos consegue finalmente sorrir. Se for desonesta, usufrui de dinheiro, mansões e prazeres, mas morre em uma explosão no último capítulo. Sem mencionar o fato de que, ali, casamento é sempre o fim da história – e não o começo, como deve ser. E todas as fêmeas acabam grávidas, num espantoso surto reprodutivo que ataca mãe, filha, enteada e cadelinha.

Mas existe um único aspecto das novelas que eu invejo mortalmente e queria para mim: as trabalhadoras domésticas. Empregadas da telinha não apenas lavam, passam e cozinham. Aliás, serviços da casa são o que elas menos fazem. Ou você já viu alguma pegar pesado no batente? A vassoura e o desinfetante cedem espaço ao aconselhamento, ao apoio moral, ao esforço de levantar o ânimo da patroa. Principalmente se a patroa for a Vera Fischer.

Bem, eu não tenho peitão turbinado, não sou loura, não pego garotinho e não falo com voz de velha cirrótica como a tal “deusa”. Mesmo assim, adoraria contratar qualquer uma das domésticas que já passaram pelas casas de personagens globais – desde a mais pobrinha até a mais elegante. Afinal, em novela, basta ter um teto para fazer uso de uma ajudante sorridente sempre a postos. Seja um cafofo no núcleo do subúrbio ou um palacete na parte mais chique do Projac.

Se bem que empregadas de gente rica não são tão boazinhas assim. Elas sempre escutam atrás das portas e conspiram na cozinha com demais serviçais. Também é comum terem um caso com o motorista da dona da casa, o que invariavelmente vai acabar em confusão. Como se não bastasse, ainda servem de testemunha de falcatruas no caso do patrão corrupto ir parar no xilindró. Pensando nisso tudo, eu não queria ser grã-fina. O melhor é ser classe média – não tão miserável, mas também não tão esbanjadora. Aí estão as melhores e mais fiéis domésticas.

Porém, doméstica é nomenclatura um tanto equivocada. No máximo, veremos as moças esfregando um paninho “onde o padre passa”, como diria a minha mãe. Aspirar o tapete, arear a panela ou tirar o mofo do rejunte do banheiro, por exemplo, são atividades que não constam na descrição de tal papel. Uma coisa que elas fazem bastante é ir ao mercado. Já reparou? Vira-e-mexe vemos as serelepes chegando da rua com um saco de papel (ainda que estabelecimentos da vida real usem os infames saquinhos plásticos) cheio de verduras, carne, frutas. Mas cozinhar que é bom, não cozinham.

Ah, quem se importa com a falta de comida no almoço se no café da manhã elas adentram o quarto com uma bandeja cheia de guloseimas? Novamente, aqui, se você for a Vera Fischer, vai sair ganhando. Porque, como já disse, a danada tem um olho para escolher empregada que eu nunca vi! Lá está a patroa com seu penhoar de cetim e sua maquiagem pesada, a sofrer por um novo amor não correspondido. Nisso, chega a fiel escudeira com o pequeno agrado, o coloca delicadamente sobre os joelhos da senhora e senta-se na cama pronta para ouvir lamentações.

No mundo de carne-e-osso, ai da pobrezinha que relasse o traseiro no lençol da dona da casa. Outro detalhe da realidade: a empregada jamais ficaria calada para servir de ombro amigo. Aposto que ela já soltaria uma fofoca bem cabeluda do bairro, ou pediria para a patroa para sair mais cedo pois haveria, justo naquela tarde, um show do Daniel. Mas não na novela! Naquele espaço, há uma aura de cumplicidade que ultrapassa qualquer capricho, qualquer fofoca, qualquer apresentação de cantor brega.

Enquanto no nosso cotidiano domésticas querem é ver a patroa acordar com a boca cheia de formiga – algumas com razão, outras nem tanto –, no folhetim a alegria de sua empregadora já vale qualquer sacrifício. São mais compreensíveis do que monjas budistas: se o dinheiro está curto naquele mês, dizem “tudo bem, no próximo você me paga!”. Não vão à delegacia fazer B.O., não colocam sal no açucareiro e não oferecem seus serviços para a vizinha. Elas sabem que fazem parte da família e que, no último capítulo, vão comemorar a morte do vilão e chorar no casamento da dona da casa (ao qual foram convidadas de honra).

Vida de empregada de novela é boa. Mas a vida de quem tem uma empregada de novela, ah, é melhor ainda.

empregada.jpg
Só faltava serem robóticas

Vivi Griswold às 10:59 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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