quinta-feira, 14 de julho de 2005

Brega in Rio

O Brasil vai parar por três dias! Milhões de megawats de potência serão ouvidos por todas as partes do país em uma celebração máxima da música popular. O maior festival já visto em nossas terras está prestes a começar – e você não pode ficar fora dessa! Esqueça as famosas bandas estrangeiras que necessitam de 250 toalhas de rosto no camarim... Nesta orgia de sons e luzes, ninguém vai ficar parado, pois o melhor da MPB está para chegar!

Essa seria a minha chamada para um grande show organizado na Praça da Apoteose, Rio de Janeiro. Quando o primeiro “Rock in Rio” foi montado, eu era uma pré-adolescente sem licença sequer para andar de bicicleta na avenida – que dirá viajar até outro estado e ouvir música. Fiquei muito triste naquele 1985. Perdi a apresentação de B-52’s, Blitz e do Queen! Ok, eu nem dava bola para o Freddy Mercury, mas queria estar presente na farra com patrocínio da Malt 90.

Hoje, porém, os megashows instalados a cada década no Brasil não são lá grande coisa. Haja vista que, na última edição do “Rock in Rio” em terras nacionais, marcaram presença em palco a loira Britney Spears, Carlinhos Brown e Sandy & Junior. Não era rock, era só Rio. E nem isso sobrou na quarta versão do evento – montada lá em Lisboa com a presença de roqueiros como... Ivete Sangalo. Devia ter se chamado “Rock in Rio (Tejo)”.

Se armássemos um bom show hoje em dia, eu votaria por esquecer os medalhões e resgatar boas músicas. Canções há muito esquecidas no armário da memória e interpretadas por gente que já figurou na parada do finado Globo de Ouro. Não teria coisa melhor. Esqueceríamos de posar de globalizados, sacudindo a cabeça com roqueiros estrangeiros em fim de carreira. O negócio seria apenas entoar músicas em coro. Quiçá acendendo o isqueiro de vez em quando, para dar clima.

Minha idéia de festival é meio cafona mesmo. Mas duvido que alguém conseguiria não cantar junto com os artistas, de mãozinhas para o alto e olhos semi-cerrados. Em três dias de show, reuniríamos... uns mil neguinhos. E poderíamos alugar o teatro aqui do bairro, muito mais barato que qualquer passarela do samba. E cobrar 7 mangos de entrada, já que o cachê da turma é modesto.

Quem quiser informações sobre o “Brega in Rio” já pode ir anotando ao menos a programação:

Primeiro Dia
Abertura: 14 Bis
Beto Guedes
Kleitor e Kledir
Guilherme Arantes

A noite inicial do evento traz um apanhado de moços chegados no violão. Imaginem o palco todo escuro e os primeiros acordes de “Todo Azul do Mar” (“Foi assim/ Como ver o maaaar/ A primeira vez que meus oooolhos/ Se viram no seu olhar”). Então tudo se ilumina e podemos ver o 14 Bis arrasando com sua canção mais famosa. Depois poderiam cantar “Espanhola”, aquela delícia, e terminar com “Bola de Meia, Bola de Gude”, agitadinha. Quando os rapazes deixassem o local, entraríamos com Betão e o “Sal da Terra”, com a dupla K&K vibrando um “deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau” e “Maria Fumaça”. Para finalizar, Guilherme Arantes nos faria cantar a plenos pulmões assim: “Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado/ À meia-noite, à meia-luz, pensando/ Daria tudo por um modo de esquecer”. Eu iria para casa feliz e enxugando o rosto de emoção.


Segundo Dia
Abertura: Sidney Magal
Zizi Possi
Fábio Jr.
Roupa Nova

Abrir a segunda noite seria o trabalho do mestre Sidão. Sonho com a platéia, toda trajada com camisetas “MAGAL É REI”, balançando braços ao som de “O Meu Sangue Ferve por Você”, “Sandra Rosa Madalena” e, mais do que tudo, “Se Te Agarro com Outro Te Mato”. Para não dizer que a casa viria abaixo com a canção-tema da novela “Rainha da Sucata”. Para baixar a fervura, entraria a doce voz de Zizi cantando “Per Amore” e, depois, aquela gostosa “Perigo é ter você perto dos olhos, mas longe do coração/ Perigo é ver você assim sorrindo, isso é muita tentação”. Em seguida, Izildinha receberia Fábio Jr. no palco para cantarem juntos “Almas Gêmeas” e “20 e Poucos Anos” – a parceria renderia casais se atracando entre o público, eu creio. Para fechar a noite de gala, o Roupa Nova nos brindaria com uma seleção arrasadora: “Dona”, “Linda” (para acompanhar com isqueiro aceso, não esqueçam) e “Whisky a Go-Go”. De tanto sacudir o esqueleto, todos iriam para casa descalços e com a camiseta amarrada na testa, certeza!


Terceiro Dia
Abertura: Gang 90
Pepeu Gomes e Baby Consuelo
(que só será convidada com este nome, e não Baby do Brasil)
Ritchie
Rádio Táxi

Isso sim é noite de rock’n’roll! Começamos com a Gang 90 botando para quebrar com “Perdidos na Selva” – aquela preciosidade que diz “eu e minha gata rolando na relva/ Rolava de tudo/ Covil de piratas pirados/ Perdidos na selva”. Depois Baby e Pepeu mandariam ver “Menino do Rio”, “Masculino e Feminino”. Na interpretação final, junto com as filhas, a família cantaria feliz “a flor do desejo e do maracujá/ Eu também quero beijar”. Então teríamos uma seqüência premiada com Ritchie, a menina veneno e “A Vida Tem Dessas Coisas” (eu gritaria “bis!” ao final de “sei que isso não tem importância, pra você não faz sentido/ Mas a noite aumenta a distância/ Me perdi no seu caminho/ me encontrei falando sozinho/ Sigo sempre sem destino pra te encontrar”). O fechamento do evento bombástico ficaria a cargo de Rádio Táxi e sua Pequena Eva. “Um Amor de Verão” pode ser tocada, mas precisamos terminar com “o nosso amor na última astronave... Eva!/ Além do infinito em vou voar/ Sozinho com você...”. Lindo.

O festival não tem data para acontecer, infelizmente. Então talvez continuemos amargando Britneys e afins por algum tempo. Paciência. Um dia o “Brega in Rio” sai.

Fla Wonka às 11:02 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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