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Digam o que quiserem Gente com imaginação demais e tempo de sobra talvez compartilhe comigo dessa estranha mania: às vezes, fico matutando sobre como seria se grandes acontecimentos históricos saíssem errado. Ou, vá lá, sequer acontecessem. A História como a conhecemos, é claro, não existiria. E grandes frases ligadas a ela teriam de dar lugar a declarações menos inspiradoras. Na verdade, tenho certeza de que não sou a única a pensar nessas coisas. Os figurões da História também cogitam a possibilidade do erro. Richard Nixon, por exemplo. Presidente dos Estados Unidos quando da chegada de Armstrong à Lua, ele tinha um discurso pronto para o caso de, er... precisarmos de outro Armstrong. Mas, se a Águia não pousasse, o que será que Neil ia dizer? “É um pequeno passo para um homem, mas um gigantesco salto para a Humanidade” por certo iria para o vinagre. Teria de ser algo mais na linha “er... valeu a tentativa, gente”. Afinal, é difícil ter a mesma eloqüência quando se fracassa. Se bem que uma trupe não exatamente bem-sucedida também cunhou uma expressão famosa na mesma história, a das viagens espaciais. A Apolo 13 devia repetir o feito da 11, mas o funcionamento da nave não estava lá muito bem azeitado. Então, ao avisar para o pessoal em terra que eles estavam com o maior abacaxi nas mãos, surgiu a popular “Houston, we have a problem!”. Mesmo assim, até hoje, há quem diga que a jornada humana ao romântico satélite não passou de um belo de um embuste. Meu vô era um deles. “Bá! É tudo combinado, tonta”, ele falava para a minha mãe. Se o velhinho estava certo e tudo não foi além de uma encenação no deserto de Nevada, a frase poderia ser “Houston, we have a... dog! O bicho tá correndo solto aqui no set, dá para mandar alguém recolher esse maldito vira-lata antes que ele estrague tudo?”. Como Nixon, outro homem precavido era o general Dwight Eisenhower, responsável pelas tropas estadunidenses na Segunda Grande Guerra. Ele também tinha debaixo do quepe umas palavrinhas a dizer se o planejadíssimo desembarque na Normandia não saísse lá essas coisas. Fico imaginando que palavras cairiam bem nessa situação. “Bom, nós tentamos. Obrigado por tudo, desculpem qualquer coisa. Agora, corram, que o hômi do bigodinho tá uma arara!” Não sei se Eike diria exatamente isso, mas decerto seria algo do tipo. O discurso poderia não incluir palavras tão inspiradoras quanto “coragem”, “pátria” ou “liberdade”, mas passaria o recado. Afinal, Patton tinha razão: não se ganha uma guerra morrendo pela sua pátria, mas fazendo o inimigo morrer por ela. Esperto, esse cara. Cá em terras brasileiras, uma das declarações mais famosas é a de D. Pedro I no Dia do Fico. O príncipe decidiu curtir por mais um tempo as belezas tropicais e deixar para o pai a missão de resolver os pepinos que pipocavam lá na Europa. Na ocasião, proferiu a famosa: “Se é para o bem de todos e para a felicidade geral da Nação, diga ao povo que fico”. Particularmente, acho que era mais para o bem dele, mas... enfim. E se Pedro decidisse se mandar? Como ia encarar a comissão que foi encontrá-lo, munida de um abaixo-assinado em que milhares pediam a permanência do herdeiro por aqui? ”Olha, gente, eu agradeço muito o carinho e tudo, mas é que eu estou com uns projetos aí, e nem vai dar, viu. Eu venho nas férias, pode ser?” Duro mesmo não seria ouvir essa do príncipe. Pior seria arrumar um nome para o 9 de janeiro de 1822 passar à História. Dia do Fujo? Dia do Tô-Com-Uns-Projetos-Aí? Dia do Nem Me Viu? Pensando melhor, ainda bem que nada é como eu imagino. ![]() Diga ao povo que... fui!
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